Cortejando Catherine

Histria das Mulheres Calhoun


      Nora Roberts
      Prlogo





      Bar Harbor, Maine
      12 de junho de 1912


      Vi-o sobre os penhascos que davam ao Frenchman Bay. Era alto, de cabelo escuro e jovem. Inclusive da distncia, enquanto caminhava com a mo do pequeno Ethan
na minha, podia ver o ngulo desafiador de seus ombros. Sustentava o pincel como se fora um sabre, a paleta um escudo. Certamente, dava-me a impresso de que sustentava
um duelo com o tecido em vez de pint-lo. To profunda era sua concentrao, to veloz e intenso o movimento da boneca, que no custava acreditar que sua vida dependia 
do que ali criava.
      
      Possivelmente assim fora.
      
      Pareceu-me estranho, inclusive divertido. A imagem que tinha dos artistas sempre tinha sido a de almas gentis que vem coisas que ns, os mortais, no podemos 
ver, e que sofrem em sua busca para as criar para ns.
      
      Entretanto, e antes de que se voltasse para me olhar, soube que no veria uma cara gentil.
      
      Dava a impresso de que ele mesmo era produto de um artista. Um escultor que tinha gentil um tabuleiro de carvalho, esculpindo uma frente larga, uns olhos 
escuros e velados, um nariz reta e larga e uma boca plena e sensual. At a queda de seu cabelo poderia ter estado esculpida em bano.
      
      Como me olhou! At agora posso sentir o rubor em minha cara e o suor em minhas mos. O vento aninhava em seu cabelo, doce e mido procedente do mar, e lhe 
agitava a camisa ampla, manchada pela pintura. Com as rochas e o cu a suas costas, parecia muito orgulhoso, muito furioso, como se fora o proprietrio desse saliente 
de terra, ou de toda a ilha, e eu fora a intrusa.
      
      Permaneceu em silencio o que pareceu uma eternidade, seus olhos to intensos, to penetrantes, que fiquei muda. Ento o pequeno Ethan comeou a tagarelar e 
a atirar de minha mo. O brilho furioso daqueles olhos se suavizou. Sorriu. Sei que em semelhantes momentos um corao no se detm. No obstante...
      
      Pu-me a gaguejar e a me desculpar pela intruso, elevando ao Ethan em braos antes de que meu brilhante e curioso pequeno pudesse lanar-se para as rochas.
      
      -Espere -disse ele.
      
      Tomou um caderno e um lpis e comeou a desenhar enquanto eu permanecia imvel e tremente por motivos que no sou capaz de vislumbrar. Ethan no parou de sorrir, 
como se estivesse to hipnotizado pelo homem como eu. Podia sentir o sol em minhas costas e o vento na cara, podia cheirar a gua e as rosas silvestres.
      
      -Deveria levar o cabelo solto -disse; fez a um lado o lpis e se dirigiu para mim-. pintei postas de sol menos dramticas -alargou a mo e tocou o brilhante 
cabelo vermelho do Ethan-. Compartilha a cor com seu irmo pequeno.
      
      -Meu filho -por que minha voz soava to trmula?-  meu filho. Sou a senhora do Fergus Calhoun disse enquanto seus olhos pareciam me devorar a cara.
      
      -Ah, As Torres -olhou alm de mim para o lugar no que as cpulas e os minaretes de nossa casa do vero se podiam ver no penhasco mais alto-. admirei sua casa, 
senhora Calhoun.
      
      antes de que pudesse responder, Ethan alargou os braos, rendo, e o homem o elevou em velo. Solo fui capaz de olh-lo fixamente, ali de p com as costas ao 
vento, sustentando a meu filho, acomodando-o com facilidade no quadril.
      
      -Um menino estupendo.
      
      -E enrgico. Quis tir-lo dar um passeio para lhe dar um descanso a sua bab. Meus outros dois filhos juntos lhe do menos problemas que Ethan.
      
      -Tem outros filhos?
      
      -Se, uma menina um ano maior que Ethan e um beb que ainda no cumpriu o ano. chegamos ontem para passar aqui a temporada.  Vive voc na ilha?
      
      -por agora. Posar para mim, senhora Calhoun?
      
      Ruborizei-me. Mas por debaixo da vergonha senti um prazer profundo e sonhador. Entretanto, sabia que seria algo pouco decoroso e conhecia o temperamento do 
Fergus. Assim que me neguei, esperei que com cortesia. No insistiu, e me envergonha dizer que senti uma aguda decepo. Quando devolveu ao Ethan, no me tirou a 
vista de cima; tinha uns olhos de um cinza escuro que davam a impresso de ver algo mais que minha cara. Possivelmente mais do que ningum tinha visto com antecedncia. 
despediu-se, de modo que me voltei para retornar com meu filho de volta s Torres, meu lar e meus deveres.
      
      Soube com tanta certeza como se me tivesse girado para olhar, que me observou at que fiquei oculta pelo penhasco. O corao me troava.
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      Bar Harbor 1991
      
      
      Trenton St. James III estava de um humor de ces. Era o tipo de homem que esperava que as comporta lhe abrissem quando chamava, e que os telefones lhe respondessem 
quando marcava. O que no esperava, e odiava tolerar, era que seu carro lhe avariasse em um caminho estreito de dois sulcos a quinze quilmetros de seu destino. 
Ao menos o telefone do carro lhe tinha permitido localizar ao mecnico mais prximo. No lhe tinha feito muita graa entrar em Bar Harbor na cabine da grua, enquanto 
uma msica estridente soava pelos alto-falantes e seu rescatador cantava, desafinando, entre bocados a um enorme sanduche de presunto.
      
      -Hank, simplesmente me chame Hank -havia-lhe dito o condutor, para logo beber um bom gole de uma garrafa de refresco-. C.C. arrumar-lhe o carro rapidamente. 
No h outro mecnico igual em Maine, pergunte-lhe a qualquer.
      
      Trent decidiu que nessas circunstncias teria que aceitar a palavra do assim chamado Hank. Com o fim de economizar-se tempo e problemas, fez que o tipo o deixasse 
 entrada do povo, com instrues sobre como chegar  oficina e um sujo carto que Trent estudou enquanto a sustentava com cautela com a ponta sotaques dedos.
      
      Mas como com qualquer outra situao em que pudesse achar-se, decidiu aproveit-la. Enquanto se ocupavam de seu carro, realizou meia dzia de chamadas a seu 
escritrio de Boston, para pr o medo de Deus em suas secretrias, ajudantes e vice-presidentes. Isso melhorou um pouco seu estado de nimo.
      
      Comeu na terrao de um restaurante pequeno, emprestando mais ateno aos documentos que tirou da maleta que a excelente salada de lagosta ou a suave brisa 
primaveril. Comprovou a hora freqentemente, bebeu muito caf e com impaciente olhos castanhos estudou o trfico que subia e baixava pela rua.
      
      Duas das garonetes falaram bastante dele. Era comeos de abril, faltavam semanas para a inaugurao da temporada, de maneira que o local no transbordava 
de clientes.
      
      Convieram em que era arrumado, do alto de seu cabelo loiro escuro at a ponta de seus brilhantes sapatos italianos. Coincidiram em que era um homem de negcios, 
sem dvida importante, devido  maleta de pele e ao elegante traje cinza. Alm disso, levava gmeos nos punhos da camisa. De ouro.
      
      Enquanto preparavam os guardanapos e os talheres para o seguinte turno, decidiram que era jovem para a fila que ostentava, no mais de trinta anos. Enquanto 
se alternavam para lhe preencher a taa de caf e observ-lo mais de perto, o voto unnime que deram foi que resultava descaradamente atrativo, com rasgos limpos 
e marcados, com um ar refinado que teria sido muito polido de no ser pelos olhos.
      
      Eram escuros, tristes e impaciente, o que fez que as garonetes especulassem com que tivesse podido plant-lo uma mulher. Embora no foram capazes de imaginar 
a uma mulher corda realizando semelhante loucura.
      
      Trent no lhes emprestou mais ateno que a qualquer pessoa que cumprisse um servio pago. Isso as decepcionou. A gorjeta exorbitante que deixou o compensou. 
O teria surpreso que a gorjeta pudesse ter significado algo mais para as mulheres se a tivesse devotado com um sorriso.
      
      Fechou a maleta e se preparou a caminhar a passo vivo at a oficina no extremo do povo. No era um homem frio e no se considerou distante. Sendo um St. James, 
tinha crescido com criados que em silncio e com eficcia tinham desempenhado a tarefa de fazer que sua vida fora mais singela. Pagava bem, inclusive com generosidade. 
Se no mostrava nenhum agradecimento manifesto ou interesse pessoal, simplesmente se devia a que jamais lhe passava pela cabea.
      
      Nesse momento, tinha a mente concentrada no trato que esperava fechar no fim de semana. dedicava-se aos hotis, com nfase no luxo e os balnerios. O vero 
anterior, o pai do Trent tinha localizado uma propriedade enquanto navegava em iate com sua quarta esposa pelo Frenchman Bay. Assim como o instinto do Trenton St. 
James II no referente s mulheres era conocidamente caprichoso, seu instinto para os negcios jamais falhava.
      
      Quase imediatamente tinha iniciado as negociaes para adquirir a enorme casa de pedra que dava ao Frenchman Bay. Seu apetite se viu incrementado pela negativa 
dos donos de vender. Como cabia esperar, no puderam resistir ao Trenton pai e o trato estava a ponto de fechar-se.
      
      At que Trent se encontrou com o negcio sobre o regao quando seu pai se viu imerso em um divrcio complicado.
      
      Pensou que a esposa nmero quatro tinha durado quase dezoito meses. Dois meses mais que a nmero trs. Com fatalismo aceitava que no demoraria para aparecer 
uma quinta. O velho tinha tanto vcio ao matrimnio como aos negcios imobilirios.
      
      Estava decidido a fechar o trato de Las Torres antes de que se secou a tinta da ltima sentena de divrcio. Assim que tirasse o carro da oficina, iria jogar 
lhe uma olhada ao lugar.
      
      Enquanto atravessava o povo, e devido  poca do ano, muitas das lojas estavam fechadas, mas pde ver as possibilidades. Sabia que durante a temporada, as 
ruas de Bar Harbor se achavam lotadas de turistas com cartes de crdito e cheques de viagem preparadas para usar. E os turistas necessitavam hotis. Levava as estatsticas 
na maleta. Calculava que com um slido planejamento, em quinze meses As Torres poderiam monopolizar uma boa percentagem desse negcio turstico.
      
      Quo nico tinha que fazer era convencer a quatro mulheres sentimentais e a sua tia a aceitar o dinheiro.
      
      Ao girar pela esquina que conduzia ao mecnico, voltou a olhar a hora. Tinha-lhe dado exatamente duas horas para ocupar-se da avaria que pudesse ter sofrido 
o BMW. Estava convencido de que isso era suficiente.
      
      Poderia ter tomado o avio da empresa de Boston. Teria sido mais prtico, e Trent era um homem pragmtico. Mas tinha querido conduzir. "Necessitava-o", reconheceu. 
Tinha necessitado essas poucas horas de tranqilidade e solido.
      
      O negcio florescia, mas sua vida pessoal se ia ao garete.
      
      Quem teria imaginado que Maria ia lanar lhe de repente um ultimato? Matrimnio ou nada. Era algo que ainda o desconcertava. Desde o comeo da relao ela 
tinha sabido que o matrimnio nunca tinha sido uma opo. No tinha inteno de subir  montanha russa que tanto gostava a seu pai.
      
      No era que no lhe tivesse tido carinho. Era formosa e de bom bero, inteligente e triunfadora em seu campo de desenho de roupa. Com a Maria, jamais havia 
um cabelo desconjurado, e Trent apreciava esse tipo de meticulosidade em uma mulher. Do mesmo modo que tinha apreciado a atitude prtica que tinha mostrado para 
a relao.
      
      Tinha afirmado que no queria matrimnio, filhos ou juramentos de amor eterno. Ao Trent parecia uma traio pessoal que de repente tivesse trocado seu discurso 
e o tivesse exigido tudo.
      
      No tinha sido capaz de dar-lhe 
      
      Duas semanas atrs se separaram, rgidos como dois desconhecidos. Ela j estava comprometida com um jogador de golfe.
      
      Doa. Mas tambm o convencia de que tinha tido razo em todo momento. As mulheres eram criaturas instveis e caprichosas, e o matrimnio era uma espcie de 
suicdio sem derramamento de sangue.
      
      Ela nem sequer o tinha amado. Graas a Deus. Simplesmente tinha querido "compromisso e estabilidade", segundo suas prprias palavras. Agradado, Trent acreditava 
que no demoraria para descobrir que o matrimnio era o ltimo stio no que encontrar essas duas coisas.
      
      Como sabia que era pouco produtivo atrasar-se nos enganos, permitiu que os pensamentos da Maria desaparecessem de sua mente. Decidiu que se tiraria frias 
das mulheres.
      
      deteve-se no exterior do edifcio de madeira branca com carros no estacionamento. O letreiro sobre as portas abertas da oficina punha Automocin C.C. Justo 
debaixo do ttulo, que ao Trent resultou ostentoso, havia um oferecimento de grua as vinte e quatro horas, reparao completa de veculos estrangeiros e nacionais 
e pressuposto sem compromisso.
      
      Atravs das portas lhe chegou o som de msica de rock. Suspirou ao entrar.
      
      Seu BMW tinha o cap levantado e um par de botas sujas apareciam por debaixo do carro. O mecnico movia os tales das botas ao ritmo da msica estrepitosa. 
Com o cenho franzido, Trent olhou ao redor da zona dedicada  oficina. Cheirava a graxa e a madressilva, uma combinao ridcula. O lugar era um caos sujo de ferramentas 
e repostos.
      
      Na parede havia um pster que estipulava que no se aceitavam cheques.
      
      Outros expor os servios que proporcionava a oficina e seus preos. Trent sups que eram razoveis, mas no tinha vara com que medi-los. Contra uma parede 
havia duas mquinas vendedoras; algum oferecia refrescos e a outra comida lixo. Uma lata de caf continha mudana que os clientes tinham liberdade para recorrer 
ou contribuir a ele. "Um conceito interessante", pensou.
      
      -Perdo -disse. As botas seguiram marcando o ritmo-. Perdo -repetiu, mais alto. A msica incrementou o tempo, imitada pelas botas. Trent tocou uma com o sapato.
      
      -O que? -a resposta que lhe chegou era amortecida e irritada.
      
      -Eu gostaria de saber como vai meu carro.
      
      -Fique  cauda -ouviu-se o golpe de uma ferramenta e uma maldio.
      
      Trent arqueou as sobrancelhas e logo as franziu de um modo que fazia tremer a seus subordinados.
      
      -Ao parecer j sou o primeiro.
      
      -Neste momento se encontra por detrs do carro deste idiota. Deus me salve dos esnobes ricos que compram um carro como este e no se incomodam em averiguar 
a diferena entre um carburador e uma chave para trocar rodas. Aguarde um minuto, amigo, ou fale com o Hank. Anda por alguma parte.
      
      Trent ia vrias oraes por detrs de "idiota".
      
      -Onde est o dono?
      
      -Ocupado. Hank! -a voz do mecnico se elevou em um rugido-. Maldita seja. Hank! Aonde diabos se foi?
      
      -No sei -Trent se aproximou at a rdio e a apagou-. Seria muito lhe pedir que sasse de debaixo do carro e me informasse do estado no que se encontra meu 
carro?
      
      -Sim -desde seu stio sob o BMW, C.C. estudou os sapatos italianos e imediatamente lhe desagradaram-. Neste momento ando com as mos enche. Se tiver tanta 
pressa, pode baixar e me emprestar uma das suas ou dirigir-se at a oficina do McDermit, no Northeast Harbor.
      
      -No posso conduzir, j que voc est sob meu carro -embora a idia era tentadora.
      
      - dele? -C.C. ajustou uns pernos. O tio exibia um acento refinao de Boston a jogo com os sapatos-. Quando foi a ltima vez que lhe fez uma posta a ponto?
      
      -Eu no...
      
      -No me cabe nenhuma dvida -na voz rouca se notou uma satisfao seca que crispou ao Trent-. Sabe?, no compra simplesmente um carro, a no ser uma responsabilidade. 
Muita gente no ganha no ano o que custa o seu. Com uma cuidado e manuteno razoveis, este cacharro poderia chegar at seus netos. Os carros no so artigos descartveis. 
A gente os faz dessa maneira porque  muito preguiosa ou estpida para ocupar-se do bsico. Teria que lhe haver trocado o lubrificante faz seis meses.
      
      Os dedos do Trent tamborilaram sobre o flanco da maleta.
      
      -Jovem, lhe paga para ocupar-se de meu carro, no para me dar discursos sobre a responsabilidade que tenho para ele -em um hbito to enraizado como respirar, 
olhou a hora-. E agora eu gostaria de saber quando o vou ter preparado, j que me esperam vrias entrevistas.
      
      -O discurso  grtis -C.C. impulsionou a maca fora de debaixo do carro-. E no sou seu jovem.
      
      Isso lhe resultou bastante bvio. Embora a cara estava manchada e o cabelo escuro talhado com um estilo varonil, o corpo embainhado em um peitilho gordurento 
era decididamente feminino. Cada centmetro. Estranha vez Trent no sabia o que dizer, mas nesse instante ficou quieto, olhando fixamente ao C.C. quando esta se 
levantou da maca para encar-lo enquanto fazia oscilar uma chave inglesa na mo.
      
      Indo alm das manchas negras na cara, pde ver que tinha uma pele muito branca em contraste com seu cabelo de cor bano. Sob a franja, observava-o com uns 
olhos verde bosque entrecerrados. Os lbios sensuais e sem pintura estavam franzidos no que, em outras circunstncias, teria sido uma careta muita sexy. Era alta 
para ser mulher, com uma compleio como a de uma deusa. Compreendeu que era ela quem cheirava a azeite e a madressilva.
      
      -Algum problema? -perguntou C.C. Era bem consciente de que a tinha percorrido de cima abaixo com o olhar. Estava acostumada. Mas no tinha por que lhe gostar 
de.
      
      A voz sortia um efeito completamente distinto quando um homem se dava conta de que esses tons roucos pertenciam a uma mulher.
      
      - voc a mecnica!
      
      -No, sou a decoradora de interiores.
      
      Trent olhou em torno do oficina, com o estou acostumado a manchado de azeite e os bancos cheios de ferramentas.
      
      -Desempenha um trabalho interessante -comentou, sem poder resistir.
      
      Com um suspiro, ela arrojou a chave sobre um banco.
      
      -Ter que trocar o filtro de azeite e o do ar. O carburador necessitava uns ajustes. Segue necessitando a mudana de azeite lubrificante e terei que limpar 
o radiador.
      
      -Funcionar?
      
      -Sim, funcionar -tirou um trapo do bolso e comeou a limp-las mos. Julgou-o como o tipo de homem que cuidava mais de suas gravatas que de seu carro. encolheu-se 
de ombros e voltou a guardar o trapo. No era assunto dele-. Venha ao escritrio e poderemos jogar contas.
      
      Conduziu-o atravs da porta que havia ao fundo da oficina, para um corredor estreito que girava e desembocava em um escritrio com paredes de cristal. Estava 
enche com um escritrio lotado, catlogos de repostos, um bote de chicletes pela metade e duas cadeiras giratrias largas. C.C. sentou-se e, com a preciso sobrenatural 
das pessoas que acumulam papis sobre sua mesa, apoiou com certeza a mo sobre as faturas.
      
      -Em efetivo ou com carto? -perguntou.
      
      -Carto -distrado tirou a carteira. assegurou-se que no era sexista. Com meticulosidade se certificou de que em sua empresa as mulheres recebessem o mesmo 
pagamento e oportunidade de ascenso que qualquer homem. Jamais lhe ocorreu preocupar-se de que seus empregados fossem mulheres ou homens, sempre e quando fossem 
eficientes, leais e de confiana. Mas quanto mais olhava  mulher que preenchia a fatura, mais convencido estava de que no encaixava com a imagem que pudesse ter 
algum de um mecnico de carros-. Quanto tempo leva trabalhando aqui? -surpreendeu-se para ouvir-se. As perguntas pessoais no formavam parte de seu estilo.
      
      -Com mais ou menos intensidade dos doze anos -os olhos verdes subiram aos seus-. No se preocupe. Sei o que fao. Qualquer trabalho que se leve a cabo em minha 
oficina est garantida.
      
      -Sua oficina?
      
      -Minha oficina -extraiu uma calculadora e comeou a tirar o total com dedos largos e elegantes que ainda estavam sujos. Crispava-a. "Possivelmente so os sapatos", 
pensou. "Ou a gravata". Havia algo arrogante em uma gravata marrom-. Estes so os danos -girou a fatura e ficou a detalh-la ponto por ponto.
      
      O no emprestava ateno, algo incomum. Era um homem que lia cada palavra de cada papel que passava por seu escritrio. Mas a observava a ela, sinceramente 
fascinado.
      
      -Alguma pergunta? -elevou a vista e se encontrou com seus olhos. Quase pde ouvir o clique.
      
      -Voc  C.C.?
      
      -Exato -viu-se forada a pigarrear. "Ridculo", disse-se. Esse homem tinha olhos correntes. Possivelmente fossem um pouco mais escuros e intensos que o que 
tinha notado em um princpio, mas seguiam sendo correntes. No havia nenhum motivo pelo que no pudesse deixar de olh-los. Mas no o fez.
      
      -Tem graxa na bochecha -murmurou ele, e lhe sorriu.
      
      A mudana foi assombroso. Passou de ser um homem arrogante e molesto a um quente e aberto. A boca lhe suavizou ao curvar-se, a impacincia nos olhos desapareceu. 
Nesse momento neles se via um humor afvel que resultava irresistvel. C.C. no pde evitar lhe devolver o sorriso.
      
      - parte do trabalho -"possivelmente fui um pouco brusca", refletiu, e se esforou por corrigi-lo-. Voc  de Boston, verdade?
      
      -Sim. Como o soube?
      
      No deixou de sorrir ao encolher-se de ombros.
      
      -Entre a matrcula de Massachusetts e seu acento, no foi difcil adivinh-lo. Na ilha recebemos muito comrcio de Boston. Est aqui de frias?
      
      -Negcios -tentou recordar a ltima vez que se tirou frias, sem xito. "Dois anos? Trs?".
      
      C.C. tirou um portapapeles de debaixo de um monto de catlogos e estudou a agenda do dia seguinte.
      
      -Se for ficar um tempo, poderamos lhe fazer a mudana de lubrificante manh.
      
      -Terei-o em conta. Voc vive na ilha?
      
      -Sim. Toda minha vida -a poltrona rangeu quando subiu as pernas para sentar-se ao estilo ndio-. Tinha estado em Bar Harbor com antecedncia?
      
      -De menino passei aqui um par de fins de semana com minha me -parecia-lhe que tinha passado mais de uma vida-. Talvez poderia me recomendar alguns restaurantes 
e pontos de interesse. Possivelmente consegui tirar um pouco de tempo livre.
      
      -No se perca o parque -tirou um papel e ficou a escrever-. Com os pescados e os frutos do mar no pode equivocar-se, e ainda no estamos em plena temporada, 
de modo que no sofrer caudas e falta de lugar -ofereceu-lhe o papel, que ele dobrou e guardou em um bolso.
      
      -Obrigado. Se no estar ocupada esta noite, talvez possa me ajudar a provar os frutos do mar locais. Poderamos falar do carburador.
      
      Aturdida e adulada, alargou a mo para tomar o carto de crdito que lhe ofereceu. achava-se a ponto de aceitar quando leu o nome impresso.
      
      -Trenton St. James III.
      
      -Trent -pediu ele com um sorriso.
      
      "Encaixa", pensou C.C. "Claro que encaixa". Carro elegante, traje elegante, maneiras elegantes. Deveu imagin-lo imediatamente. Deveu cheir-lo. Crispada, 
passou o carto pelo leitor.
      
      -Assine aqui.
      
      Trent tirou uma fina pluma de ouro e assinou enquanto ela se incorporava e se dirigia a um pequeno armrio para retirar as chaves do carro. Girou a cabea 
no momento em que ela as arrojava. Conseguiu as capturar antes de que lhe golpeassem a cara. Fez-as soar na mo e se levantou para olh-la. Ela tinha as mos nos 
quadris e as faces dominadas pela fria.
      
      -Com um simples "no" teria bastado.
      
      -Os homens como voc no entendem um simples "no" -C.C. voltou-se para a parede de cristal, logo girou com brutalidade-. De ter sabido quem era, lhe teria 
perfurado o silenciador.
      
      Devagar, Trent se guardou as chaves no bolso. Seu temperamento era famoso. No era aceso, j que isso teria sido fcil de esquivar. Era gelo. Ali de p se 
apoderou C ele, paraliso-lhe os olhos e o tenso a boca.
      
      -Quereria explicar-se?
      
      C.C. caminhou para ele at que ficaram pegos.
      
      -Sou Catherine Colleen Calhoun. E quero que mantenha suas ambiciosas mos longe de minha casa.
      
      Trent no disse nada por um momento, enquanto adaptava seus pensamentos. Catherine Calhoun, uma das quatro irms proprietrias de Las Torres, e uma que ao 
parecer era bastante reacia  venda. Como ia ter que negociar com as quatro, bem podia comear ali mesmo.
      
      - um prazer, senhorita Calhoun.
      
      -Para mim no -baixou a vista e separou a cpia do recibo do carto de crdito-. Volte a colocar seu traseiro nesse BMW e retorne a Boston.
      
      -Fascinante expressividade -sem deixar de olh-la, dobrou o papel e o guardou no bolso-. Entretanto, voc no  a nica parte envolta.
      
      -No vai converter minha casa em um de seus luxuosos hotis para debutantes aborrecidas e falsos condes italianos.
      
      Ele esteve a ponto de sorrir.
      
      -alojou-se em um dos hotis St. James?
      
      -No tenho que faz-lo, sei como so. Recepes de mrmore, elevadores de cristal, candelabros de seis metros e fontes de gua em qualquer parte.
      
      -Tem algo contra as fontes?
      
      -No quero uma em meu salo. por que no vai executar a hipoteca de alguma viva ou rfo e nos deixa em paz?
      
      -Por desgraa, no tenho nenhuma execuo hipotecria planejada para esta semana -elevou a mo quando ela grunhiu-. Senhorita Calhoun, vim aqui a pedido de 
seu enlace. Sejam quais forem seus sentimentos pessoais, As Torres tem outras trs proprietrias. No penso partir at no ter falado com elas.
      
      -Pode falar at que seus pulmes fiquem sem ar, mas... que enlace?
      
      -A senhora Cordelia Calhoun McPike.
      
      A cor da cara do C.C. flutuou um pouco, mas no deu marcha atrs.
      
      -No lhe acredito.
      
      Sem dizer uma palavra, Trent deixou sua maleta sobre os papis da mesa e introduziu a combinao. De uma de suas pastas ordenadas que tirou uma carta escrita 
em um grosso papel marfim. O corao do C.C. deu um tombo. A tirou da mo e leu.
      
      
      Estimado senhor St. James:
      
      As mulheres Calhoun tomaram em considerao a oferta que lhes tem feito por Las Torres. Como se trata de uma situao complexa, consideramos que seria o melhor 
para todos discutir os trminos em pessoa em vez de nos comunicar por carta.
      
      Como representante delas, eu gostaria de convid-lo s Torres -C.C. emitiu um gemido afogado- uns dias. Considero que este enfoque mais pessoal ser de benefcio 
mtuo. Estou segura de que convir em que uma inspeo da propriedade mais prxima e informal representar uma vantagem para voc.
      
      Por favor, se lhe interessar este acordo, pode ficar em contato comigo em Las Torres.
      
      Uma cordial saudao
      
      Cordelia Calhoun McPike
      
      
      C.C. leu a carta duas vezes com os dentes apertados. A teria espremido se Trent no a tivesse resgatado para voltar a guard-la na pasta.
      
      -Tenho que dar por feito que no a informou do acordo?
      
      -Informar-se me  obvio que no me informou. Essa maldita... OH, tia Coco, vou matar te.
      
      -Suponho que a senhora McPike e a tia Coco so a mesma pessoa.
      
      -Alguns dias custa diz-lo -girou-. Mas as duas estaro mortas.
      
      -Prefiro soslayar a violncia familiar, se no lhe importar.
      
      C. C. colocou as mos no peitilho e o olhou com olhos cintilantes.
      
      -Se sua inteno segue sendo alojar-se em Las Torres, ser impossvel evit-la.
      
      -Ento me arriscarei -aceitou.
      2
      
      
      
      A tia Coco se achava concentrada colocando as rosas do estufa em dois dos vasos do Dresde que ainda terei que vender. Enquanto trabalhava, cantarolava um xito 
de rock. Como o resto das mulheres Calhoun, era alta, e gostava de pensar que sua figura, que solo tinha engordado um pouco na ltima dcada, tinha um aspecto majestoso.
      
      vestiu-se e penteado com cuidado para a ocasio. Essa semana levava o cabelo curto e tingido de vermelho, algo que a agradava enormemente. Para Coco, a vaidade 
no era um pecado nem um defeito de carter, a no ser o dever sagrado de uma mulher. O rosto, que se sustentava  perfeio graas ao lifting ao que o tinha submetido 
seis anos atrs, estava maquiado de forma escrupulosa. Das orelhas penduravam suas melhores prolas, as mesmas que lhe rodeavam o pescoo. Com uma rpida olhada 
ao espelho do vestbulo, decidiu que o vestido negro era dramtico e elegante. As sandlias que levava soavam satisfatoriamente sobre o cho de nogueira e a faziam 
chegar ao metro oitenta.
      
      Com sua figura imponente e, certamente, real, foi de uma habitao a outra para comprovar por ensima vez cada detalhe. Suas garotas possivelmente se mostrassem 
um pouco molestas porque tivesse convidado a algum sem mencion-lo. Mas sempre podia atribui-lo a sua distrao. Algo que fazia sempre que lhe convinha.
      
      Coco era a irm menor do Judson Calhoun, quem se tinha casado com o Deliah Brady e tido quatro filhas. Judson e Deliah, a que Coco tinha querido muito, tinham 
morrido quinze anos atrs quando seu avio privado tinha cansado no Atlntico.
      
      Aps, esforou-se em ser pai, me e amiga de suas formosas e pequenas rfs. Viva durante quase vinte anos, Coco era uma mulher arrebatadora com uma mente 
retorcida e um corao da consistncia da nata de malvaviscos. Queria, e estava decidida a ter, o melhor para suas garotas. Sem importar que lhes gostasse ou no. 
Com o interesse que mostrava Trenton St. James por Las Torres, viu uma oportunidade.
      
      Importava-lhe um nada que comprasse essa casa mais parecida com uma fortaleza. Embora s Deus sabia o tempo que poderiam ret-la, com os impostos, os gastos 
de manuteno e as faturas de calefao. No concernente a ela, Trenton St. James III podia ficar a ou deix-la. Mas tinha um plano.
      
      Sem importar a deciso que adotasse no referente  casa, ia perder a cabea por uma das garotas. No sabia por qual. Tinha provado com a bola de cristal, mas 
ainda no lhe tinha ocorrido um nome.
      
      Mas sabia. Tinha-o sabido nada mais chegar a primeira carta. O menino ia se levar a uma de suas garotas para lhe brindar uma vida de amor e luxo. No ia permitir 
que nenhuma delas tivesse o um sem o outro.
      
      Suspirou e arrumou a vela no candelabro Lahque. Ela tinha podido lhes brindar amor, mas no luxo... Se Judson e Deliah tivessem seguido com vida, as coisas 
teriam sido diferentes. Sem dvida Judson teria sido capaz de sair das dificuldades financeiras que tinha estado sofrendo. Com sua inteligncia e a persistncia 
do Deliah, teria sido algo muito temporrio.
      
      Mas no tinham vivido e o dinheiro se converteu em um problema crescente. Como odiava ter que vender pea a pea a herana das garotas com o fim de manter 
o teto em mal estado que tanto amavam sobre suas cabeas.
      
      "Possivelmente seja Suzanna", pensou, cavando as almofadas do sof do salo. A pobre tinha o corao quebrado pelo canalha intil com o que se casou. Esticou 
os lbios. Pensar que as tinha enganado a todas. Inclusive a ela! Fazia desgraada a vida de sua pequena, para logo divorciar-se e casar-se com aquele bombom que 
era todo peito.
      
      Suspirou desgostada e elevou uns olhos pequenos para o estuque gretado do teto. ia ter que comprovar que Trenton encaixasse como pai dos dois filhos da Suzanna. 
E se no era assim...
      
      Estava Lilah, um formoso esprito livre. Lilah necessitava a algum que soubesse apreciar a mente vivaz e o estilo excntrico que tinha. Algum que a cuidasse 
e a assentasse Sozinho um pouco. Coco no toleraria a ningum que tratasse de apagar a inclinao mstica de sua querida pequena.
      
      Possivelmente seria Amanda. Arrumou uma cortina para que tampasse um buraco de camundongo. A teimosa e pragmtica Amanda. Que casal formariam! O homem de negcios 
de xito e sua mulher. Mas ele deveria ter um lado mais brando, que reconhecesse que Mandy precisava cuidados, ao igual a respeito. Embora nem ela mesma o reconhecesse.
      
      Com um suspiro satisfeito, foi do salo ao comilo, logo  biblioteca e dali ao estudo.
      
      Logo estava C.C. Moveu a cabea ao tempo que arrumava um quadro para que tampasse em sua major parte as manchas do velho papel de seda da parede. Essa menina 
tinha herdado em abundncia a teima dos Calhoun. Uma adorvel jovem que desperdiava sua vida manipulando motores e bombas de gasolina. Que o cu as protegesse.
      
      Resultava duvidoso que um homem como Trenton St. James III fora a interessar-se em uma mulher que passava todo seu tempo debaixo de um carro. Embora com vinte 
e trs anos C.C. era a pequena da famlia. Considerava que dispunha de tempo mais que suficiente para lhe encontrar um marido a sua pequena.
      
      Decidiu que o cenrio estava preparado. E faltava pouco para que o senhor St. James entrasse no Primeiro Ato.
      
      A porta dianteira se fechou com fora. Coco fez uma careta, j que sabia que a vibrao moveria os quadros e as baixelas. Avanou pelo labirinto de habitaes 
sem deixar de arrumar isto e aquilo  medida que partia.
      
      -Tia Coco!
      
      Esta elevou a mo em um gesto automtico para dar um tapinha no peito. Era a voz do C.C., e cheia de fria. perguntou-se o que teria passado para acender dessa 
maneira  moa. Adotou seu melhor sorriso.
      
      -Vou, querida. Ainda no te esperava em casa.  uma... -calou ao ver sua sobrinha, lista para brigar com seu jeans quebrados e em camiseta, com manchas de 
graxa ainda na cara e as mos fechadas  altura dos quadris. E o homem que havia detrs dela... o homem ao que reconheceu como seu possvel sobrinho poltico-. Surpresa 
-concluiu, e voltou a pr o sorriso em seu stio-. V, senhor St. James,  magnfico -avanou com a mo estendida-. Sou a senhora McPike.
      
      -Encantado.
      
      - to agradvel conhec-lo fim. Espero que tenha tido uma viagem prazenteira.
      
      -foi... interessante.
      
      -O qual resulta melhor que prazenteiro -lhe aplaudiu a mo antes de solt-la, aprovando seu olhar seguro e voz bem modulada-. Por favor, passe. Quero que comece 
j a sentir-se como em sua casa. irei preparar um pouco de ch para todos.
      
      -Tia Coco -interveio C.C. em voz baixa.
      
      -Sim, querida, preferiria outra coisa em vez de ch?
      
      -Quero uma explicao, e a quero agora.
      
      A Coco o corao o martille um pouco, mas dedicou a sua sobrinha um sorriso aberto e algo curiosa.
      
      -Explicao? por que?
      
      -Quero saber que diabos faz ele aqui.
      
      -Catherine! -repreendeu sua tia-. Suas maneiras.. so uma de minhas poucas falhas. Venha, senhor St. James, ou posso cham-lo Trenton?, deve estar um pouco 
esgotado depois do trajeto em carro. Mencionou que tinha sido de carro, verdade? por que no vamos sentar nos ao salo? -guiou-o enquanto falava-. Um clima maravilhoso 
para viajar de carro, no  certo?
      
      -Um momento -C.C. plantou-se em seu caminho-. Um momento. Um momento. No vais acomodar o no salo, com ch e sua conversao social. Quero saber por que o 
convidou a vir.
      
      -C.C. -Coco suspirou com exagero-. Os negcios so mais agradveis e prsperos para todas as partes envoltas quando se conduzem em pessoa, em uma atmosfera 
relaxada. No est de acordo, Trenton?
      
      -Sim -surpreendeu-lhe ter que conter um sorriso-. Sim o estou.
      
      -J est.
      
      -No d um passo mais -alargou ambas as mos-. No acordamos vender a casa.
      
      -Certamente que no -reps sua tia com pacincia-. Por isso veio Trenton. Para que possamos discutir todas as opes e possibilidades. Deveria subir a te refrescar 
antes de tomar o ch, C.C. Tem graxa de motor, ou o que seja, na cara.
      
      -por que no me informou que vinha? -a esfregou com o dorso da mo.
      
      Coco piscou e tratou de deixar os olhos um pouco desfocados.
      
      -dizer-lhe isso  obvio que lhe disse isso. No me teria atrevido a convidar a algum sem lhes informar isso a todas vocs. 
      
      -No me disse isso -insistiu com expresso rebelde.
      
      -Vamos, C.C., eu... -Coco franziu os lbios, sabendo, depois de praticar ante o espelho, que lhe dava uma expresso de desconcerto-. No? Est segura? Teria 
jurado que lhes contei isso a ti e s garotas assim que recebi a aceitao do senhor St. James.
      
      -No -asseverou com rotundidad.
      
      -Santo cu -Coco se levou as mos s bochechas-. Que terrvel, de verdade. Devo me desculpar. depois de tudo, esta  sua casa, tuas e de suas irms. Jamais 
abusaria de sua boa natureza e hospitalidade...
      
      A culpabilidade comeou a carcomer ao C.C.
      
      - sua casa tanto como nossa, tia Coco. Sabe. No tem que nos pedir permisso para convidar a algum que voc goste.  simplesmente que deveramos haver...
      
      -No, no,  indesculpvel -tinha piscado o suficiente para conseguir que os olhos lhe brilhassem bem-. De verdade que o foi. No sei o que dizer. Sinto-me 
fatal por todo o incidente. Solo tentava ajudar, mas...
      
      -No h nada do que preocupar-se -C.C. tomou a mo de sua tia-. Nada absolutamente. Resultou um pouco desconcertante ao princpio. Olhe, por que no preparo 
eu o ch para que voc possa te sentar com... ele?
      
      - to doce, querida.
      
      C.C. murmurou algo ininteligvel ao partir pelo corredor.
      
      -Felicidades -murmurou Trent, olhando a Coco com expresso divertida-. foi uma das manipulaes mais delicadas que jamais vi.
      
      -Obrigado -Coco ps cara radiante e enlaou o brao com o do Trent-. por que no passamos para manter esse bate-papo? -conduziu-o a um sof junto  chamin, 
sabendo que os moles no eram mais que uma lembrana-. Tenho que me desculpar pelo C.C. Tem um humor incendirio mas um grande corao.
      
      -Tenho que aceitar sua palavra a respeito -inclinou a cabea.
      
      -Bom, est aqui e isso  o que importa -satisfeita consigo mesma, sentou-se frente a ele -. Sei que As Torre e sua histria lhe resultaro fascinantes.
      
      Trent sorriu, pensando que seus ocupantes j despertavam sua fascinao.
      
      -Meu av -continuou ela, indicando o retrato de um homem de lbios finos e rosto severo que havia em cima do suporte de madeira de cerejeira-. Ele construiu 
esta casa em 1904.
      
      -Exibe um aspecto... formidvel -comentou com cortesia ao observar os olhos desaprobadores e o cenho franzido.
      
      -Certamente -Coco riu com alegria-. E tenho entendido que foi desumano em sua juventude. S lembrana ao Fergus Calhoun como a um ancio tremente que discutia 
com as sombras. Em 1945 o meteram em uma residncia, depois de que tratasse de lhe pegar um tiro ao mordomo por servir oporto mau. Estava bastante louco... o av 
-explicou-. No o mordomo.
      
      -J... vejo.
      
      -Viveu outros doze anos na residncia, o qual o aproximou dos noventa anos. Os Calhoun, ou tm largas vidas ou morrem tragicamente jovens -cruzou suas largas 
pernas-. Conheci seu pai.
      
      -A meu pai?
      
      -Certamente. Assim que. Em nossa juventude assistimos a algumas das mesmas festas. Recordo em uma ocasio danar com ele em uma festa no Newport. Era llamativamente 
atrativo, fatalmente encantador. Fiquei rendida -sorriu-. Voc se parece muito a ele.
      
      -Deveu ser torpe para deixar que se escorresse assim por entre seus dedos.
      
      Um deleite puramente feminino cintilou nos olhos dela.
      
      -Tem toda a razo -riu-. Como est Trenton?
      
      -Bem. Acredito que se se tivesse precavido da Conexo existente, no me teria passado o trato .
      
      Ela arqueou uma sobrancelha. Como mulher que seguia as pginas de sociedade e de rumores de forma religiosa, era bem consciente do divrcio complicado pelo 
que passava St. James pai.
      
      -O ltimo matrimnio no prosperou?
      
      Absolutamente era um segredo, mas, no obstante, incomodou ao Trent.
      
      -No. Quando fale com lhe dou saudaes de sua parte?
      
      -Por favor, faa-o -pensou que era um ponto doloroso e o soslay com ligeireza-. Como  que se encontrou com o C.C.?
      
      "O destino", pensou ele, e a ponto esteve de diz-lo.
      
      -Encontrei-me necessitando seus servios... ou, melhor dizendo, meu carro. No estabeleci imediatamente a relao entre o Automocin C.C. e Catherine Calhoun.
      
      -Quem poderia culp-lo? -comentou Coco com um gesto da mo-. Espero que no tenha sido... ah, intensa.
      
      -Sigo com vida para falar do tema.  evidente que sua sobrinha no est convencida de vender.
      
      -Assim  -C.C. entrou empurrando um carrinho do ch, para det-lo com brutalidade entre os dois sofs-. E me convencer vai requerer algo mais que um escorregadio 
relacione pblicas de Boston.
      
      -Catherine, no h desculpa nenhuma para a grosseria.
      
      -No passa nada -Trent se recostou-. Comeo a me acostumar a ela. Todas suas sobrinhas so to... veementes, senhora McPike?
      
      -Coco, por favor -murmurou-. Todas so mulheres encantadoras -ao elevar a bule, olhou ao C.C. com uma expresso de advertncia -No tem trabalho, querida?
      
      -Pode esperar.
      
      -Mas solo trouxeste servio para dois.
      
      -Eu no desejo nada -acomodou-se sobre o apoyabrazos do sof e cruzou os braos.
      
      -Bom, ento. Leite ou limo, Trenton?
      
      -Limo, por favor.
      
      Cruzando sua larga perna, com botas, C.C. observou-os beber ch e conversar de coisas sem importncia. "Uma conversao intil", pensou com acritud. Era o 
tipo de homem que da infncia tinha sido treinado para sentar-se em um salo e falar de naderas.
      
      Jogaria  , ao plo, possivelmente ao golfe. O mais provvel era que tivesse mos como as de um beb. Baixo esse traga para medida, seu corpo seria brando e 
sem vida. Os homens como ele no trabalhavam, no suavam, no sentiam. Permanecia todo o dia detrs de seu escritrio, comprando e vendendo, sem pensar jamais em 
quo vistas afetava. Nos sonhos e esperanas que criava ou destrua.
      
      No ia manipular a vida dela. No ia cobrir as paredes muito queridas e gretadas com estuque e uma capa de pintura brilhante. No ia converter a velha sala 
de baile em um clube noturno. No ia tocar nenhuma s madeira do estou acostumado a desgastado.
      
      Ela se encarregaria disso e dele.
      
      "V situao", decidiu Trent. Respondeu  conversao social de Coco enquanto a Reina das Amazonas, tal como tinha comeado a pensar no C.C., sentava-se no 
velho sof, movendo uma perna e lhe lanando adagas pelos olhos. Pelo general se teria desculpado e teria voltado para Boston para lhe passar todo o negcio a seus 
agentes. Mas fazia muito tempo que no se enfrentava a um verdadeiro desafio. Pensou que talvez necessitasse esse para recuperar o brio.
      
      O lugar em si mesmo era assombroso... quase em runas. Do exterior parecia uma mescla de manso de campo inglesa com o castelo da Drcula. Torre e minaretes 
de pedra cinza se elevavam para o cu. As grgulas, uma das quais se achava decapitada, sorriam com expresso perversa em seus parapeitos. Todo isso parecia coroar 
uma casa de granito de trs novelo, com alpendres e balces. Sobre o quebra-mar se construiu uma prgola. A rpida olhada que Trent tinha podido lhe lanar tinha 
provocado imagens de uma casa de banhos romana, por razes que no conseguia compreender.
      
      Teria que ter sido feia. De fato, teria que ter sido espantosa. Entretanto, no o era. Resultava desconcertante, atrativa.
      
      O modo em que o cristal das janelas cintilava como gua de um lago sob o sol, as flores em qualquer parte agitadas pela brisa, a hera que subia com pacincia 
por essas paredes de granito. No tinha sido difcil, nem sequer para um homem de mente pragmtica, imaginar veladas para tomar o ch nos jardins. As mulheres flutuando 
sobre a grama com seus chapus de palha e vestidos de organdi, enquanto se escutava a msica de harpas e violinos.
      
      E alm disso estava a vista, que inclusive no breve trajeto do carro at a entrada principal o tinha deixado sem fala.
      
      Pde compreender por que seu pai tinha querido comprar a casa e se achava disposto a investir as centenas de milhares de dlares que fariam falta para restaur-la.
      
      -Mais ch, Trenton? -inquiriu Coco.
      
      -No, obrigado -lhe deu de presente um sorriso cativante-. Pergunto-me se poderia percorrer a casa. O que vi at agora  fascinante.
      
      C.C. emitiu um bufido que Coco fingiu no ouvir.
      
      -Certamente, ser um prazer mostrar-lhe levantou-se e, com as costas para o Trent, olhou a sua sobrinha sem parar de mover as sobrancelhas-. C.C., no deveria 
voltar para trabalho?
      
      -No -incorporou-se e com uma brusca mudana de ttica, sorriu-. Eu acompanharei ao senhor St. James, tia Coco. J quase  hora de que os meninos voltem do 
colgio.
      
      Coco olhou o relgio que havia no suporte, que semanas antes se parou s onze menos vinte e cinco.
      
      -OH, bom...
      
      -No se preocupe por nada -dirigiu-se para a porta e com gesto imperioso indicou ao Trent que a seguisse-. Senhor St. James? -partiu diante dele pelo corredor 
e logo por uma escada-. Comearemos por acima, parece-lhe? -sem olhar atrs, continuou, convencida de que ele ficaria a ofegar no terceiro lance.
      
      Ficou decepcionada.
      
      Subiram o ltimo lance circular at a torre mais alta. C.C. fechou a mo sobre o pomo e empurrou a grosa porta de carvalho com o ombro. Com vrios rangidos, 
abriu-se.
      
      -A torre encantada -anunciou com tom empolado e entrou em p e os ecos. A habitao circular se achava vazia  exceo de umas robustas e por fortuna vazias 
armadilhas para ratos.
      
      -Encantada? -repetiu Trent, disposto a lhe seguir a corrente.
      
      -Minha bisav tinha seu refgio aqui acima -ao falar, aproximou-se da janela curva-. Diz-se que estava acostumado a sentar-se aqui, olhando por volta do mar 
enquanto adoecia por seu amado.
      
      -Grandiosa vista -murmurou Trent. Era uma queda vertiginosa at os penhascos e a gua que rompia abaixo-. Muito dramtico.
      
      -OH, aqui nos sobra o drama. Ao parecer a bisav no pde suportar mais tempo o engano e se atirou por esta mesma janela -sorriu com gesto presunoso-. Nas 
noites tranqilas a pode ouvir caminhar por aqui enquanto chora por seu amado perdido.
      
      -Poder-se incorporar ao folheto.
      
      -Eu no consideraria os fantasmas bons para os negcios -colocou as mos nos bolsos
      
      -Justamente o contrrio -sorriu-. Seguimos?
      
      Com os lbios apertados, C.C. saiu da habitao. Agarrou o trinco com ambas as mos e se preparou para atirar com fora. Quando a mo do Trent se fechou sobre 
as suas, sobressaltou-se como se a tivessem queimado.
      
      -Eu posso faz-lo -murmurou. Abriu muito os olhos ao sentir que o corpo dele a roava. Trent a rodeou com o outro brao, encerrando-a, lhe provocando um tombo 
do corao.
      
      -Parece mais o trabalho para duas pessoas -Trent atirou com fora, fazendo que tanto a porta como C.C. dirigissem-se para ele.
      
      Permaneceram dessa maneira um momento, como amantes que contemplassem um crepsculo. Descobriu que aspirava o aroma do cabelo do C.C. enquanto suas mos seguiam 
fechadas sobre as dela. Pela mente lhe aconteceu que era uma mulher surpreendentemente sexy... at que ela saltou como um coelho e se apoiou contra a parede.
      
      -Est torcida -manifestou C.C.; tragou saliva com a esperana de que a voz no lhe grasnasse-. Tudo aqui est torcido, quebrado ou a ponto de desintegrar-se. 
Nem sei por que lhe passa pela cabea querer compr-la.
      
      Trent notou que tinha a cara plida como a gua, o que lhe dava uma maior profundidade a seus olhos. A inquietao assustada que via neles parecia mais do 
que podia justificar a porta torcida de uma torre.
      
      -Comporta-as se podem reparar ou substituir -curioso, avanou um passo para ela e viu que ficava tensa como se fora a receber um golpe-. O que lhe passa?
      
      -Nada -sabia que se voltava a toc-la sairia disparada como um foguete pelo que ficava do teto-. Nada -repetiu-. Se quer ver algo mais, ser melhor que baixemos.
      
      C.C. suspirou enquanto o seguia pela escada de caracol. O corpo ainda lhe palpitava de forma estranha, como se tivesse passado uma mo por um cabo eltrico. 
"Sem tempo suficiente para te queimar", pensou, "mas sim para reconhecer o poder".
      
      Chegou  concluso de que eram dois motivos para desfazer-se logo do Trenton St. James.
      
      Levou-o pela planta superior, pela asa dos criados, as habitaes destinadas a armazns, certificando-se de assinalar todas as gretas, a madeira podre, os 
danos causados pelos roedores. Satisfez-a que fizesse frio e houvesse um pouco de umidade. Gratificou-a ainda mais ver que o traje dele se manchou de p e que seus 
sapatos Perdessem com rapidez seu brilho.
      
      Trent apareceu a uma habitao lotada com caixas de mveis e vasilhas rotas.
      
      -Algum repassou o que h aqui?
      
      -OH, algum dia nos tocar -viu como uma aranha grande se afastava da luz-. Quase todos estes quartos levam mais de cinqenta anos fechados... desde que meu 
bisav se voltou louco.
      
      -Fergus.
      
      -Exato. A famlia s utiliza as dois primeiras novelo, e reparamos  medida que se faz necessrio -passou um dedo por uma greta de trs centmetros na parede-. 
Suponho que se pode dizer que se no o virmos, no nos preocupa. E o teto no nos tem cansado na cabea. Ainda -notou que ele a estudava e sorriu-. por aqui h mais 
-desejava lhe mostrar a habitao onde tinha parecido plstico para cobrir as janelas rotas.
      
      Trent caminhou ao lado dela, com cuidado em um ponto em que tinham fixado uns tabuleiros de madeira no cho em cima de um buraco. Uma porta alta e arqueada 
captou sua ateno, e antes de que C.C. pudesse det-lo, tinha a mo no trinco.
      
      -Aonde conduz isto?
      
      -OH, a nenhum lado -comeou, e amaldioou quando ele a abriu. viram-se invadidos por um fresco ar primaveril. Trent saiu  estreita terrao de pedra e se encaminhou 
para os degraus de granito-. No sei quo seguros so.
      
      -Muito mais que o cho do interior -comentou ele por cima do ombro.
      
      Com um juramento, C.C. cedeu e subiu detrs.
      
      - fabuloso -murmurou Trent ao deter-se no largo corredor que havia entre minaretes-. Realmente fabuloso.
      
      Razo pela que C.C. no tinha querido que o visse. manteve-se atrasada com as mos nos bolsos enquanto ele se apoiava e aparecia por cima da parede de pedra 
que chegava at a cintura.
      
      Podia ver as profundas guas azuis da baa com os navios que cintilavam em sua superfcie. O vale, brumoso e misterioso, estendia-se como um conto de fadas. 
Uma gaivota, pouco mais que um borro branco, sobrevoou a baa em direo ao mar.
      
      -Incrvel -o vento lhe agitou o cabelo enquanto avanava pelo corredor, baixava um lance de degraus e ascendia outro. De ali era o Atlntico, selvagem, aoitado 
pelo vento e maravilhoso. O som da interminvel guerra que mantinha com as rochas de abaixo reverberava como o trovo. Pde ver que havia portas espaadas a intervalos 
regulares, mas nesse momento no lhe interessava o interior. Algum, sups que da famlia, tinha colocado cadeiras, mesas, vasos de barro com novelo-.  espetacular 
-voltou-se para o C.C.-. acostuma-se a isto?
      
      -No -encolheu-se de ombros-. Termina por te voltar territorial.
      
      - compreensvel. Surpreende-me que alguma de vocs passe tempo dentro.
      
      Com as mos ainda nos bolsos, C.C. reuniu-se com ele junto ao muro.
      
      -No  sozinho a vista.  o fato de que sua famlia, geraes inteiras, esteve aqui. Igual  casa, que resistiu o tempo, o vento e o fogo -seu rosto se suavizou 
ao olhar abaixo-. Os meninos esto em casa.
      
      Trent baixou a vista para ver duas figuras pequenas correr pela grama em direo a prgola. O som de sua risada foi transportado pelo vento.
      
      -Alex e Jenny -explicou ela-. So os filhos de minha irm Suzanna. Tambm eles estiveram aqui -olhou-o-. Isso significa algo.
      
      -O que pensa sua me sobre a venda?
      
      C.C. apartou a cara ao tempo que a culpabilidade e a frustrao lutavam pelo controle.
      
      -Estou segura de que voc j o perguntar. Mas se a pressiona -girou a cabea com brutalidade e o cabelo voou em torno de sua cabea-, se a pressionar de qualquer 
maneira, responder ante mim. No deixarei que a voltem a manipular.
      
      -No tenho inteno de manipular a ningum.
      
      -Os homens como voc fazem uma carreira da manipulao -riu com amargura-. Se acreditar que se encontrou com quatro mulheres necessitadas, senhor St. James, 
volte a refletir. As Calhoun podem cuidar de si mesmos, e dos seus.
      
      -No me cabe dvida, em especial se suas irms forem to desagradveis como voc.
      
      C.C. entrecerr os olhos e fechou as mos. Teria atacado nesse instante, mas a suas costas ouviu seu nome em um sussurro.
      
      Trent viu que uma mulher saa por uma das portas. Era to alta como C.C., mas esbelta, com um aura to frgil que despertou seu instinto protetor inclusive 
antes de dar-se conta. O cabelo, que lhe chegava at os ombros; era de um loiro plido e lustroso, os olhos, do azul profundo de um cu estival, emitiam um ar de 
equanimidade e serenidade, at que se olhava com mais ateno e neles se via um corao quebrado.
      
      Apesar da diferena de cor no cabelo, havia um parecido na forma da cara, nos olhos e na boca, que fez que Trent soubesse que nesse momento conhecia uma das 
irms do C.C.
      
      -Suzanna -C.C. interps-se entre sua irm e Trent, para proteg-la.
      
      Suzanna sorriu, com uma expresso tanto divertida como impaciente.
      
      -A tia Coco me pediu que subisse -apoiou uma mo no brao do C. C. para aplac-la-. Voc deve ser o senhor St. James.
      
      -Sim -aceitou a mo que lhe ofereceu, e o assombrou descobrir que era dura, forte e tinha calos.
      
      -Sou Suzanna Calhoun Dumont. vai ficar conosco uns dias?
      
      -Sim. Sua tia foi to amvel de me convidar.
      
      -Bastante ardilosa -corrigiu com um sorriso enquanto passava um brao pelos ombros de sua irm-. Acredito que C.C. ofereceu-lhe um percurso parcial da casa.
      
      -Um percurso fascinante.
      
      -Ser um prazer continu-lo eu daqui -apertou levemente o brao de sua irm-. A tia Coco necessita um pouco de ajuda abaixo.
      
      -No precisa ver nada mais agora -argiu C.C.-. Parece cansada.
      
      -Absolutamente. Mas o estarei se a tia Coco me obriga a revisar toda a casa em busca da bandeja Wedgwood para o peru.
      
      -Muito bem -lanou- um olhar fulminante ao Trent-. No terminamos.
      
      -Sob nenhum conceito -conveio e sorriu para si mesmo quando ela partiu fechando a porta com fora-. Sua irm tem uma personalidade muito... comunicativa.
      
      - uma briguenta -indicou Suzanna-. Todas o somos, nas circunstncias adequadas. A maldio dos Calhoun -girou a cabea para ouvir o som das risadas de seus 
filhos-. No  uma deciso fcil, senhor St. James, seja qual for a que se tome. Como tampouco , para nenhuma de ns, uma deciso de negcios.
      
      -Isso entendi. Para mim tem que ser uma de negcios.
      
      Ela sabia muito bem que para alguns homens os negcios eram o primeiro e o ltimo.
      
      -Ento suponho que o melhor  que vamos passo a passo -abriu a porta que C.C. tinha fechado com fora-. por que no lhe mostro onde vai alojar se?
      
      3
      
      
      
      
      -E bem, como ? -Lilah Calhoun cruzou suas largas pernas sobre o brao do sof e apoiou a cabea no outro. A meia dzia de braceletes que levava no brao soou 
ao assinalar ao C.C.-. Carinho, hei-te dito que pr essa careta s produz rugas e ms vibraes.
      
      -Se no querer que a ponha, no me pergunte por ele.
      
      -De acordo, o perguntarei a Suzanna -desviou seus olhos verde mar para sua irm maior-. Solta-o.
      
      -Atrativo, educado e inteligente.
      
      -De modo que  um cocker spaniel -Lilah suspirou-. E eu que esperava um pitbull. Quanto tempo vamos ter o?
      
      -A tia Coco se mostra um pouco vaga nos detalhes -Suzanna olhou a suas irms com expresso divertida-. O que significa que no o vai dizer.
      
      -Possivelmente Mandy consiga lhe surrupiar algo -Lilah moveu os dedos de seus ps descalos e fechou os olhos. Era o tipo de mulher que sentia que havia algo 
intrinsecamente mau com qualquer que se tombasse em um sof e no dormitasse.
      
      -Acredito que deveramos nos desfazer dele -C.C. levantou-se e, para manter as mos inquietas ocupadas, ficou a acender um fogo.
      
      -Suzanna j comentou que tentou atir-lo pelo parapeito.
      
      -No -corrigiu aquela-. Pinjente que a detive antes de que lhe ocorresse atir-lo -incorporou-se para lhe entregar ao C.C. os fsforos para a chamin-. E assim 
como estou de acordo em que  incmodo o ter aqui quando nos encontramos to indecisas, j, no h marcha atrs. O menos que podemos fazer  lhe dar a oportunidade 
de que exponha sua oferta.
      
      -Sempre uma pacificadora -murmurou Lilah sonolenta, sem precaver-se da careta que provocou em sua irm-. Bom, possivelmente no faa falta agora que viu todo 
o lugar.
      
      Minha conjetura  que expor alguma desculpa inteligente e retornar a Boston.
      
      -quanto antes, melhor -murmurou C.C. enquanto observava como as chamas lambiam a madeira.
      
      -Jogou-me -anunciou Amanda. Entrou na habitao com a mesma celeridade que empregava para todo o resto. Se mes o cabelo castanho claro que chegava ao queixo 
e se acomodou sobre o apoyabrazos de uma poltrona-. Tampouco quer falar -as mos inquietas atiraram da saia de seu traje de trabalho-. Mas sei que trama algo, algo 
mais que um transao imobiliria.
      
      -A tia Coco sempre trama algo -Suzanna se dirigiu ao antigo armrio Belker para lhe servir a sua irm um copo com gua mineral-. Nunca a v mais feliz que 
quando trama algo.
      
      -Pode que seja verdade. Obrigado -acrescentou, aceitando o copo-. Mas me ponho nervosa quando no consigo atravessar seu guarda -pensativa, bebeu e logo olhou 
a suas irms-. tornou a usar a baixela do Limoges.
      
      -A Limoges? -Lilah se incorporou sobre os cotovelos-. No a empregamos da festa de compromisso da Suzanna -teve vontades de mord-la lngua-. Sinto muito.
      
      -No seja tola -reps Suzanna-. No recebeu a muita gente nos ltimos dois anos. Estou segura de que  algo que sentiu falta de. O mais provvel  que esteja 
entusiasmada por ter companhia.
      
      -O no  companhia -interveio C.C.-. No  mais que um aporrinho...
      
      -Senhor St. James -Suzanna se levantou com rapidez, cortando o final da opinio de sua irm.
      
      -Trent, por favor -sorriu-lhe, logo com ironia ao C.C.
      
      Tinha desfrutado de todo um espetculo antes de que Suzanna o visse na soleira. As mulheres Calhoun reunidas, e por separado, eram um conjunto que qualquer 
homem que respirasse tinha que apreciar. Com suas pernas largas e esbeltas, estavam sentadas, de p ou tombadas na habitao.
      
      Suzanna estava de p de costas  janela, e a ltima luz da tarde primaveril provocava um halo ao redor de seu cabelo. Haveria dito que se encontrava relaxada, 
salvo por um vestgio de tristeza nos olhos.
      
      No cabia dvida de que a que se achava no sof estava relaxada... e virtualmente dormida. Luzia uma saia larga de motivos florais que quase chegava aos ps 
descalos, e ao apart-la arbusto de cabelo vermelho que caa at sua cintura o contemplou atravs de uns olhos sonolentos e divertidos.
      
      Outra se sentava no apoyabrazos de uma poltrona, como a ponto de saltar e entrar em ao ante o som de uma campainha que solo ela podia ouvir. "Competente 
e profissional", pensou a primeira vista. Seus olhos no eram sonhadores nem tristes, a no ser calculadores.
      
      Logo vinha C.C. Tinha estado sentada na chamin de pedra, com o queixo sobre as mos, ruminando como uma Cinzenta moderna. Mas notou que se incorporou com 
rapidez,  defensiva, para ficar reta com o fogo  costas. No era uma mulher que pudesse esperar com pacincia at que um prncipe lhe pusesse o sapato de cristal 
no p.
      
      Imaginou que, silo tentava, daria-lhe uma patada na tbia ou em algum lugar mais doloroso.
      
      -Senhoras -saudou, mas com a vista cravada no C.C. sem sequer dar-se conta disso-. Catherine.
      
      -Permita que o presente -interveio Suzanna com presteza-. Trenton St. James, minhas irms, Amanda e Lilah. O que lhe parece se lhe preparo uma taa enquanto...?
      
      O resto do convite ficou afogado por um grito de guerra e ps que corriam. Como redemoinhos gmeos, Alex e Jenny irromperam na habitao. Foi a m sorte o 
que quis que Trent estivesse na linha de fogo. Chocaram-se com ele como dois msseis, enviando-o sobre o sof em cima de Lilah.
      
      Ela simplesmente no e reconheceu que era um prazer conhec-lo.
      
      -Lamento-o tanto -Suzanna sujeitou aos dois meninos e olhou ao Trent com simpatia-. Encontra-se bem?
      
      -Sim -desenredou-se e ficou de p.
      
      -So meus filhos, Desastre e Calamidade -sujeitava-os com um firme brao maternal-. Lhes desculpe.
      
      -Sentimo-lo -disseram-lhe. Alex, uns centmetros mais alto que sua irm, elevou a vista entre um arbusto de cabelo negro-. No o vimos.
      
      -No -conveio Jenny, esboando um sorriso cativante.
      
      Suzanna decidiu que os repreenderia logo por entrar na carreira em uma habitao e os guiou para a porta.
      
      -ides perguntar lhe  tia Coco se o jantar estiver preparado. Vamos! -acrescentou com firmeza mas sem esperana.
      
      antes de que ningum pudesse reatar a conversao, ouviu-se um som metlico e ensurdecedor.
      
      -Santo cu -murmurou Amanda sobre o copo-. tornou a tirar o gongo.
      
      -O jantar est preparado -se havia algo que podia fazer que Lilah se movesse com rapidez, era a comida. incorporou-se, passou o brao pelo do Trent e lhe sorriu-. 
Mostrarei-lhe o caminho. me diga, Trent, o que opina sobre as projees astrais?
      
      -Ah... -olhou por cima do ombro e viu que C.C. sorria.
      
      
      
      A tia Coco se superou. A baixela resplandecia. O que ficava do faqueiro de prata, que tinha sido um presente de bodas para a Bianca e Fergus, resplandecia. 
Sob a luz do candelabro Waterford, o cordeiro despertava aos mortos. antes de que nenhuma de suas sobrinhas pudesse realizar comentrio algum, lanou-se a uma conversao 
corts.
      
      - um jantar formal, Trenton, Resulta to mais acolhedora. Espero que sua habitao seja adequada.
      
      - perfeita, obrigado -e o era; grande como um celeiro, com correntes de ar e um buraco do tamanho do punho de um homem no teto. Entretanto, a cama era larga 
e suave como uma nuvem. E a vista... -. Desde minha janela vejo algumas ilhas.
      
      -As ilhas Porcupine -indicou Lilah, lhe passando uma cesta de prata com po-doces.
      
      Como um falco, Coco os observou a todos. Queria ver um pouco de qumica, um pouco de calor. Lilah paquerava com ele, mas no albergava muitas esperanas. 
Lilah paquerava com os homens em geral, e no emprestava mais ateno ao Trent que ao menino que levava a compra do supermercado.
      
      No, ali no havia nenhuma fasca. Por parte de nenhum. "Uma descartada", pensou com filosofia. "Ficam trs".
      
      -Trenton, sabia que Amanda tambm est no negcio hoteleiro? Todas estamos to orgulhosas de nossa Mandy -olhou a sua sobrinha-.  uma excelente mulher de 
negcios.
      
      -Sou diretora anexa do Bay Watch, no Village -o sorriso da Amanda era equnime e amigvel, a mesma que daria a qualquer turista arrasado um dia de muitas sadas-. 
No tem a categoria de nenhum de seus hotis, mas vai bastante bem durante a temporada alta. ouvi que vai acrescentar um shopping center no St. James Atlanta.
      
      Coco franziu o cenho ao beber vinho enquanto eles falavam de hotis. No s no havia fasca, nem sequer se via um dbil brilho. Quando Trent aconteceu com 
Amanda a gelatina de hortel e suas mos se roaram, no se produziu nenhuma pausa trmula, seus olhos no se encontraram. Amanda j se tornou para rir com a pequena 
Jenny e limpar o leite que esta tinha vertido.
      
      "Ah!", pensou Coco entusiasmada. Trent lhe tinha sorrido ao Alex quando o menino se queixou de que as couves de bruxelas eram horrveis. "De modo que tem debilidade 
pelos meninos".
      
      -No tem por que as comer -indicou-lhe Suzanna a seu suspicaz filho enquanto o pequeno pinava entre as batatas para certificar-se de que entre elas no tivesse 
escondido nada verde. Pessoalmente, sempre considerei que parecem cabeas encolhidas.
      
      -E o so, mais ou menos -a idia gostou, tal como sua me soube que aconteceria. Trespassou uma com o garfo, a levou a boca e sorriu-. Sou um canibal.
      
      -Carinho -disse Coco-. Suzanna fez um trabalho maravilhoso como me. Parece ter uma habilidade inata com os meninos, ao igual a com as flores. Todos os jardins 
so obra dela.
      
      -Canibal -repetiu Alex ao levar-se outra cabea imaginria  boca.
      
      -Toma, pequeno monstro -C.C. transladou suas verduras ao prato de seu sobrinho-. A chega uma nova remessa de missionrios.
      
      -Eu tambm quero alguns -queixou-se Jenny, logo sorriu ao Trent quando lhe aconteceu a bandeja.
      
      Coco se levou uma mo ao peito. "Quem o teria adivinhado?, pensou. Seu Catherine. Sua pequena. Enquanto a conversao continuava a seu redor, recostou-se com 
um suspiro. No podia estar equivocada. Quando Trent tinha cuidadoso a sua pequena, e ela a ele, no se tinha produzido uma fasca, a no ser algo mais parecido 
a uma conflagrao.
      
      Era verdade que C.C. tinha o cenho franzido, mas em um gesto to apaixonado. E Trent fazia uma careta, mas uma careta to pessoal. "Decididamente ntima", 
concluiu Coco.
      
      Sentada ali, observando-os enquanto Alex devorava suas pequenas cabeas decapitadas e Lilah e Amanda discutiam sobre a possibilidade de vida em outros planetas, 
Coco quase podia ouvir os pensamentos amorosos que C.C. e Trent se transmitiam.
      
      Sorriu-lhes com ternura enquanto em sua cabea soava a Marcha Nupcial. Como um general que planeja a estratgia, esperou at que terminaram o caf e a sobremesa 
para lanar sua seguinte ofensiva.
      
      -C.C., por que no ensina ao Trenton os jardins?
      
      -O que? -elevou a vista da batalha amigvel que mantinha com o Alex pelo ltimo bocado do bolo.
      
      -Os jardins -repetiu Coco-. No h nada como um pouco de ar fresco depois de uma comida. E as flores se vem deliciosas  luz da lua.
      
      -Que o leve Suzanna.
      
      -Sinto muito -Suzanna j elevava em braos a uma Jenny sonolenta-. Tenho que preparar a estes dois para ir-se  cama.
      
      -No vejo por que... -C.C. calou ao ver a reprimenda nos olhos de sua tia-. OH, de acordo -levantou-se-. Vamos, ento -disse ao Trent, e empreendeu a marcha 
sem esper-lo.
      
      -foi um jantar delicioso, Coco. Obrigado.
      
      -foi um prazer -reps com expresso feliz ao imaginar palavras sussurradas e beijos suaves e secretos-. Desfrute dos jardins.
      
      Trent saiu pelo ventanal para encontrar ao C.C. de p, movendo com impacincia uma bota sobre a pedra. " hora de que algum lhe ensine bons maneiras  bruxa 
de olhos verdes".
      
      -No sei nada sobre flores -exps ela.
      
      -Nem sobre simples cortesia.
      
      -Escute, amigo -elevou o queixo.
      
      -No, voc escute, amiga -soltou a mo e tomou pelo brao-. Caminhemos. Os meninos poderiam nos ouvir e no acredito que estejam preparados para isto.
      
      Era mais forte do que ela tinha imaginado. Dirigiu-a, sem emprestar ateno s maldies que C.C. murmurou. Saram da terrao a um dos atalhos que serpenteavam 
pelo flanco da casa. junto  grade se balanavam os narcisistas e os jacintos.
      
      Ele se deteve sob uma rvore no que dentro de um ms cresceriam glicinas. C.C. no sabia se o rugido que ouvia na cabea se devia ao som do mar ou ao de seu 
mau humor.
      
      -No volte a repeti-lo jamais -elevou uma mo para esfregar ali onde se cravaram os dedos dele-.  possvel que consiga dirigir s pessoas em Boston, mas aqui 
no. Nem comigo nem com ningum de minha famlia.
      
      Ele se conteve, fracassando em seu intento de controlar seu temperamento.
      
      -Se me conhecesse, ou soubesse o que fao, saberia que no tenho por costume dirigir a ningum.
      
      -Sei exatamente o que faz.
      
      -Executar as hipotecas das vivas e os rfos? Cresa, C.C.
      
      -Pode ver os jardins voc sozinho -apertou os dentes-. Volto dentro.
      
      O simplesmente se moveu para lhe bloquear o passo.  luz da lua, os olhos dela brilhavam como os de um gato. Quando levantou as mos para empurr-lo, Trent 
lhe sujeitou as bonecas. No breve esforo que seguiu, notou que a pele do C. C. era da cor da lecha fresca e quase to suave.
      
      -No terminamos -sua voz irradiou uma firmeza que j no estava oculta sob uma ptina de cortesia-. Ter que aprender que quando se mostra grosseira de propsito, 
h um preo que pagar.
      
      -Quer uma desculpa? -espetou-. Muito bem. Sinto no ter nada que lhe dizer que no seja grosseiro ou insultante.
      
      Trent sorriu, surpreendendo-os a ambos.
      
      - voc toda uma pea, Catherine Colleen Calhoun. Por minha vida que no sei por que intento ser razovel com voc.
      
      -Razovel? -grunhiu-. Chama razovel atirar de mim, abusar de mim...?
      
      -Se isto lhe parecer um abuso, levou uma vida muito protegida.
      
      -Minha vida no  assunto dele -afirmou ficando tinta.
      
      -Graas a Deus.
      
      Ela flexionou os dedos e os fechou. Odiou o fato de que sob o contato dele seu pulso martilleara ao dobro de velocidade.
      
      -Quer me soltar?
      
      -S se prometer no escapar  carreira -viu-se perseguindo-a, e a imagem lhe resultou abafadia e atrativa ao mesmo tempo.
      
      -No escapo de ningum.
      
      -Dito como uma verdadeira amazona -murmurou, soltando-a. Solo uns reflexos rpidos lhe permitiram esquivar o punho pontudo a seu nariz-. Suponho que deveria 
ter considerado esta reao. considerou alguma vez manter uma conversao inteligente?
      
      -No tenho nada que lhe dizer -sentia-se envergonhada de ter tratado de golpe-lo e furiosa por ter falhado-. Se quer falar, v fazer lhe a bola  tia Coco 
um momento mais -deixou-se cair em um banco de pedra pequeno que havia sob a rvore-. Melhor ainda, volte para Boston a flagelar a um de seus subordinados.
      
      -Isso posso faz-lo quando gostar -moveu a cabea e, convencido de que arriscava a vida, sentou-se ao lado dela.
      
      Havia azaleas e gernios que ameaavam florescendo a seu redor. Ele pensou que teria que ter sido um lugar aprazvel. Mas, ao sentar-se e cheirar a tenra fragrncia 
das flores primaveris mesclada com o aroma do mar e escutar a um pssaro noturno chamar a seu casal, pensou que nenhuma junta diretiva tinha sido jamais to hostil 
ou tensa.
      
      -Pergunto-me onde desenvolveu uma opinio to elevada de mim -"e por que", acrescentou para si mesmo, "parece importar tanto".
      
      -apresenta-se aqui...
      
      -Aceitando um convite.
      
      -No minha -jogou a cabea atrs-. Chega com seu grande carro e seu traje srio, preparado para me arrebatar meu lar.
      
      -vim -corrigiu- para observar em pessoa uma propriedade. Ningum, e menos eu, pode as obrigar a vender.
      
      Consternada, ela pensou que se equivocava. Havia pessoas que podiam as forar a vender. As pessoas que arrecadavam os impostos, as que emitiam as faturas da 
eletricidade e o telefone, as do emprstimo que se viram obrigadas a pedir hipotecando a casa. Toda sua frustrao, e temor, centrava-se no homem que tinha ao lado.
      
      -Conheo as pessoas como voc -murmurou-. Nascidas ricas e por cima da gente corrente. Sua nica meta na vida  ganhar mais dinheiro, sem importar a quem afetam 
ou a quem pisoteiam com isso. Celebram grandes festas, tm casas veraniegas e amantes chamadas Fawn.
      
      -Jamais conheci a algum chamado Fawn -com inteligncia, tragou-se a risita que teve vontades de soltar.
      
      -OH, o que importa? -levantou-se para ficar a caminhar junto ao banco-. Kiki, Vanessa, Aia,  o mesmo.
      
      -Se voc o disser -teve que reconhecer que tinha um aspecto magnfico envolta na luz da lua como se fora um fogo branco. A atrao que sentia o irritava o 
bastante, mas seguiu sentado. recordou-se que havia muito que fazer. E C.C. Calhoun representava o principal obstculo. prometeu-se que seria paciente-. Me diga 
como  que conhece tanto sobre as pessoas como eu.
      
      -Porque minha irm se casou com um dos seus.
      
      -Com o Baxter Dumont.
      
      -Conhece-o? -ento moveu a cabea e colocou as mos nos bolsos-. Uma pergunta estpida. O mais provvel  que jogue golfe com ele tudas as quartas-feiras.
      
      -No, em realidade apenas nos conhecemos. Mas bem, sei dele e de sua famlia. Tambm sou consciente de que sua irm e ele tm divorciados mais ou menos um 
ano.
      
      -Fez de sua vida um inferno, destroou-lhe a auto-estima e logo a deixou junto com seus filhos por um bombom francs. E como  um advogado importante procedente 
de uma famlia importante, a minha irm no ficou nada mais que uma miservel penso para manter aos meninos e que todos os meses chega tarde.
      
      -Lamento o que aconteceu com sua irm -ficou de p. Sua voz j no soava cortante, a no ser fatalista-. O matrimnio s vezes  a menos agradvel de tudo 
os transaes de negcios. Mas o comportamento do Baxter Dumont no significa que cada membro de cada famlia proeminente de Boston carea de tica ou de moral.
      
      -Desde meu ponto de vista, todos so iguais.
      
      -Ento possivelmente deva trocar de perspectiva. Mas no o far, porque tambm voc  obstinada e pertinaz em suas opinies.
      
      -Porque sou o bastante inteligente para ver alm de sua fachada.
      
      -No sabe nada de mim, e os dois sabemos que lhe causei um profundo desagrado antes inclusive de que conhecesse meu nome.
      
      -Eu no gostei de seus sapatos.
      
      Isso o freou em seco.
      
      -Perdoe?
      
      -J me ouviu -cruzou os braos e compreendeu que comeava a passar-lhe bem-. Eu no gostei de seus sapatos -baixou a vista-. E seguem sem me gostar de.
      
      -Isso o explica tudo.
      
      -Tampouco eu gostei de sua gravata -cravou um dedo nela e passou por cima o brilho de fria nos olhos dele-. Nem sua chamativa pluma de ouro -com suavidade 
deu com o punho fechado contra o bolso do peitilho.
      
      -Diz uma perita em moda -estudou os jeans dela, gastos nos joelhos, a camiseta e as botas.
      
      - voc quem est desconjurado aqui, senhor St. James III. 
      
      O se aproximo um passo. C.C. esboo um sorriso de desafio.
      
      -Suponho que se veste como um homem porque no tem descoberto como comportar-se como uma mulher.
      
      Isso a encrespou ainda mais.
      
      -O fato de saber me defender em vez de me jogar em seus ps no faz que seja menos mulher.
      
      - assim como chama a isto? -agarrou-lhe os antebraos-. Defender-se?
      
      -Exato. Eu... -calou quando a aproximou mais. Seus corpos chocaram. Em seus olhos reinou a confuso-. O que acredita que est fazendo?
      
      -Provar a teoria -observou a boca dela. Tinha uns lbios sensuais, entreabiertos. Muito tentadores. perguntou-se por que no os tinha notado antes. Essa boca 
grande e agressiva do C.C. era muito arrebatadora.
      
      -No se atreva -sua inteno era que soasse a ordem, mas a voz lhe tremeu.
      
      -Tem medo? -imobilizou-a com os olhos.
      
      - obvio que no -reps com rigidez-. O que passa  que preferiria que me beijasse uma mofeta raivosa -quis apartar-se, mas voltou a encontrar-se pega a ele, 
com os olhos e a boca alinhados, o flego quente misturando-se.
      
      Ele no tinha tido inteno de beij-la, sob nenhum conceito, at que escutou o ltimo insulto.
      
      -Nunca sabe quando deve deix-lo, Catherine.  um defeito que a vai meter em problemas, comeando por agora mesmo.
      
      Ela no tinha esperado que a boca dele fora to ardente, dura, faminta. Tinha pensado que o beijo seria sofisticado e suave. Que poderia resisti-lo e esquec-lo 
com soma facilidade. Mas se tinha equivocado. Beij-lo era como deslizar-se em prata fundida. Ao ofegar em busca de ar, ele potencializou o beijo com a profunda 
introduo da lngua, para atorment-la e provoc-la. Catherine tentou limpar a cabea, mas o nico que conseguiu foi modificar o ngulo. As mos que tinha elevado 
aos ombros dele  em protesto, rodearam-lhe o pescoo com gesto possessivo.
      
      Trent tinha querido lhe dar uma lio... embora j tinha esquecido sobre o que. Mas ele aprendeu. Aprendeu que algumas mulheres, essa em particular, podiam 
ser fortes e suaves, irritadoras e encantadoras, tudo ao mesmo tempo. Enquanto as ondas rompiam abaixo, sentiu-se esmurrado pelo inesperado. E o no desejado.
      
      Estupidamente, pensou que poderia sentir a luz das estrelas na pele dela, provar o p de lua em seus lbios. O gemido rouco que ouviu foi emitido por ele. 
Elevou a cabea e a moveu como se queria limpar uma bruma de seu crebro. Via os olhos escuros dela que o olhavam aturdidos.
      
      -Peo-lhe desculpas -surpreso por sua ao, soltou-a com tanta rapidez que ela trastabill para trs-. foi completamente indesculpvel.
      
      Catherine no pde dizer nada. Muitas sensaes lhe atendiam a garganta. Realizou um gesto de impotncia com as mos que fez que ele se sentisse um miservel.
      
      -Catherine... me crie, no tenho por costume... -teve que parar e pigarrear. deu-se conta de que queria repeti-lo. Queria lhe tirar o flego com um beijo; 
parecia to perdida e necessitada. E formosa-. Sinto-o muito. No voltar a acontecer.
      
      -Eu gostaria que me deixasse sozinha -nunca em sua vida se havia sentido mais comovida. Ou devastada. Ele acabava de abrir uma porta a um mundo secreto, para 
voltar a fechar-lhe na cara.
      
      -Muito bem -teve que controlar-se de lhe acariciar o cabelo. Retornou pelo atalho em direo  casa. Ao olhar atrs, ela seguia de p onde a tinha deixado, 
com a vista cravada nas sombras, banhada pela luz da lua.
      
      
      Seu nome  Christian. Uma e outra vez tornei a caminhar pelos penhascos, com a esperana de intercambiar umas poucas palavras com ele. Digo-me que se deve 
 fascinao que sinto pela arte, no pelo artista. Poderia ser verdade. Deve ser verdade.
      
      Sou uma mulher casada e me de trs filhos. E embora Fergus no  o marido romntico de meus sonhos juvenis, cuida de ns e s vezes  amvel. Possivelmente 
h uma parte de mim, uma parte rebelde, que deseja no ter cedido  insistncia de meus pais de realizar um matrimnio bom e apropriado. Mas  uma tolice, j que 
o ato tem consumado h mais de quatro anos.
      
       uma deslealdade comparar ao Fergus com um homem ao que logo que conheo. Mas aqui, em meu jornal privado, me deve permitir essa indulgncia. Enquanto Fergus 
s pensa nos negcios, no seguinte trato ou dlar, Christian fala de sonhos, imagens e poesia.
      
      Quanto desejou meu corao s um pouco de poesia.
      
      Assim como Fergus, com sua generosidade distante e despreocupada, me deu de presente as esmeraldas o dia em que nasceu Ethan, em uma ocasio Christian me ofereceu 
uma flor silvestre. Guardei-a, pressionando-a entre estas pginas. Quanto melhor me sentiria levando-a em vez dessas gemas frite e pesadas.
      
      No falamos que nada ntimo, de nada que pudesse ser considerado imprprio. Entretanto, sei que o . O modo em que me olhe, sorri-me, fala-me,  gloriosamente 
imprprio. O modo em que o busco nestas luminosas tardes estivais enquanto meus pequenos dormem no  a ao de uma esposa recatada. O modo em que me palpita o corao 
quando o vejo  uma clara deslealdade.
      
      Hoje me sentei sobre uma rocha e o observei dirigindo o pincel, lhe dando a essas pedras rosas e cinzas,  gua azul, vida no tecido. Havia um bote deslizando-se 
por sua superfcie, to livre e solitrio. Por um momento imaginei aos dois nele, as caras ao vento. No entendo por que tenho estes pensamentos, mas enquanto permaneceram 
comigo, claros como o cristal, perguntei seu nome.
      
      -Christian -reps-. Christian Bradford. E voc  Bianca.
      
      A maneira em que pronunciou meu nome... como se nunca antes o houvessem dito. Jamais o esquecerei. Joguei com a erva que me sobressaa entre as gretas da rocha. 
Com a vista baixa, perguntei-lhe por que sua esposa jamais ia ver o trabalhar.
      
      -No tenho esposa -informou-me-, E a arte  meu nica amante.
      
      No esteve bem que meu corao se inflamasse com suas palavras. No esteve bem que sonriera, mas o fiz. E ele tambm. Se o destino me tivesse tratado deforma 
diferente, se de algum modo se pde alterar o tempo e o lugar, teria podido am-lo.
      
      Acredito que no me teria ficado outra eleio que am-lo.
      
      E se ambos sabamos, comeamos a falar de coisas sem importncia. Mas quando me incorporei, sabendo que meu tempo ali tinha chegado a seu fim esse dia, ele 
se inclinou e arrancou uma diminuta fibra de urze dourado e a colocou em meu cabelo. Por um momento, seus dedos flutuaram sobre minha bochecha e seus olhos se cravaram 
em meus. Ento se apartou e me desejou um bom dia.
      
      Agora escrevo com o abajur baixo, escutando a poderosa voz do Fergus enquanto lhe d instrues a seu valete na porta do lado. Esta noite no vir, algo que 
agradeo. Dei-lhe trs filhos, dois vares e uma menina. Ao lhe proporcionar um herdeiro, cumpri com meu dever, e ele no encontra freqentemente a necessidade de 
vir a meu leito. Igual aos meninos, eu tenho que estar bem vestida e bem educada, para ser apresentada nas ocasies adequadas, como um bom clarete, ante seus convidados.
      
      Suponho que no  muito pedir.  uma boa vida, uma que deveria me ter satisfeita. Possivelmente assim era, at aquele dia em que passeei pela primeira vez 
pelos penhascos.
      
      De modo que esta noite dormirei sozinha em minha cama, e sonharei com um homem que no  meu marido.
      
      4
      
      
      
      
      "Quando no pode dormir, o melhor  te levantar". Isso  o que se disse C.C. ao sentar-se  mesa da cozinha a contemplar a sada do sol com sua segunda taa 
de caf.
      
      Tinha muitas coisas na cabea, isso era tudo. Faturas, o Oldsmobile que devia arrumar aquela manh, faturas, a iminente entrevista com o dentista. Mais fatura. 
Trenton St. James figurava muito atrs em sua lista de preocupaes. Em alguma parte entre uma crie potencial e um escapamento avariado.
      
      Sob nenhum conceito perdia o sonho por ele. E um beijo, esse ridculo... acidente era a melhor palavra para descrev-lo, nem sequer merecia um pensamento.
      
      "No me comporto como se nunca tivesse recebido um beijo", repreendeu-se. Embora nenhum tinha mostrado uma destreza to impressionante. O que solo demonstrava 
que Trent tinha dedicado uma grande parte de sua vida a ter os lbios pegos aos de alguma mulher. Muitas mulheres.
      
      Nesse momento pensou que tinha sido uma sacanagem. Em especial em meio do que tinha comeado a ser uma discusso muito satisfatria. Os homens como Trent no 
sabiam como brigar com limpeza, com engenho e palavras e uma fria honesta. Os ensinava a dominar, do modo que melhor funcionasse.
      
      "Bom, pois funcionou", pensou ao passar um dedo por seus lbios. Tinha funcionado como um feitio, porque durante um momento, um breve e trmulo momento, ela 
havia sentido algo bonito... algo mais que a excitante presso de seus lbios, mais que suas mos possessivas.
      
      Tinha estado em seu interior, debaixo do pnico e o prazer, mais  frente do redemoinho de sensaes... um fulgor, quente e dourado, como um abajur na janela 
em uma noite tormentosa.
      
      Logo ele tinha apagado esse abajur com um movimento rpido e indiferente, deixando-a outra vez na escurido.
      
      Afligida, pensou que poderia hav-lo odiado sozinho por isso, se j no tivesse suficientes motivos pelos que odi-lo.
      
      -N, pequena -Lilah entrou com as calas cqui de seu trabalho. Levava o arbusto de cabelo recolhimento em uma trana  costas. De cada orelha oscilava um 
trio de bolas de mbar-. Levantaste-te logo.
      
      -Eu? -C.C. esqueceu seu estado de nimo o tempo suficiente para olh-la com incredulidade-.  minha irm ou uma impostora inteligente?
      
      -Voc deve julg-lo.
      
      -Deve ser uma impostora. Lilah Maeve Calhoun jamais se levanta antes das oito, exatamente vinte minutos antes de que tenha que sair correndo da casa para chegar 
cinco minutos tarde ao trabalho.
      
      -Deus, dio ser to predecible. Meu horscopo... -adiantou, enquanto inspecionava a geladeira-. Punha que hoje tinha que me levantar logo para contemplar a 
sada do sol.
      
      -E o que te pareceu? -perguntou-lhe enquanto sua irm ia para a mesa com uma lata de refresco frio e uma poro de bolo.
      
      -Bastante espetacular -deu um bocado ao bolo-. Qual  sua desculpa?
      
      -No podia dormir.
      
      -Algo que ver com o desconhecido que h no outro extremo do corredor?
      
      C.C. franziu o nariz e tomou uma cereja do prato do Lilah.
      
      -Os tipos como ele no me perturbam.
      
      -Os tipos como ele foram criados para perturbar s mulheres, e ter que lhe dar as graas a Deus. De modo... -estirou as pernas e as apoiou em uma cadeira 
vazia. O grifo da cozinha voltava a gotejar, mas gostava do som-. Qual  a histria?
      
      -No disse que houvesse uma.
      
      -No  necessrio, tem-no gravado na cara.
      
      -Simplesmente eu no gosto que esteja aqui, isso  tudo -incorporo-se para levar sua taa  pia-.  como se j nos queriam jogar de nossa casa. Sei que falamos 
que vender, mas tudo era to vago e longnquo -voltou-se para sua irm-. Lilah, o que vamos fazer?
      
      -No sei -os olhos do Lilah se nublaram. Era uma das poucas coisas pelas que no podia deixar de preocupar-se. Suas debilidades eram a casa e a famlia-. Suponho 
que poderamos vender algumas das baixelas. E logo temos a prata.
      
      -Isso partiria o corao da tia Coco.
      
      -Sei. Mas existe a possibilidade de que tenhamos que vender pea detrs pea... ou dar um passo importante -comeu um pouco de bolo-. Apesar do muito que dio 
diz-lo, vamos ter que pensar muito, a srio e com pragmatismo.
      
      -Mas, para que se converta em um hotel?
      
      Lilah se encolheu de ombros.
      
      -Isso no me causa nenhum problema moral profundo. A casa a construiu o louco Fergus para receber a um exrcito de convidados, com toda classe de pessoal para 
atend-los. Parece-me que um hotel encaixa com o propsito original -suspirou ao observar a expresso do C.C.-. Sabe que adoro este lugar tanto como voc.
      
      -Sei.
      
      O que Lilah no disse foi que lhe partiria o corao ter que vender, mas que estava preparada para fazer o que fora melhor para a famlia.
      
      -Daremo-lhe ao magnfico senhor St. James um par de dias mais, logo celebraremos uma reunio familiar -animou com um sorriso ao C.C.-. Ns quatro juntas no 
podemos nos equivocar.
      
      -Espero que tenha razo.
      
      -Carinho, sempre tenho razo...  a pequena cruz que me toca levar -bebeu um sorvo do refresco-. E agora por que no me conta o que te produziu insnia.
      
      -Acabo de faz-lo.
      
      -No -com a cabea inclinada, agitou o garfo em direo ao C.C.-. No esquea que Lilah o v e sabe tudo... e o que no, averigua-o. Solta-o.
      
      -A tia Coco fez que o levasse a jardim.
      
      -Sim -Lilah sorriu-.  uma diablesa matreira. Deduzi que tramava algum romance. A lua, flores, o som distante da gua ao romper sobre as rochas. Funcionou?
      
      -Brigamos.
      
      - um bom comeo. Pela casa?
      
      -Por isso... e outras coisas.
      
      -Quais?
      
      -Nomes de amantes -murmurou C.C.-. Famlias importantes de Boston. Seus sapatos.
      
      -Uma discusso ecltica. As que eu prefiro. E logo?
      
      -Beijou-me -colocou as mos nos bolsos.
      
      -Ah, a trama se complica -sentia o mesmo amor que Coco pela fofoca, por isso se adiantou e apoiou o queixo nas mos-. Como foi? Tem uma boca fantstica... 
o notei imediatamente.
      
      -Pois beija-o voc mesma.
      
      Depois de medit-lo um momento, Lilah moveu a cabea, no sem certo pesar.
      
      -No, com ou sem boca fantstica, no  meu tipo. Alm disso, voc j o beijaste, assim conta-me o  bom?
      
      -Sim -reconheceu a contra gosto-. Suponho que se poderia dizer que sim.
      
      -Que pontuao lhe daria em uma escala do um aos dez?
      
      A risita escapou de lbios do C.C. antes de que se desse conta disso.
      
      -Nesse momento no pensava em um sistema de avaliao.
      
      -Melhor e melhor -Lilah lambeu o garfo-. De maneira que te beijou e foi estupendo. E depois?
      
      -desculpou-se -suspirou e o humor se desvaneceu de sua voz.
      
      Lilah a olhou fixamente e devagar deixou o garfo.
      
      -Que fez o que?
      
      -desculpou-se... muito corretamente por sua conduta indesculpvel e prometeu que no se repetiria. O idiota. Que classe de homem acredita que uma mulher deseja 
uma desculpa depois de que a tenham beijado at lhe tirar o flego?
      
      -Bom, tal como eu o vejo, h trs eleies -Lilah moveu a cabea-.  um idiota, foi educado para mostrar-se excessivamente corts ou era incapaz de pensar 
de forma racional.
      
      -Eu voto pelo de idiota.
      
      -Mmm. vou ter que medit-lo -tamborilou com os dedos sobre a mesa-. Possivelmente deveria lhe fazer a carta astral.
      
      -Sem importar em que signo tenha a lua, insisto no de idiota -aproximou-se do Lilah para lhe dar um beijo na bochecha-. Obrigado. Tenho que ir.
      
      -C.C. -esperou at que sua irm se deu a volta-. Tem olhos bonitos. Quando sorri, tem olhos muito bonitos.
      
      
      
      Trent no sorria quando ao fim aquela tarde conseguiu escapar de Las Torres. Coco tinha insistido em lhe mostrar cada centmetro mido das adegas, para logo 
apanh-lo durante duas horas com lbuns de fotos.
      
      Tinha sido divertido contemplar fotos do C.C. de beb, observar seu crescimento de menina a mulher. Tinha sido incrivelmente bonita com tranas e sem um dente.
      
      Durante a segunda hora, comearam a soar os sinos de alarme. Coco tinha comeado a lhe surrupiar com pouca sutileza o que pensava sobre o matrimnio, os filhos 
e as relaes. Foi ento quando se deu conta de que detrs dos olhos suaves e midos dessa mulher funcionava um crebro agudo e calculador.
      
      No tentava vender a casa, a no ser leiloar a uma de suas sobrinhas. E ao parecer a candidata principal era C.C. e ele tinha sido selecionado como o melhor 
postor. Decidiu que s mulheres Calhoun esperava um despertar brusco. foram ter que procurar um candidato apropriado em outra parte do mercado matrimonial. Desejou-lhe 
sorte ao pobre incauto.
      
      E se prometeu que os St. James teriam a casa. A foram conseguir sem que de por meio houvesse nenhum vu nupcial.
      
      Com fria controlada, desceu pelo ngreme e te serpenteiem caminho de acesso. Para ouvir o som de sua prpria voz falando consigo mesmo, decidiu que ia dar 
um passeio comprido que o acalmasse. Possivelmente at o Parque Nacional Acadia, onde Lilah trabalhava como naturalista. "Divide e conquistar", pensou. encontraria-se 
com cada uma delas em seu espao trabalhista e ali agitaria suas formosas cadeias.
      
      "Lilah parece receptiva", refletiu. Qualquer delas o seria mais que C. C. Amanda dava a impresso de ser sensata. Estava convencido de que Suzanna era uma 
mulher razovel.
      
      O que tinha sado mal com a irm nmero quatro?
      
      Mas descobriu que se encaminhava ao povo, mais  frente do negcio de jardins da Suzanna e do Bay Watch Hotel. Ao pr rumo  oficina do C.C., disse-se que 
isso era o que em todo momento tinha querido fazer.
      
      Comearia com ela, o espinho mais bicudo que tinha cravada no flanco. E quando terminasse, ao C. C. no ficaria iluso alguma de apanh-lo para o matrimnio.
      
      Hank subia  grua quando Trent desceu do BMW.
      
      -Ol -sonriendo, Hank se levou a mo  viseira de sua boina cinza-. A chefa est dentro fechou a porta e tirou a cabea pelo guich, disposto a conversar.
      
      Por algum motivo, Trent descobriu que e fixava de verdade nele. Era jovem, provavelmente de uns vinte anos, com uma cara redonda e aberta, forte acento do 
este e um cabelo de cor pajizo que saa disparado em todas direes.
      
      -Faz muito que trabalha para o C.C.?
      
      -Desde que lhe comprou a oficina ao velho Pete. Faz uns... trs anos. Sim. Quase trs anos. No quis me contratar at que terminei o instituto.  graciosa.
      
      -Sim?
      
      -Assim que lhe coloca uma abelha na boina, no h maneira de jog-la -com a cabea indicou a oficina-. Hoje est bastante suscetvel.
      
      -Isso  pouco habitual?
      
      Hank riu entre dentes e ps a rdio.
      
      -No posso dizer que ladre e no remoa, porque a vi morder em um par de ocasies. Vemo-nos.
      
      -Claro -quando entrou, C.C. achava-se enterrada at a cintura no cap de um sedam ltimo modelo. Tinha posta a rdio, mas essa vez eram seus quadris as que 
seguiam o ritmo-. Perdoe -comeou, logo recordou que j tinham passado pelo mesmo. aproximou-se e lhe tocou o ombro.
      
      -Se espera um... -mas girou a cabea o suficiente para ver a gravata. Esse dia no era marrom, a no ser azul. No obstante, estava segura de quem era o dono-. 
O que quer?
      
      -Acredito que se trata de uma mudana de lubrificante.
      
      -OH -voltou a dedicar-se a trocar umas velas de aceso-. Bom, deixe-o fora, as chaves no banco e j o revisarei. Estar preparado s seis.
      
      -Sempre se ocupa de seus negcios de forma to casual?
      
      -Sim.
      
      -Se no lhe importar, acredito que reterei minhas chaves at que esteja menos distrada.
      
      -Como gosto -passaram dois minutos de vibrante silncio quebrados solo pela predio da rdio de tormenta para essa tarde-. Olhe, se pensa ficar aqui de p, 
por que no faz algo til? Meta-se no carro e arranque o.
      
      -Arranc-lo?
      
      -Sim, j sabe, gire a chave e pise no pedal -inclinou a cabea e se apartou o cabelo com um sopro-. Acredita que poder consegui-lo?
      
      - provvel -no era exatamente o que tinha tido em mente, mas rodeou o carro at o assento do condutor. Notou que havia algo rosa e pegajoso na catapora. 
meteu-se dentro e girou a chave. O motor arrancou e ronronou, com um som que lhe pareceu bom. Embora C.C. no esteve de acordo, j que ficou a realizar uns ajustes-. 
Sonha bem -assinalou Trent.
      
      -No, h um intervalo.
      
      -Como pode ouvir algo com o estrondo da rdio?
      
      -Como pode voc no ouvi-lo? Melhor -murmurou-. Melhor.
      
      Curioso, baixou para inclinar-se por cima do ombro dela.
      
      -O que faz?
      
      -Meu trabalho -moveu os ombros com gesto irritado, como se tivesse um picor entre os omoplatas-. Retire-se, quer?
      
      -Solo rpido uma curiosidade normal -sem pens-lo, apoiou com ligeireza uma mo nas costas dela e se adiantou mais. C.C. sobressaltou-se, sentiu um aguijonazo 
de dor e amaldioou como um marinheiro.
      
      -me deixe ver -tomou a mo que ela agitava.
      
      -No  nada. me solte, quer? Se no tivesse estado em meu caminho, a mo no me teria escorregado.
      
      -Pare de danar e me deixe ver -aferrou-lhe a boneca com firmeza e examinou os ndulos machucados. A leve mancha de sangre por debaixo da graxa lhe provocou 
um agudo e ridculo sentido de culpabilidade-. Necessitar que a curem.
      
      - sozinho um arranho -"Deus, por que no lhe soltava a mo?"- O que preciso  acabar este trabalho.
      
      -No se comporte como um beb -comentou com suavidade-. Onde est o estojo de primeiro socorros de primeiros auxlios?
      
      -No banheiro, e eu sozinha posso faz-lo.
      
      Sem lhe emprestar ateno nem lhe soltar as bonecas, rodeou o veculo para apagar o motor.
      
      -Onde est o banho?
      
      Com um gesto brusco indicou o corredor que separava o escritrio da oficina.
      
      -Se deixar as chaves de seu...
      
      -Disse que era minha culpa que machucasse a mo, assim assumo a responsabilidade.
      
      -Eu gostaria que deixasse de me fazer dar voltas -pediu quando a conduziu para o corredor.
      
      -Ento mantenha o ritmo -de um empurro abriu uma porta que dava a um banho com azulejos brancos do tamanho de um armrio. Sem fazer caso aos protestos dela, 
sustentou sua mo sob o jorro de gua fria. As dimenses do quarto faziam que estivessem com os quadris pegos. Ambos se esforaram por soslayar isso enquanto ele 
tomava o sabo e, com surpreendente delicadeza, comeava a lhe lavar a mo-. No  profundo -indicou, molesto por ter a garganta seca.
      
      -Disse-lhe que solo era um arranho.
      
      -Os arranhes se infectam.
      
      -Sim, doutor.
      
      Com uma rplica na ponta da lngua, elevou a vista. A via muito bonita com graxa na ponta do nariz e a boca com uma careta infantil.
      
      -Sinto muito -ouviu-se dizer, e a petulncia se desvaneceu dos olhos dela.
      
      -No foi culpa dela -para no estar quieta, abriu o espelho do armrio que havia sobre o lavabo e tirou o estojo de primeiro socorros-. Posso me ocupar eu, 
de verdade.
      
      -Eu gosto de acabar o que comeo -tirou-lhe o estojo de primeiro socorros das mos e encontrou o anti-sptico-. Suponho que deveria dizer que isto lhe vai 
picar.
      
      -J sei que lana -soltou um vaio contido quando ele limpou o corte. Automaticamente se inclinou para sopro, quo mesmo fez ele. Suas cabeas chocaram. esfregou-se 
o golpe com a mo livre e riu-. Formamos uma equipe horrvel.
      
      Trent se levou as mos do C.C. aos lbios e viu que a confuso obscurecia seus olhos. A mo que sustentava ficou lassa. Ela abriu a boca e permaneceu desse 
modo, sem emitir som algum.
      
      -supe-se que um beijo o cura -assinalou, e por motivos absolutamente egostas, roou-lhe a mo com os lbios.
      
      -Acredito que... seria melhor se... -"Deus, o quarto  pequeno", pensou distrada. E se diminua por momentos-. Obrigado -conseguiu dizer-. Estou segura de 
que j est bem.
      
      -Ter que enfaix-la.
      
      -OH, bom, eu no...
      
      -Se no se sujar -passando-lhe em grande, tirou um cilindro de atadura e comeou a lhe envolver a mo.
      
      Acreditando que dessa maneira poria algo de distancia entre eles, C.C. voltou-se. Como se seguisse os movimentos de um baile, Trent tambm o fez. Ficaram cara 
a cara em vez de flanco. O se moveu e as costas dela se cravou contra a parede.
      
      -Di-lhe?
      
      Negou-o com a cabea. "No me di", decidiu C.C., "Solo estou louca". Uma mulher tinha que estar louca para que o corao o martilleara como um martelo pneumtico 
porque um homem lhe acontecesse uma atadura pelos ndulos esfolados.
      
      -C.C. -com movimentos competentes fixou a atadura em seu stio-. Posso lhe fazer uma pergunta pessoal? -achavam-se to perto como a noite anterior, durante 
a discusso. Trent concluiu que isso era muito mais agradvel-. vai arrumar me o radiador?
      
      -Certamente.
      
      -Ento me perdoa pelo acontecido ontem  noite?
      
      -No hei dito isso -arqueou as sobrancelhas.
      
      -Eu gostaria que o reconsiderasse -com a mo dela entre os dois, aproximou-se um pouco mais-. Ver, se isso for representar minha perdio, custar ainda mais 
resistir o impulso de pecar outra vez.
      
      -No acredito que lamente nada do que fez -aturdida, ela se pegou  parede.
      
      -Temo-me que tem razo -reps, observando os olhos abertos, a boca tentadora.
      
      Enquanto ela se sentia indecisa entre o terror e o gozo, o telefone comeou a soar.
      
      -Tenho que responder -gil como um sabujo, se escabull fora do quarto.
      
      Surpreso consigo mesmo, ele a seguiu mais devagar. Outra mulher, certamente uma que tivesse o matrimnio na cabea, teria sorrido... ou feito uma careta. O 
teria rodeado com os braos ou fingido que o mantinha a raia. Mas outra mulher no se teria ficado com as costas contra a parede como se se enfrentasse a um peloto 
de fuzilamento. Outra mulher no o teria observado com olhos muito grandes e necessitados, nem teria gaguejado.
      
      Tampouco lhe teria resultado to irresistvel.
      
      No escritrio, C.C. elevou o auricular, mas tinha a mente em branco. Olhou pelo cristal com o auricular pego ao ouvido durante dez segundos silenciosos antes 
de que a voz que escutava a devolvesse  realidade.
      
      -O que? OH, sim, sim, sou C.C. Sinto muito.  voc, Finney? -soltou o flego contido enquanto escutava-. Tornaste-te a deixar as luzes acesas? Est seguro? 
Vale, vale. Pode que seja o motor de aceso -com gesto distrado se passou uma mo pelo cabelo e comeou a sentar-se no escritrio antes de ver o Trent. Ento se 
ergueu como um mole-. O que? Sinto muito, poderia repeti-lo? Mmm. por que no passo a lhe jogar uma olhada de caminho a casa? Por volta das seis e meia -sorriu-. 
Claro, sou incapaz de rechaar uma lagosta. Pode apost-lo. Adeus.
      
      -Um mecnico que faz visitas -comentou Trent.
      
      -Entre vizinhos nos cuidamos -"lhe relaxem", se ordenou. "te relaxe agora mesmo"-. Alm disso, resulta fcil quando te espera um especial de lagosta do Albert 
Finney.
      
      -Como vai a mo? -sentiu uma irritao que se esforou em soslayar.
      
      -Bem -ela moveu os dedos-. por que no pendura as chaves de seu carro no tabuleiro?
      
      -d-se conta de que jamais pronunciou meu nome? -inquiriu enquanto obedecia.
      
      -claro que sim.
      
      -No, chamou-me nomes, mas nunca o meu -descartou o pensamento com um gesto-. Em qualquer caso, preciso falar com voc.
      
      -Escute, se for sobre a casa, no  o momento nem o lugar.
      
      -No o , certamente.
      
      -OH -olhou-o e sentiu esse estranho sobressalto no peito-. Me faz tarde. No pode esperar at que deva recolher seu carro?
      
      -No demorarei muito -no estava acostumado a esperar por nada-. Considero que devo adverti-la, j que acredito que desconhecia tanto como eu os planos de 
sua tia.
      
      -A tia Coco? Que planos?
      
      -Esses que envolvem um vestido branco.
      
      -Matrimnio? -sua expresso passou de desconcerto a suspicacia-.  absurdo. A tia Coco no planeja casar-se. Nem sequer sai com algum de maneira sria.
      
      -No acredito que ela seja a candidata -aproximou-se sem lhe tirar a vista de cima-.  voc.
      
      Riu divertida e com vontades ao sentar-se no bordo do escritrio.
      
      -Eu? Casada?  uma tolice.
      
      -Absolutamente.
      
      A risada morreu. Desceu do escritrio e falou com voz muito fria.
      
      -O que  exatamente o que quer dar a entender?
      
      -Que sua tia, por razes que unicamente ela conhece, convidou-me aqui no s para lhe jogar uma olhada  casa, mas tambm a suas quatro atrativas sobrinhas.
      
      Ela ficou muito plida, sinal de que se sentia profundamente zangada.
      
      - insultante.
      
      - um fato.
      
      -Saia daqui -empurrou-o com fora em direo  porta-. Saia daqui. Recolha suas chaves, seu carro e suas ridculas acusaes e saia daqui.
      
      -Cale um momento -agarrou-a com firmeza pelos ombros-. Solo um minuto, e quando tiver terminado, e se ainda pensa que estou sendo ridculo, partirei-me.
      
      -Sei que  ridculo. E matreiro, e arrogante. Se por um instante pensa que eu... eu tenho planos para voc...
      
      -Voc no -corrigiu-. Sua bem-intencionada tia. "C.C., por que no ensina ao Trenton os jardins? As flores so deliciosas  luz da lua".
      
      -S estava mostrando-se corts.
      
      -Sabe como passei a manh?
      
      -No me interessa absolutamente.
      
      -Olhando lbuns de fotos -viu que a ira se transformava em angstia e insistiu-. Dzias de fotos. Foi uma menina adorvel, Catherine.
      
      -OH, Deus.
      
      -E tambm brilhante, segundo sua extasiada tia. Foi campe de ortografia em terceiro grau -com um gemido afogado, ela voltou a sentar-se sobre o escritrio-. 
No tem nenhuma s crie.
      
      -No me acredito -conseguiu murmurar C. C.
      
      -Isso e mais. Matrcula de honra em sua classe de mecnica no instituto. Empregou o grosso de sua herana para comprar esta oficina a seu chefe. Tenho entendido 
que  uma mulher muito sensata que sabe como manter os ps na terra. Certamente, com seu excelente histrico de crebro e beleza, seria uma esposa excelente para 
o homem adequado.
      
      C.C. tinha trocado a palidez por um rubor furioso.
      
      -O simples feito de que a tia Coco esteja orgulhosa de mim no significa que pretenda nada pelo estilo.
      
      -No depois de acabar relatando suas virtudes e me mostrar suas fotos, preciosas por certo, no baile de graduao?
      
      -Santo... -C.C. fechou os olhos.
      
      -Logo ficou a me interrogar a respeito do que pensava sobre o matrimnio e os filhos, soltando insinuaes bastante diretas de que um homem em minha posio 
necessita uma relao estvel com uma mulher estvel. Como voc.
      
      -De acordo, de acordo. J basta -voltou a abrir os olhos-. A tia Coco freqentemente imagina que sabe o que  melhor para minhas irms e para mim. E se passa 
-apertou os dentes-. Mas nesses casos s  porque nos quer e se sente responsvel por ns. Sinto que o tenha incomodado.
      
      -No o contei para envergonh-la ou conseguir uma desculpa -incmodo de repente, meteu-se as mos nos bolsos-. Pensei que era melhor que soubesse por onde 
foram os pensamentos de sua tia antes de que, bom, algo se descontrolasse.
      
      -Descontrolar-se? -repetiu C.C.
      
      -Ou se interpretasse mal -" estranho", pensou; pelo general, resultava-lhe fcil estabelecer pautas. Certamente, com antecedncia no recordava ter tido problemas 
para expor uma idia-. Quer dizer, depois do de ontem  noite... compreendo que voc esteve protegida at certo ponto -viu que ela movia os dedos de sua mo boa 
sobre um joelho. Considerou que era melhor comear de novo-. Acredito na sinceridade, C.C., tanto em meus negcios como em minhas relaes pessoais. Ontem  noite, 
entre o mau humor e a luz da lua... suponho que poderamos dizer que perdemos um pouco o controle -pareceu-lhe uma descrio pobre do que tinha passado-. No quisesse 
que sua falta de experincia e as fantasias de sua tia conduzissem a um mal-entendido.
      
      -A ver se o compreendi. Preocupa-lhe que por me haver beijado ontem  noite, e que minha tia tenha tirado o tema do matrimnio junto com minhas fotos de pequena, 
possa me fazer uma idia descabelada de que eu poderia ser a prxima senhora St. James.
      
      -Mais ou menos -aturdido, se mes o cabelo-. Pensei que seria melhor, certamente mais justo, se o contava diretamente, de forma que voc e eu pudssemos dirigir 
o de forma razovel. Assim no...
      
      -No desenvolveria nenhuma iluso de grandeza? -sugeriu C.C.
      
      -No ponha palavras em minha boca.
      
      -Como poderia? No fica espao com sua pata nela.
      
      -Maldita seja -odiou o fato de que ela tivesse toda a razo-. S intento ser absolutamente honesto com voc, para que no haja nenhum mal-entendido quando 
lhe disser que me sinto muito atrado por voc.
      
      Ela unicamente arqueou uma sobrancelha, muito furiosa para ver que as palavras que ele acabava de pronunciar o tinham deixado mudo.
      
      -Agora, suponho, devo me sentir adulada.
      
      -No se supe que deva fazer nada. S trato de expor os fatos.
      
      -Eu lhe darei alguns feitos -cravou-lhe uma mo no peito-. No se sente atrado por mim, atrai-o a imagem do perfeito e invejvel Trenton St. James III. As 
fantasias de minha tia, como voc as chama, so o resultado de um corao carinhoso e maravilhoso. Algo que estou segura voc no pode entender. Por isso a mim respeita, 
no me passaria pela cabea estar cinco minutos com voc, muito menos a vida.  possvel que termine em posse de meu lar, mas no me ter  -acendia-se e se sentia 
muito bem-. Se viesse arrastando-se at mim com um diamante como meu punho em seus dentes, riria-me em sua cara. Esses so os fatos. Saber como encontrar a sada 
-deu meia volta e partiu corredor abaixo.
      
      Trent fez uma careta para ouvir a portada.
      
      -Bom -murmurou, esfregando-os olhos-. No cabe dvida de que esclarecemos esse ponto.
      
      5
      
      
      
      
      "Insofrvel.  a palavra perfeita para descrev-lo", decidiu C.C., aferrando-se o resto do dia.
      
      Quando chegou a casa, reinava a tranqilidade. Captou o som dbil do piano da sala de msica. lhe dando as costas  escada, seguiu as notas.
      
      Era Suzanna a que se sentava ao velho aparelho. Tinha sido a nica em persistir com as classes de msica e que tinha mostrado talento real. Amanda tinha sido 
muito impaciente, Lilah muito preguiosa. E C.C.... baixou a vista a suas mos. Os dedos se haviam sentido mais cmodos manchados de graxa que ante umas teclas.
      
      No obstante, gostava de escutar. No havia nada que a acalmasse ou seduzira mais que a msica.
      
      Suzanna, perdida em alguma parte de seu corao, suspirou quando morreram as ltimas notas.
      
      -Precioso -C.C. aproximou-se para beijar o cabelo de sua irm.
      
      -Estou oxidada.
      
      -No daqui.
      
      Suzanna sorriu e lhe aplaudiu a mo; ento notou a atadura.
      
      -OH, C.C., o que tem feito?
      
      -Arranhei-me os ndulos.
      
      -Lavaste-lhe isso bem? Quando foi a ltima vez que te vacinou contra o ttanos?
      
      -te relaxe, mame. Esto limpos e me vacinei faz seis meses -sentou-se no banco, de cara  sala-. Por onde anda todo mundo?
      
      -Os meninos esto dormidos... isso espero. Cruzamento os dedos. Lilah tinha uma entrevista. Mandy repassando algum livro de contabilidade e a tia Coco subiu 
faz horas a dar um banho de espuma e a ficar rodelas de pepino nos olhos.
      
      -E ele?.
      
      -Na cama, suponho. J  quase meia-noite.
      
      -Sim? -ento sorriu-. Est acordada por mim.
      
      -No -descoberta, Suzanna riu-. Sim. Arrumou a caminhonete do senhor Finney?
      
      -tornou-se a deixar as luzes acesas -bocejou-. Acredito que o faz de propsito para que eu v recarregar lhe a bateria -estirou os braos-. Jantamos lagosta 
e vinho.
      
      -Se no fora o bastante major para ser seu av, diria que est apaixonado por ti.
      
      -Sim. E  mtuo. Bom, perdi-me algo por aqui?
      
      -A tia Coco quer ter uma sesso esprita.
      
      -Outra vez no.
      
      Suzanna passou levemente os dedos sobre as teclas, improvisando.
      
      -Amanh de noite, justo depois do jantar. Insiste em que h algo que a bisav Bianca quer que saibamos... e tambm Trent.
      
      -Ele o que tem que ver no assunto?
      
      -Se decidimos lhe vender a casa, pode-se dizer que a herdar.
      
      - o que vamos fazer, Suzanna?
      
      - o que possivelmente tenhamos que fazer.
      
      C.C. levantou-se para ficar a jogar com as borlas de um abajur de p.
      
      -A oficina vai muito bem. Poderia pedir um emprstimo dando-o como garantia.
      
      -No.
      
      -Mas...
      
      -No -repetiu Suzanna-. No vais arriscar seu futuro pelo passado.
      
      - meu futuro.
      
      -E  nosso passado -ela tambm se levantou. Quando nos olhos da Suzanna aparecia essa luz, at o C.C. sabia que o melhor era no discutir-. Sei o muito que 
a casa significa para ti, para todas ns. Retornar aqui depois de que Bax... depois de que as coisas no funcionassem exps com cuidado-, ajudou-me a manter a prudncia. 
Cada vez que vejo o Alex ou ao Jenny descer pelo corrimo da escada, vejo-me mesma fazendo-o. Vejo mame sentada ao piano, ouo papai contar histrias diante da 
chamin.
      
      -Ento, como te pode passar pela cabea vend-la?
      
      -Porque aprendi a me enfrentar  realidade, sem importar quo desagradvel fora -apoiou uma mo na bochecha do C.C. Solo as separavam cinco anos, mas em ocasies 
Suzanna pensava que eram cinqenta-. s vezes lhe acontecem coisas, ou passam a seu redor, que simplesmente no pode controlar. Nesse caso, recolhe o que  importante 
para sua vida e segue adiante.
      
      -Mas a casa  importante.
      
      -Quanto tempo mais crie que poderemos agentar?
      
      -Poderamos vender as litografias, as baixelas do Limoges, algumas costure mais.
      
      -E prolongar a infelicidade -conhecia muito bem isso-.  hora de deix-lo ir, e acredito que deveramos faz-lo com certa dignidade.
      
      -Ento, j te decidiste.
      
      -No -Suzanna suspirou e voltou a sentar-se-. Cada vez que penso que sim, mudana de parecer. antes do jantar, os meninos e eu demos um passeio pelos penhascos 
-com olhos sonhadores olhou pela janela s escuras-. Quando estou ali de p, contemplando a baa, sinto algo, um pouco to incrvel, que me rompe o corao. No 
sei o que  o correto, C.C. No sei o que  o melhor. Mas me temo que sei o que ter que fazer.
      
      -Di.
      
      -Sei.
      
      C.C. sentou-se a seu lado e apoiou a cabea no ombro de sua irm.
      
      -Possivelmente se produza um milagre.
      
      Trent as observou do corredor em penumbra. Desejou no as haver ouvido. Desejou que no lhe importasse. Mas o tinha ouvido, e por motivos que decidiu no explorar, 
importava-lhe. Em silncio, subiu outra vez pela escada.
      
      
      
      -Meninos -disse Coco com o que sabia que era seu ltimo vestgio de prudncia-, por que no lem um livro agradvel?
      
      -Quero jogar  guerra -Alex cortou o ar com um sabre imaginrio-. Morte at o ltimo homem.
      
      "E s tem seis anos", pensou Coco. "O que ser dentro de dez anos?".
      
      -Lpis de cores -comentou esperanada, amaldioando as chuvosas tardes dos sbados-. por que no lhes pem a fazer bonitos desenhos? Podemos pendur-los na 
geladeira, como uma exposio de arte.
      
      -Coisas de meninos -interveio Jenny, que j com cinco anos era uma cnica. Apontou com um rifle laser invisvel e disparou-. Z-z-zap! Est totalmente desintegrado, 
Alex.
      
      -Desintegrado, um corno. Elevei meu campo de fora.
      
      -Nooo.
      
      observaram-se com o desagrado mtuo que os irmos podem sentir depois de estar encerrados em casa um sbado. Por acordo tcito, passaram ao combate corpo a 
corpo. Enquanto se debatiam sobre a gasto tapete Aubusson, Coco levantou a vista ao teto.
      
      Ao menos o combate tinha lugar na habitao do Alex, de modo que pouco dano se podia causar. Teve a tentao de sair e fechar a porta, deixando-os para que 
se matassem, mas, depois de tudo, era uma mulher responsvel.
      
      -Algum vai se machucar -comeou com a antiga reprimenda que empregam os adultos com os meninos-. Recorda o que passou a semana passada quando Jenny te fez 
sangrar o nariz, Alex?
      
      -No  verdade -o orgulho masculino preponderou enquanto se trabalhava em excesso por derrubar a seu gil irmana.
      
      -Sim  verdade, sim  verdade -entoou ela, com a esperana de repeti-lo. Cruzou suas rpidas piernecitas por cima dele.
      
      -Perdo -disse Trent da porta-. Parece que interrompo.
      
      -Absolutamente -Coco se arrumou o cabelo-.  sozinho uma manifestao de entusiasmo juvenil. Meninos, sadem o senhor St. James.
      
      -Ol -disse Alex enquanto tentava imobilizar a sua irm com uma imprensa.
      
      O sorriso do Trent inspirou a Coco.
      
      -Trenton, poderia lhe pedir um favor?
      
      -Certamente.
      
      -As garotas trabalham hoje, como voc sabe, e devo fazer um ou dois recados pequenos. Importaria-lhe muito vigiar aos meninos por pouco tempo?
      
      -vigi-los?
      
      -OH, no representam problema algum -sorriu-lhe jubilosa, logo dedicou o gesto a seus sobrinhos-. Jenny, no remoa a seu irmo. Os Calhoun lutam com limpeza 
-"a menos que faam armadilhas", pensou-. Retornarei antes de que se d conta de que me fui -prometeu ao passar a seu lado.
      
      -Coco, no estou seguro de...
      
      -OH, e no esquea a sesso de esta noite -desceu pelos degraus e o deixou para que as arrumasse por sua prpria conta.
      
      Jenny e Alex deixaram de lutar para olh-lo com astcia. Eram capazes de arranc-los dentes, mas se uniam sem hesitao algum contra uma fora exterior.
      
      -Ns no gostamos das babs -asseverou Alex com tom perigoso.
      
      Trent apoiou todo seu peso nos tales.
      
      -Sei que eu no gosto de ser uma.
      
      O brao do Alex rodeou os ombros de sua irm em vez de seu pescoo. o de lhe rodeou a cintura.
      
      -Isso no faz que ns gostemos.
      
      Trent assentiu. Se era capaz de dirigir um pessoal de cinqenta pessoas, poderia levar a dois meninos hostis.
      
      -De acordo.
      
      -Quando o vero passado fomos visita Boston, tivemos uma bab -Jenny o observou com suspicacia-. Fizemos que a vida de todos fora um inferno.
      
      -De verdade? -a risita do Trent se converteu em uma tosse.
      
      -Isso disse nosso pai -corroborou Alex-. E se alegrou de nos ver as costas.
      
      A irreverncia infantil j no resultava divertida. Trent se esforou por manter a ira fora de seus olhos e simplesmente assentiu. Evidentemente, Baxter Dumont 
era um prncipe entre os homens.
      
      -Uma vez eu encerrei a minha bab no armrio e sa pela janela.
      
      Os meninos intercambiaram um olhar interessado.
      
      -Isso est bem -decidiu Alex.
      
      -Gritou durante duas horas -improvisou Trent.
      
      -Ns pusemos uma serpente na cama de nossa bab e fugiu de casa em camisola -Jenny sorriu satisfeita e esperou para ver se ele conseguia super-lo.
      
      -Bem feito -"e agora o que?", perguntou-se-. Tm alguma boneca?
      
      -As bonecas so vulgares -disse Jenny, leal a seu irmo.
      
      -lhes cortem a cabea! -gritou Alex, lhe provocando uma risita. Deu um salto, blandiendo uma espada imaginria-. Sou o pirata malvado e so meus prisioneiros.
      
      -Mmm, a ltima vez me tocou ser prisioneira -Jenny se levantou-.  meu turno de ser a pirata malvada.
      
      -Eu o hei dito primeiro.
      
      -Trapaceiro, trapaceiro -deu-lhe um empurro.
      
      -Nenita, nenita -burlou-se ele, lhe devolvendo o empurro.
      
              -Um momento! -gritou Trent antes de que pudessem lanar o um sobre o outro. O pouco familiar tom masculino os freou em seco-. Eu sou o pirata malvado 
-disse-lhes-, e os dois esto a ponto de sair  passarela.         
      
      divertiu-se. A imaginao infantil deles possivelmente fora um pouco sanguinolenta, mas jogaram limpo uma vez que se estabeleceram as regras. Muitas pessoas 
que conhecia socialmente se teriam ficado pasmadas de ver o Trenton St. James III a gatas pelo cho ou disparando pistolas de gua, mas ele recordava o que era estar 
encerrado em casa os dias de chuva.
      
      Passaram d ser piratas a vilos espaciais, logo ndios loucos. Ao final de uma batalha especialmente violenta, os trs ficaram tendidos no cho. Alex, com 
um tomahawk de plstico na mo, jogou a estar morto tanto tempo que ficou dormido.
      
      -ganhei eu -disse Jenny; logo, com o meio doido de plumas sobre os olhos, se acurruc contra o flanco do Trent. Com a invejvel facilidade dos meninos, tambm 
ela ficou dormida.
      
      C.C. encontrou-os dessa maneira. A chuva dava com suavidade contra as janelas. No quarto de banho que havia corredor abaixo, uma destilao caa musicalmente 
em um cubo. Pelo resto, solo se ouvia uma respirao compassada.
      
      Alex estava tendido de barriga para baixo, com os dedos fechados ainda sobre sua arma. alm dos corpos, o cho se achava lotado de carros em miniatura, bonecos 
de ao derrotados e uns poucos dinossauros de plstico. Evitando as baixas, C.C. entrou.
      
      No soube muito bem quais foram seus sentimentos ao encontrar ao Trent dormido no cho com seus sobrinhos. Pelo que sim  teve segura foi de que, se no o 
tivesse visto com seus prprios olhos, no o teria acreditado.
      
      Sua gravata e sapatos tinham desaparecido, ten-o cabelo revolto e por sua camisa de algodo havia uma linha mida.
      
      Experimentou uma ternura muito real no corao. Se inclusive parecia... "doce", pensou, e imediatamente colocou as mos nos bolsos. Isso era absurdo. Um homem 
como Trent jamais era doce.
      
      "Possivelmente os meninos o deixaram sem sentido", refletiu, inclinando-se sobre ele. Trent abriu os olhos, observou-a durante um momento e logo emitiu uma 
espcie de som sonolento e rouco.
      
      -O que faz? -sussurrou ela.
      
      -No sei muito bem -elevou a cabea e olhou ao redor. Tinha ao Jenny no oco de um brao e ao Alex ao outro lado-. Mas acredito que sou o nico supervivente.
      
      -Onde est a tia Coco?
      
      -Fazendo uns recados. Eu vigio aos meninos.
      
      -OH, j o vejo -arqueou uma sobrancelha.
      
      -Temo-me que se livrou uma batalha importante e se perderam muitas vidas.
      
      -Quem ganhou? -sorriu ao ir procurar uma manta  cama do Alex.
      
      -Jenny reclamou a vitria -com suavidade tirou o brao de debaixo da cabea da pequena-. Embora Alex no o aceitar.
      
      -Sem dvida.
      
      -O que fazemos com eles?
      
      -OH, nos ficaremos, suponho.
      
      Lhe devolveu o sorriso.
      
      -No, queria dizer se os metamos na cama ou algo pelo estilo.
      
      -No -com destreza abriu a manta e a estendeu sobre os dois meninos no stio onde dormiam-. Estaro bem -sentiu o ridculo impulso de lhe rodear a cintura 
com um brao e apoiar a cabea em seu ombro. Controlou-o sem piedade-. Foi muito amvel de sua parte oferecer-se a cuid-los.
      
      -Realmente no me ofereci. Recrutaram-me.
      
      -Mesmo assim, foi amvel.
      
      -No me viria mal uma taa de caf -comentou ao reunir-se com ela na porta.
      
      -De acordo -aceitou C.C. depois de um hesitao-. Prepararei-o. Ao parecer o ganhou -olhou por cima do ombro ao baixar as escadas-. Como se molhou a camisa?
      
      -OH -passou uma mo por ela, um pouco morto de calor-. Um impacto direto com um raio mortfero disfarado de pistola de gua. Que tal foi seu dia?
      
      -No to aventureiro como o seu -entrou na cozinha e foi diretamente a pr gua-. Solo reconstru um motor.
      
      Quando o caf comeou a ferver, dedicou-se a acender a chamin da cozinha. Trent notou que tinha chuva no cabelo. No era um homem lrico, mas se encontrou 
pensando que as gotas de gua pareciam uma ducha de diamantes sobre a boina.
      
      recordou-se que sempre tinha preferido s mulheres com o cabelo comprido. Femininas, suaves, sinuosas. E entretanto... esse estilo de cabelo encaixava com 
o C.C., j que mostrava seu pescoo esbelto e emoldurava essa gloriosa e branca pele.
      
      -O que est olhando?
      
      -Nada -piscou e moveu a cabea-. Sinto muito, solo pensava. ... H algo que reconforta em um fogo na cozinha.
      
      -Mmm -"parece estranho", pensou. Possivelmente se devesse  falta de gravata-. Quer leite no caf?
      
      -No, sozinho.
      
      Ao ir para a cozinha lhe roou o brao. Nessa ocasio foi ele quem retrocedeu.
      
      -Disse a tia Coco aonde ia?
      
      Trent pensou que possivelmente a eletricidade esttica explicasse a sacudida que sentiu ao toc-la.
      
      -No exatamente. No importa, diverti-me com os meninos.
      
      Observou-o ao lhe passar a taa.
      
      -Acredito que fala a srio.
      
      -Sim. Talvez no estive muito tempo junto a meninos para me haver cansado deles. Estes dois formam um casal especial.
      
      -Suzanna  uma me magnfica -relaxada, apoiou-se na encimera enquanto bebia-. Estava acostumado a praticar comigo. Como vai o carro?
      
      -Melhor que em meses -elevou a taa para brindar por ela-. Temo-me que no notei nada estranho at depois de que voc trabalhasse nele. Em realidade no sei 
nada de motores.
      
      -Est bem. Eu no sei como planejar uma aquisio empresarial.
      
      -Lamento que no estivesse na oficina quando fui recolher o. Hank me disse que tinha sado para jantar. Suponho que o passou bem... no voltou at tarde.
      
      -Sempre me o passo bem com o Finney -voltou-se para tirar o bote das bolachas, logo lhe ofereceu uma enquanto Trent se trabalhava em excesso por no emprestar 
ateno ao aguijonazo de cimes.
      
      -Um velho amigo?
      
      -Suponho que se poderia dizer que sim -C.C. respirou fundo e se preparou para lanar-se ao discurso que tinha praticado todo o dia-. Eu gostaria de esclarecer 
o tema que tirou colao ontem.
      
      -No  necessrio. Tenho-me feito uma idia.
      
      -Poderia lhe haver explicado as coisas sem ser to dura.
      
      -Sim? -estudou-a pensativo e com a cabea inclinada.
      
      -Eu gosto de pensar que sim -decidida a comear de zero, deixou o caf a um lado-. Sentia-me morta de calor, e isso me zanga. Toda esta situao resulta difcil.
      
      Trent ainda podia captar com claridade a infelicidade em sua voz quando a noite anterior tinha falado com a Suzanna.
      
      -Acredito que comeo a entender isso.
      
      -Bom, em qualquer caso -olhou-o e suspirou-, no posso evitar sentir ressentimento pelo fato de que queira comprar As Torres, ou que possivelmente tenhamos 
que deixar que o faa... mas isso  algo distinto das manobras da tia Coco. Acredito que me dava conta, quando deixei de me sentir furiosa, de que voc se sentia 
to morto de calor como eu. Simplesmente foi muito educado.
      
      - um cacoete que tenho.
      
      -Se no tivesse tirado o do beijo... -agitou meia biscoitinho ante ele.
      
      -Compreendo que foi um engano de julgamento, mas como j me tinha desculpado por isso, pensei que poderamos tratar o de maneira razovel.
      
      -No queria uma desculpa -murmurou C.C.-. Nem ento nem agora.
      
      -Entendo.
      
      -No, no o entende. Absolutamente. O que queria dizer era que uma desculpa resultava desnecessria. Pode que carea de experincia de acordo a seus padres, 
e talvez no seja sofisticada como as mulheres com as que est acostumado a tratar, mas no sou to parva para me pr a sonhar acordada por um estpido beijo -voltava 
a zangar-se e pretendia que isso no acontecesse. Respirou fundo e o tentou outra vez-. Eu gostaria de esquecer isso e nossa conversao de ontem. Se resultar que 
temos que realizar negcios juntos, ser muito mais sensato para todos que nos mostremos civilizados.
      
      -Eu gosto desta maneira.
      
      -De que maneira?
      
      -Quando no me dispara.
      
      -No se acostume -terminou a bolacha e sorriu-. Todos os Calhoun tm um humor de ces.
      
      -Isso me advertiram. Uma trgua?
      
      -Suponho. Quer outro biscoitinho? -notou que ele voltava a olh-la fixamente, e abriu muito os olhos quando alargou a mo para lhe acariciar o cabelo-. O que 
faz?
      
      -Tem o cabelo molhado -fascinado, voltou a acarici-lo-. Cheira a flores midas.
      
      -Trent...
      
      -Sim? -sorriu.
      
      -No acredito que este seja o melhor modo de levar as coisas.
      
      -Provavelmente, no -mas baixou os dedos pelo cabelo at a nuca do C.C. Sentiu o rpido tremor-. No consigo te tirar de minha cabea. E no deixo de experimentar 
estes impulsos incontrolveis de te tocar. Pergunto-me por que ser.
      
      -Porque... -umedeceu-se os lbios-... irrito-te.
      
      -OH, certamente, sem lugar a dvidas -apertou os dedos contra a nuca e a fez avanar uns centmetros-. Mas no s da forma que quer dar a entender. No  to 
singelo. Embora deveria s-lo -elevou a outra emano at o pescoo da camisa vaqueira de trabalho dela, logo tomou o queixo-. Do contrrio, por que ia sentir esta 
necessidade irresistvel de te tocar cada vez que me aproximo de ti?
      
      -No sei -os dedos dele, ligeiros como plumas, baixaram at a base do pescoo para sentir seus batimentos do corao-. Desejaria que no o fizesse.
      
      -Fazer o que?
      
      -me tocar.
      
      Baixou a mo pela manga at a mo enfaixada do C.C., logo a levou aos lbios.
      
      -por que?
      
      -Porque me pe nervosa.
      
      -Nem sequer pretende ser provocadora, verdade? -algo se iluminou em seus olhos, fazendo que fossem quase negros.
      
      -No saberia como -fechou os olhos com um gemido estrangulado quando lhe beijou a mandbula.
      
      -Madressilva -murmurou ele, aproximando-a. No passado lhe tinha parecido uma flor muito corrente-. Virtualmente posso sabore-la em ti. Selvagem e doce.
      
      Os msculos dela se derreteram quando os lbios se juntaram. O beijo foi muito mais ligeiro e suave que a primeira vez. No era justo que lhe pudesse fazer 
isso. A parte de sua mente que ainda era racional esteve a ponto de grit-lo. Mas at isso ficou afogado pela marejada de desejo.
      
      -Catherine -emoldurou-lhe o rosto entre as mos enquanto lhe mordiscava o lbio-. Me devolva o beijo.
      
      Ela quis mover a cabea, apartar-se e sair da habitao andando indiferente. Mas fluiu aos braos dele e sua boca saiu ao encontro da do Trent.
      
      Ela pegou melhor contra seu corpo. No podia nem queria pensar em nada... nem nas conseqncias, nem nas regras, nem em um cdigo de conduta. Pela primeira 
vez desde que tinha uso de cor, solo desejava sentir. Essas agudas e doces sensaes que lhe provocava ela eram mais que suficiente para qualquer homem.
      
      C.C. era forte, sempre o tinha sido, mas no o bastante para impedir que o tempo se paralisasse. Compreendeu que toda a vida tinha estado esperando esse momento. 
Enquanto suas mos subiam pelas costas dele, abraou o momento to completamente como abraou ao Trent.
      
      O fogo crepitou na chamin. A chuva repicava no exterior. Por toda a casa reinava a ligeira e picante fragrncia do pebetero do Lilah. Os braos dele eram 
fortes e firmes, embora com uma gentileza que C.C. no tinha esperado.
      
      Recordaria-o tudo, cada detalhe, junto com a escura excitao da boca do Trent e o som de seu nome pronunciado por ele.
      
      Apartou-a, nessa ocasio devagar, mais aturdido do que gostava de reconhecer. Ao observ-la, ela se passou a lngua pelos lbios, como se queria saborear um 
ltimo vestgio. O gesto delicado e inconsciente a ponto esteve de pr o de joelhos.
      
      -No haver desculpa esta vez -disse-lhe com voz pouco segura.
      
      -No.
      
      -Desejo-te -voltou a beij-la-. Quero fazer o amor contigo.
      
      -Sim -foi um tipo de liberao glorioso. Sorriu sobre a boca dele-. Sim.
      
      -Quando? -enterrou a cara em seu cabelo-. Onde?
      
      -No sei -fechou os olhos maravilhada-. No posso pensar.
      
      -No o faa -beijou-lhe a tmpora, o ma do rosto, os lbios-. No  o momento de pensar.
      
      -Tem que ser perfeito.
      
      -Ser-o -emoldurou-lhe outra vez a cara-. Deixa que lhe demonstre isso.
      
      Acreditou-lhe... as palavras e o que viu em seus olhos.
      
      -No posso acreditar que vs ser voc -rendo, rodeou-o com os braos e o pegou a ela-. Que tenha esperado toda minha vida para estar com algum e que voc 
seja.
      
      -Toda sua vida? -a mo se freou de caminho para o cabelo do C.C.
      
      -Pensava que a primeira vez teria medo, mas no o tenho. No contigo soadoramente apaixonada, abraou-o mais forte.
      
      -A primeira vez -Trent fechou os olhos. Como tinha podido ser to estpido? Tinha reconhecido a inexperincia, mas no tinha pensado, no tinha terminado de 
acreditar que ela fora completamente inocente. E a tinha seduzido em sua prpria cozinha-. C. C.
      
      -Tenho sede -queixou-se Alex da porta, fazendo que se separassem como meninos culpados. Olhou-os com suspicacia-. por que fazem isso?  desagradvel -olhou 
ao Trent com expresso doda, de homem a homem-. No entendo por que algum quereria beijar s garotas.
      
      - um gosto adquirido -informou-lhe Trent-. O que te parece se lhe damos algo para beber e logo falo com sua tia? Preciso faz-lo em privado.
      
      -Mais tolices sentimentais.
      
      -Que tolices sentimentais? -quis saber Amanda ao passar a seu lado.
      
      -Nada -C.C. alargou a mo para a cafeteira.
      
      -Deus, que dia tive -comeou Amanda enquanto tomava uma bolacha.
      
      Duas segundos mais tarde entrou Suzanna, seguida do Lilah. Quando a cozinha se encheu de risadas e fragrncias femininas, Trent soube que seu momento se perdeu. 
No instante em que C.C. sorriu-lhe do outro extremo do quarto, tambm temeu perd-la cabea.
      
      6
      
      
      
      
      Era a primeira sesso esprita a que assistia Trent. Sinceramente esperava que fora a ltima. No tinha tido nenhuma maneira educada de declinar sua assistncia. 
Quando sugeriu que possivelmente se tratasse de uma velada familiar, Coco riu e lhe aplaudiu a bochecha.
      
      -Querido, nem nos passaria pela cabea exclui-lo. Quem sabe?, possivelmente os espritos inquietos escolham falar atravs de voc.
      
      A possibilidade fez pouco para anim-lo.
      
      Assim que os meninos estiveram agasalhados, o resto da famlia, junto com o resistente Trent, reuniu-se ao redor da mesa do comilo. preparou-se o cenrio.
      
      Uma dzia de velas titilava sobre o aparador em uns candelabros baratos que se mesclavam com o Meissen e Baccarat. Outro trio de velas brancas brilhava no 
centro da mesa. At a natureza parecia ter assumido o esprito da velada, por assim diz-lo.
      
      No exterior, a chuva se transformou em uma leve nevada mida, agitada por um vento crescente. Quando chocava o ar quente e frio, o trovo troava e o relmpago 
cintilava.
      
      Ao sentar-se, Trent pensou com fatalismo que era uma noite escura e tormentosa. Coco, tal como tinha temido em segredo, no se tinha posto um turbante nem 
um xale. como sempre, levava o cabelo arrumado com meticulosidade. Ao redor do pescoo luzia um grande cristal de ametista, com o que no parava de jogar.
      
      -E agora, meninos -instruiu-, tome as mos e formem o crculo.
      
      O vento chamou as janelas quando C.C. introduziu sua mo na do Trent. Coco lhe aferrou a outra. Justo frente a ele, Amanda sorriu, evidente em sua expresso 
a diverso e a simpatia ao tomar a mo de sua tia e da Suzanna.
      
      -No se preocupe, Trent -disse-lhe-. Os fantasmas Calhoun sempre se comportam bem quando esto em companhia.
      
      - essencial a concentrao -explicou Lilah ao cobrir o vazio entre suas irms maior e menor-. E bsica, de verdade. Quo nico ter que fazer  esvaziar a 
mente, em especial de qualquer cinismo -piscou os olhos um olho ao Trent-. Astrologicamente,  uma noite excelente para uma sesso esprita.
      
      C.C. tranqilizou-o com um aperto de mo no momento em que Coco intervinha.
      
      -Todos devemos limpar as mentes e abrir os coraes -falou com um tom montono e depravado-. Durante um tempo hei sentido que minha av, a infeliz Bianca, 
quis ficar em contato comigo. Este foi seu lar estival os ltimos anos de sua jovem vida. O lugar onde passou seus momentos mais jubilosos e trgicos. O lugar onde 
conheceu homem que amou e perdeu -fechou os olhos e respirou fundo-. Estamos aqui, av, te esperando. Sabemos que seu esprito se sente aflito.
      
      -Um esprito tem esprito? -quis saber Amanda, que ganhou um olhar colrico de sua tia.  uma pergunta razovel.
      
      -te comporte -murmurou Suzanna, contendo um sorriso-. Adiante, tia Coco.
      
      Permaneceram em silncio, e s a voz da tia Coco murmurava por cima do crepitar do fogo e o gemido do vento. A mente do Trent no se achava limpa. Estava enche 
com a lembrana do C.C. em seus braos, com o doce e generoso modo em que sua boca se aberto. A forma em que o tinha cuidadoso, com os olhos nublados e quentes pelas 
emoes. Emoes que imprudentemente ele tinha agitado.
      
      Dominava-o a culpa.
      
      Ela no era como Maria ou qualquer das mulheres s que tinha seduzido ao longo dos anos. Era inocente e aberta, e apesar de sua vontade forte e sua lngua 
mordaz, dolorosamente vulnervel. De forma indesculpvel, ele se tinha aproveitado disso.
      
      "Embora no  exclusivamente minha culpa", recordou-se. depois de tudo, era uma mulher formosa e desejvel. E ele era humano. O fato de que a desejasse, estritamente 
em um plano fsico, resultava natural.
      
      Olhou-a no momento em que ela girava a cabea e lhe sorria. Teve que conter o impulso tolo de levar-se sua mo aos lbios e provar sua pele.
      
      "Maldita seja, comove algo em mim". Algo que estava decidido a que seguisse inamovible. Quando lhe sorria, e inclusive quando lhe franzia o cenho, fazia que 
sentisse mais, que quisesse mais, que desejasse mais, mais que de nenhuma mulher que jamais tivesse conhecido.
      
      Era ridculo. achavam-se separados por quilmetros, em todos os sentidos. E, entretanto, ao ter essa emano clida na sua, sentia-se mais perto e em sintonia 
com ela, mais do que jamais tinha estado com ningum.
      
      Inclusive podia ver os dois sentados em um alpendre ensolarado, observando aos meninos jogar na erva. O som do mar tranqilizava igual a uma cano de ninar. 
O ar cheirava a rosas que subiam pela grade. E a madressilvas que cresciam silvestres em qualquer parte.
      
      Piscou, temeroso de que lhe tivesse parado o corao. A imagem tinha sido ntida e aterradora. " a atmosfera", assegurou-se. "A luz das velas, o vento e o 
relmpago". Jogavam com sua imaginao.
      
      No era a classe de homem que se sentaria em um alpendre com uma mulher a contemplar aos meninos. Tinha trabalho, um negcio que dirigir. A idia de relacionar-se 
com uma mecnica de carros de temperamento veemente resultava absurda.
      
      O ar frio pareceu lhe esbofetear a cara. Ao ficar rgido, viu que as chamas das velas se inclinavam muito  esquerda. "Uma rajada de ar", disse-se quando o 
frio o gelou at os ossos.
      
      Sentiu o calafrio do C.C. Ao olh-la, seus olhos estavam muito abertos e escuros. Apertava-lhe os dedos com fora.
      
      -Est aqui! -na voz de Coco havia surpresa e entusiasmo-. No me cabe nenhuma dvida.
      
      Em seu jbilo, a ponto esteve de soltar as mos e romper a cadeia. Tinha acreditado... bom, tinha querido acreditar, mas jamais havia sentido uma presena 
com tanta nitidez. Sorriu ao Lilah no outro extremo da mesa, mas sua sobrinha tinha os olhos fechados e exibia um leve sorriso.
      
      -deveu que abrir uma janela -indicou Amanda, e se teria levantado para ir comprovar o se Coco no a tivesse freado.
      
      -Nada disso. Fica quietos, todos. Est aqui. No o sentem?
      
      C.C. sim, e no sabia se tinha que sentir-se tola ou assustada. Algo era diferente. Estava segura de que tambm Trent o percebia.
      
      Era como se algum tivesse apoiado uma mo sobre os dedos enlaados do C.C. e Trent. O frio se desvaneceu, substitudo por uma calidez tranqilizadora. Era 
to real que olhou por cima do ombro, convencida de que veria algum de p a suas costas.
      
      Entretanto, quo nico viu foi a dana do fogo e as velas na parede.
      
      -encontra-se to perdida -C.C. ofegou ao dar-se conta de que era ela quem tinha falado. Todos a olharam. At o Lilah abriu com preguia os olhos.
      
      -V-a? -inquiriu Coco em um sussurro, apertando os dedos do C.C.
      
      -No. No, claro que no.  que... -no podia explic-lo-.  to triste -murmurou, sem saber que as lgrimas brilhavam em seus olhos-. No podem senti-lo?
      
      Trent podia, e isso o deixava sem fala. Um corao quebrado, e um desejo to profundo que era incomensurvel. " pura imaginao", disse-se. "O poder da sugesto".
      
      -No te distancie disso -Coco procurou com desespero o procedimento adequado. Quando ao fim conseguia que passasse algo de verdade, no tinha nem idia de 
como continuar. Um trovo a sobressaltou-. Crie que falar atravs de ti?
      
      No extremo oposto da mesa, Lilah sorriu.
      
      -Carinho, simplesmente nos diga o que v.
      
      -Um colar -ouviu-se responder C.C.-. Duas fileiras de esmeraldas flanqueadas por diamantes. Formosos, brilhantes -o fulgor feria os olhos-. Tem-no posto, mas 
no posso lhe ver a cara. OH,  to desventurada.
      
      -O colar Calhoun -murmurou Coco-. De modo que  verdade.
      
      Ento, como se um suspiro percorresse o ar, as velas voltaram a titilar, logo se ergueram. Um lenho caiu na chamin.
      
      - estranho -comentou Amanda ao sentir a mo lassa de sua tia-. irei avivar o fogo.
      
      -Carinho -Suzanna estudou ao C.C. com tanta preocupao como curiosidade-. Encontra-te bem?
      
      -Sim -C.C. pigarreou-. Claro -olhou ao Trent-. Suponho que a tormenta me afetou.
      
      Coco se levou uma mo ao peito e deu um tapinha sobre seu veloz corao.
      
      -Acredito que a todos viria bem uma copita de brandy -levantou-se, mais conmocionada do que queria reconhecer e se dirigiu ao aparador.
      
      -Tia Coco -comeou C.C.-. O que  o colar Calhoun?
      
      -As esmeraldas -passou as taas-. H uma lenda familiar. J conhecem parte dela... como Bianca se apaixonou por outro homem e morreu de forma trgica. Suponho 
que chegou o momento de que lhes conte o resto.
      
      -guardaste um segredo? -Amanda sorriu ao jogar com sua taa-. Tia Coco, surpreende-me.
      
      -Queria esperar at o momento adequado. Parece que chegou -voltou a sentar-se com a taa entre as mos-. Segundo os rumores, o amante da Bianca era um artista, 
um de quo muitos naqueles dias vinha  ilha. reunia-se com ele quando Fergus se achava longe da casa, o qual acontecia freqentemente. O seu no era exatamente 
um matrimnio combinado, mas quase. Ela era muitos anos mais jovem que ele, e ao parecer muito formosa. Como Fergus destruiu todas as fotos da Bianca depois de que 
esta morrera, no h modo se soubesse com certeza.
      
      -por que? -quis saber Suzanna-. por que faria algo assim?
      
      -Possivelmente por dor -Coco se encolheu de ombros.
      
      -O mais provvel  que fora por ira -interveio Lilah.
      
      -Seja como for -Coco calou para beber um sorvo-, destruiu todos os avisos dela, e as esmeraldas se perderam. Tinha-lhe agradvel a Bianca o colar quando deu 
a luz ao Ethan, seu filho maior -olhou ao Trent-. Meu pai. No era mais que um menino  morte de sua me, de modo que este jamais teve muito claros os acontecimentos. 
Mas sua bab, que tinha permanecido intensamente leal a Bianca, contou-lhe histrias sobre ela. E essas sim que as recordou. A Bianca no interessava o colar, mas 
o luzia freqentemente.
      
      -Como uma espcie de castigo -afirmou Lilah-. E talism -sorriu a sua tia-. OH, faz anos que sei da existncia do colar. Vi-o... tal como C.C. viu-o esta noite 
-levou-se a taa aos lbios-. Tem uns pendentes a jogo. Lgrimas de esmeraldas, como a pedra no centro da fileira inferior.
      
      -Lhe est inventando isso -acusou Amanda, e Lilah simplesmente moveu os ombros.
      
      -No -sorriu ao C.C.-. Me estou inventando isso?
      
      -No -incmoda, C. C. olhou a sua tia-. O que significa tudo isto?
      
      -No estou segura, mas acredito que o colar ainda  importante para a Bianca. Jamais o voltou a ver sua morte. Alguns acreditam que Fergus o jogou no mar.
      
      -Impossvel -disse Lilah-. O velho no teria atirado nem um centavo ao mar, muito menos um colar de esmeraldas.
      
      -Bom... -a Coco no gostava de falar mal de seu antepassado, mas se viu obrigada a estar de acordo-. Em realidade, no teria sido tpico dele. O av contava 
os centavos.
      
      -Para que Silas Marner parecesse um filantropo -comentou Amanda-. Bom, o que aconteceu o colar?
      
      -Esse, querida,  o mistrio. A bab de meu pai lhe contou que Bianca ia deixar ao Fergus; que tinha guardado uma caixa, o que a bab chamou a caixa do tesouro. 
Bianca tinha tirado s escondidas tudo o que era valioso para ela.
      
      -Mas terminou morta -murmurou C.C.
      
      -Sim. A lenda conta que a caixa, com seu tesouro, encontra-se escondida na casa.
      
      -Em nossa casa? -Suzanna olhou boquiaberta a sua tia-. De verdade crie que h alguma espcie de cofre do tesouro que esteve escondido em alguma parte... quantos... 
oitenta anos, e que ningum o encontrou?
      
      - uma casa muito grande -assinalou Coco-. Por isso sabemos, poderia hav-lo enterrado entre as rosas.
      
      -Se  que alguma vez existiu -murmurou Amanda.
      
      -Existiu -Lilah assentiu em direo ao C.C.-. E acredito que Bianca decidiu que j  hora de encontr-lo.
      
      Quando todas comearam a falar com unssono, contribuindo com argumentos e sugestes, Trent levantou uma mo.
      
      -Senhoras, senhoras -repetiu, esperando que se acalmassem-. Compreendo que  um assunto familiar, mas j que me convidou a participar deste... experimento, 
sinto-me obrigado a acrescentar uma nota de calma. Freqentemente as lendas se exageram e expandem com o tempo. Se existiu um colar, no seria mais factvel que 
Fergus o vendesse  morte de sua esposa?
      
      -No teria podido vend-lo se no tivesse podido encontr-lo -assinalou Lilah.
      
      -Alguma de vocs crie de verdade que seu bisav enterrou um tesouro no jardim ou o ocultou detrs de uma pedra solta? -uma olhada ao redor da mesa lhe indicou 
que era isso precisamente o que pensavam. Moveu a cabea-. Essa espcie de conto de fadas  mais apropriada para o Alex e Jenny que para mulheres adultas -estendeu 
as mos-. Em primeiro lugar, nem sequer sabem com certeza que existisse um colar.
      
      -Mas eu o vi -afirmou C. C., embora fez que se sentisse tola.
      
      -Imaginou -corrigiu ele-. Pensa-o. Faz uns minutos, quatro adultos racionais se sentavam ao redor desta mesa com as mos unidas para convocar a fantasmas. 
De acordo, em uma estranha espcie de jogo de salo, mas que algum chegue a acreditar de verdade nas mensagens do outro mundo... -no momento no pensava acrescentar 
que tambm ele havia sentido algo.
      
      -Tem atrativo em um homem cnico de mente pragmtica -Lilah se levantou para abrir uma das gavetas do aparador e tirar um bloco de papel e um lpis. depois 
de ajoelhar-se junto  cadeira do C.C., comeou a desenhar-. Respeito sua opinio, Trent, mas o fato no  que o colar existiu... mas sim estou segura de que ainda 
existe.
      
      -Pelos contos para dormir de uma bab?
      
      -No, pela Bianca -sorriu-lhe e aproximou o bloco de papel ao C.C.-. Isto  o que viu esta noite?
      
      Lilah sempre tinha sido uma artista inteligente. C.C. contemplou o esboo do colar de duas fileiras engastadas com esmeraldas de corte quadrado, adornadas 
com brilhantes. Na ltima fileira pendurava uma gema grande com forma de lgrima.
      
      -Sim -passou a gema de um dedo por cima do papel-. Sim, -o.
      
      Trent estudou o desenho. Se realmente existia essa pea, e o esboo do Lilah se aproximava de seu verdadeiro tamanho, sem dvida valeria uma fortuna.
      
      -Santo cu -murmurou Coco quando lhe aconteceram o caderno-. Santo Cu.
      
      -Acredito que Trent tem razo -Amanda estudou o colar antes de entregar-lhe a Suzanna-. No podemos derrubar a casa pedra por pedra, embora o desejssemos. 
Apesar de qualquer experincia paranormal que tenhamos podido ter, o primitivo  certificamos... certificamos sem lugar a dvidas -acrescentou quando Lilah suspirou-, 
de que o colar  uma realidade. Inclusive faz oitenta anos algo assim devia custar uma incrvel quantidade de dinheiro. Tem que existir algum registro. Se as famosas 
vibraes do Lilah se equivocam e se vendeu outra vez, tambm teria que existir um registro desse transao.
      
      - uma desmancha-prazeres -queixou-se Lilah-. Suponho que isso significa que dedicaremos no domingo a repassar uma montanha de papis.
      
      
      
      C.C. nem sequer tratou de dormir. abrigou-se com sua bata de flanela e, com a casa rangendo sob seus ps, dirigiu-se  habitao do Trent. Desde o quarto da 
Amanda lhe chegou o murmrio da ltima edio das notcias. Desde o do Lilah o som leve de citasse. No lhe ocorreu sentir-se incmoda ou titubear. Simplesmente 
bateu na porta e aguardou a que ele respondesse.
      
      Quando abriu com a camisa aberta e os olhos um pouco dormitados, ela experimentou os primeiros nervos.
      
      -C.C.?
      
      -Preciso falar contigo -olhou para a cama, logo apartou a vista-. Posso passar?
      
      -Possivelmente seria melhor esperar at a manh -perguntou-se como podia manter a equanimidade quando at uma bata de flanela lhe resultava ertica.
      
      -No estou segura de poder.
      
      -De acordo -o n em seu estmago se apertou-. Claro -quanto antes se explicasse com ela, melhor. Isso esperava. Deixou-a acontecer e fechou a porta-. Quer 
te sentar?
      
      -Tenho muita energia nervosa -cruzou os braos e foi at a janela-. deixou que nevar. Me alegro. Sei que Suzanna estava preocupada com algumas de suas flores. 
A primavera  muito imprevisvel na ilha -ao voltar-se-se mes o cabelo-. Falo de naderas e isso dio -acalmou-se respirando fundo-. Trent, preciso saber o que 
pensa sobre o ocorrido esta noite. De verdade.
      
      -Sobre esta noite? -repetiu com cautela.
      
      -A sesso esprita -passou-se as mos pela cara-. Deus, sinto-me como uma imbecil inclusive ao diz-lo, mas aconteceu algo -alargou as mos inquietas,  espera 
de que ele tomasse-. Sou muito realista, muito literal. Lilah  quem acredita nessas coisas. Mas agora... Trent, preciso sab-lo. Sentiu algo voc?
      
      -No sei a que te refere. Certamente em vrias ocasies me senti tolo.
      
      -Por favor -deu-lhe um puxo impaciente-. Sei sincero comigo.  importante.
      
      -De acordo, C.C. -depois de tudo, no era isso o que se prometeu que faria?-. me diga o que sentiu voc.
      
      -O ar se tomou muito frio. Logo foi como se algo... algum... estivesse de p detrs de ns. Detrs e entre ns dois. No me assustou. Surpreendeu-me, mas 
sem temor. Estvamos com as mos juntas, como agora. E ento...
      
      Esperava que ele o dissesse, reconhecesse-o. Esses enormes olhos verdes o exigiam. Quando Trent falou, fez-o com grande relutncia.
      
      -Foi como se algum apoiasse uma mo sobre as nossas.
      
      -Sim -com os olhos fechados, aproximou a mo dele aos lbios-. Sim, exato.
      
      -Uma alucinao compartilhada -comeou, mas ela o cortou com uma gargalhada.
      
      -No quero ouvir isso. Nada de explicaes racionais -levou-se a mo do Trent  bochecha-. No sou uma pessoa fantasiosa, mas sei que significou algo, algo 
importante. Sei.
      
      -O colar?
      
      -S uma parte disso... e no essa. O resto... o colar, a lenda, j o decifraremos cedo ou tarde. Acredito que teremos que faz-lo porque est escrito. Mas 
isto... isto foi como uma bno.
      
      -C.C.
      
      -Amo-te -com os olhos escuros e brilhantes, tocou-lhe a bochecha-. Amo-te e nada em minha vida pareceu jamais to correto.
      
      ficou sem fala. Uma parte dele quis retroceder, sorrir com amabilidade e lhe dizer que se estava deixando levar no momento. O amor no surgia em uma questo 
de dias. Se alguma vez chegava a passar, o qual era estranho, demorava anos.
      
      Outra parte, enterrada no mais fundo de seu ser, quis abra-la para que o momento no terminasse nunca.
      
      -Catherine...
      
      Mas ela j se acomodou em seus braos, que pareciam esper-la. Como se no tivesse controle sobre eles, envolveram-na. O calor dela o penetrou como uma droga.
      
      -Acredito que soube a primeira vez que me beijou -apoiou a bochecha na dele-. No o queria, no o pedi, mas jamais tinha sido assim para mim. Acredito que 
nunca o tinha esperado. A estava, de forma to sbita e completa entrou em minha vida. me beije outra vez, Trent. me beije agora.
      
      No pde fazer outra coisa. Seus lbios j ardiam por senti-la. Quando se encontraram, esse fogo s pde avivar-se. Ela era lquido em seus braos e enviava 
lnguas de fogo por seu organismo. Quando Trent no conseguiu evitar que sua demanda aumentasse, C.C. no titubeou, mas sim se pegou a seu corpo, lhe oferecendo 
tudo.
      
      Deslizou as mos sob a camisa dele, encantada de sentir o tremor veloz e involuntrio que lhe provocou. Os msculos do Trent se esticaram sob seus dedos com 
o tipo de fora que ela queria, necessitava.
      
      O vento suspirou alm da janela igual a ela suspirou em seus braos.
      
      Trent no tinha suficiente. Descobriu que queria devor-la enquanto lhe percorria a cara com os lbios, para passar ao pescoo e lhe mordiscar a pele delicada. 
O aroma a madressilva redemoinhou em sua cabea. Ela se arqueou e os gemidos roucos de prazer que emitiu martillearon em seu sangue.
      
      Tinha que toc-la. voltaria-se louco se no o para. E tambm se o para. Quando lhe separou a bata, gemeu ao dar-se conta de que estava nua para ele. Desesperado, 
encheu sua mo com ela.
      
      Nesse momento Catherine soube o que era que lhe fervesse o sangue. Virtualmente podia senti-la correr por suas veias, ardendo ali onde ele a tocava. Experimentava 
uma debilidade gloriosa, mesclada com uma espcie de fora manaca. Quis lhe dar ambas as coisas e encontrou o modo quando Trent a beijou com frenesi na boca.
      
      Ela tremeu inclusive ao responder. entregou-se enquanto se acendia. Quando a cabea lhe caiu para trs e cravou com fora os dedos nos ombros dele, Trent sentiu 
que por seu interior se movia algo que era mais que desejo e mais profundo que a paixo.
      
      Felicidade. Esperana. Amor. Ao reconhecer os sentimentos, a eles se somou o terror.
      
      Com a respirao entrecortada, separou-se dela.
      
      A bata tinha escorregado por um ombro, despindo-o. Tinha os olhos to brilhantes como as esmeraldas que tinha imaginado. Sonriendo, elevou uma mo tremente 
 bochecha dele.
      
      -Quer que fique esta noite?
      
      -Sim... no -mant-la a distncia era o mais difcil que tinha tido que fazer Jamais-. Catherine... -compreendeu que desejava que ficasse. No s essa noite, 
e no s por esse glorioso corpo. O fato de que o quisesse lhe dava mais importncia  necessidade de esclarecer coisas-. Eu no... no fui justo contigo, e isto 
se descontrolou com muita rapidez -lhe escapou um suspiro agitado-. Deus,  formosa. No -acrescentou com presteza ao v-la sorrir e dar um passo adiante-. Precisamos 
falar. Solo falar.
      
      -Acreditava que o tnhamos feito.
      
      Se seguia olhando o dessa maneira, terminaria por esquecer-se da justia. Ou de sua prpria sobrevivncia.
      
      -No me expliquei com claridade -comeou devagar-. Se tivesse sabido... se me tivesse dado conta do absolutamente inocente que , eu no haveria... bom, quero 
acreditar que teria sido mais cauteloso. Agora solo fica tratar de compensar minha precipitao.
      
      -No entendo.
      
      -No, esse  o problema -afastou-se, j que precisava estabelecer um pouco de distncia-. Pinjente que me sentia atrado por ti, muito atrado. E  bvio que 
 a verdade. Mas de hav-lo sabido jamais me teria aproveitado de ti.
      
      de repente ela sentiu frio e fechou a bata em torno de seu corpo.
      
      -Voc molesta que no tenha estado antes com um homem?
      
      -me incomodar, no -frustrado, voltou-se para ela-. No  essa a palavra. Custa-me encontrar uma. Sabe?, h regras -mas C.C. no deixava de olh-lo-. Catherine, 
uma mulher como voc espera... merece... mais do que eu posso dar.
      
      Ela baixou a vista s mos enquanto apertava o cinturo da bata.
      
      -E o que  isso?
      
      -Compromisso. Um futuro.
      
      -Matrimnio.
      
      -Sim.
      
      -Suponho que pensa que isto... o que eu hei dito...  parte dos planos da tia Coco.
      
      -No -se se tivesse atrevido, teria se aproximado dela-. Certamente que no.
      
      -Bom -trabalhou em excesso se por conseguir que seus dedos se relaxassem-.  algo... imagino.
      
      -Sei que seus sentimentos so sinceros, exagerados, talvez, mas sinceros. E tudo  por minha culpa. Se isto no tivesse passado com tanta rapidez, desde o 
comeo te teria explicado que no est em minha inteno me casar, jamais. No acredito que duas pessoas possam ser leais a uma  outra, muito menos felizes, durante 
uma vida inteira.
      
      -por que?
      
      -por que? -olhou-a fixamente-. Porque simplesmente no funciona. Vi a meu pai ir de matrimnio a divrcio e outra vez a matrimnio.  como observar uma partida 
de tnis. A ltima vez que soube algo de minha me, ia por seu terceiro matrimnio. Simplesmente, no  prtico fazer votos sabendo que os vais romper.
      
      -Prtico -repetiu com um gesto da cabea-. No te permite sentir nada por mim porque seria pouco prtico.
      
      -O problema  que sinto algo por ti.
      
      -No o suficiente -solo o suficiente para lhe romper o corao-. Bom, me alegro de que o tenhamos esclarecido -destroada, voltou-se para a porta-. boa noite.
      
      -C.C. -apoiou uma mo no ombro dela antes de que pudesse encontrar o pomo.
      
      -No te desculpe -rezou para que seu controle agentasse uns minutos mais-. No  necessrio. Explicaste-o tudo  perfeio.
      
      -Maldita seja, por que no me grita? me chame alguns nomes que sei que me mereo teria preferido isso  serena desolao que tinha visto em seus olhos.
      
      -te gritar? -obrigou-se a encar-lo-. Por ser justo e honesto? te insultar? Como posso te insultar, Trent, quando o sinto tanto por ti? -a mo dele caiu devagar. 
C.C. ergueu a cabea. Sob a dor, justo por debaixo de sua superfcie, havia orgulho-. Est deixando acontecer algo... no, no deixa passar -corrigiu-. Com educao 
devolve algo que nunca mais vais voltar a ter. O que expulsaste que sua vida, Trent, teria sido seu melhor parte -deixou-o ali com a incmoda sensao de que no 
se equivocava.
      
      
      Essa noite se celebrava uma festa. Pareceu-me que seria bom para mim que enchesse a casa com gente, luzes e flores. Sei que Fergus se sentia agradado de que 
tivesse fiscalizado todos os detalhes com tanta meticulosidade. Tinha-me perguntado se ele teria notado minha estado de distrao, ou o freqentemente que passeava 
pelos penhascos pelas tardes, ou as muitas horas que tinha comeado a passar na torre, sonhando. Mas no o parece.
      
      Tinham assistido os Greenbaum, e os McAllister e os Prentise. Estavam todos os que passam o vero na ilha e que Fergus considera que devamos ver. A sala de 
baile se achava rodeada de gardnias e rosas vermelhas. Fergus tinha contratado uma orquestra de Nova Iorque e a msica era vivaz e agradvel. Acredito que Sarah 
McAllister bebeu muito champanha, j que sua risada comeou a me crispar muito antes de que se servisse o jantar.
      
      Acredito que meu novo vestido dourado encaixava perfeitamente com a ocasio, porque recebeu muitos cumpridos. Entretanto, quando dancei com Ira Greenbaum, 
seus olhos se posaram nas esmeraldas. Penduravam como um grilho de meu pescoo.
      
      Que injusta sou! So formosas, e s minhas porque Ethan  meu.
      
      Durante a velada, subi  habitao dos meninos para comprovar como estavam, embora saiba quo carinhosa  a bab com todos eles. Ethan despertou e dormitado 
perguntou se lhe tinha levado um pouco de bolo.
      
      Todos meus pequenos parecem anjos enquanto dormem. Meu amor por eles  to rico, to profundo, que me pergunto por que meu corao no pode transferir nada 
desse doce sentimento ao homem que os fez nascer
      
      Possivelmente a culpa est em mim. Sem dvida deve ser assim. Ao beij-los e lhes dar as boa noite para voltar a sair ao corredor, com desespero desejei que 
em vez de ter que retornar ao salo para danar e rir, pudesse correr aos penhascos para me erguer ali com o vento em meu cabelo, rodeada em qualquer parte pelo 
som e os aromas do mar.
      
      Viria ento ele a mim, se eu atrevesse a algo assim?  Viria para erguemos ali juntos, nas sombras,  espera de algo que no devemos desejar, muito menos tomar?
      
      No fui aos penhascos. Meu dever  meu marido, e para ele me dirigi. Ao danar com ele meu corao se sentiu to frio como as jias que rodeiam meu pescoo. 
Entretanto, sorri quando elogiou minha habilidade como anfitri. A mo que rodeava minha cintura era distante mas ao mesmo tempo possessiva. Enquanto nos movamos 
com a msica, seus olhos estudavam o salo, aprovando o que era dele, esquadrinhando a seus convidados, convencido de que estavam impressionados.
      
      Quanto sei o que representa para o homem com o que me casei a fila e a opinio de outros. E o pouco que ao parecer chegaram a significar para mim.
      
      Queria lhe gritar. "Fergus, pelo amor de Deus, me olhe. me olhe e v. Faz que te ame, j que o medo e o respeito no podem ser suficientes para nenhum dos 
dois. Faz que te ame para que nunca mais gire meus passos para os penhascos e o que ali me aguarda".
      
      Mas no gritei. Quando com impacincia me disse que era necessrio que danasse com o Cecil Barkley, murmurei meu assentimento.
      
      Agora a msica terminou e os abajures esto apagados. Pergunto-me quando voltarei a ver o Christian. Pergunto-me o que ser de mim.
      
      7
      
      
      
      
      C.C. estava sentada com as pernas cruzadas no centro de um oceano de papis. Sua misso, sem importar que tivesse eleito aceit-la ou no, tinha sido repassar 
todas as notas, recibos e fragmentos de papel isolados que se guardaram em trs caixas de carto etiquetadas como miscelnea.
      
      Perto, Amanda se sentava a uma mesa dobradia, com vrias caixas mais aos ps. Com o cabelo recolhido e os culos para ler caindo pelo nariz, estudava com 
meticulosidade cada papel antes de depositrio sobre um dos diversos montes que tinha iniciado.
      
      -Teramos que ter feito isto faz dcadas -comentou.
      
      -Querer dizer que teramos que hav-lo queimado faz dcadas.
      
      -No -Amanda subiu os culos-. Algumas costure so fascinantes, e certamente merecem a pena ser conservadas. Colocar papis em caixas de carto no  minha 
idia de conservar a histria familiar.
      
      -Uma receita de gelia de arndanos se deve considerar como histria familiar?
      
      -Para a tia Coco sim. Isso se guarda na categoria de cozinha, subttulo menus.
      
      C.C. moveu-se e apartou uma nuvem de p.
      
      -E o que me diz de uma fatura para seis pares de luvas brancas infantis e um guarda-sol azul de seda?
      
      -Roupa, por data. Mmm, isto  interessante. O relatrio do progresso escolar da tia Coco feito por sua professora de quarto curso. Cito: "Cordelia  uma menina 
deliciosamente gregria. Entretanto, tende a sonhar acordada e lhe custa acabar os projetos que lhe atribuem".
      
      -V, no sabamos -rgida, C.C. arqueou as costas e girou a cabea. A seu lado, o sol penetrava atravs das manchas na janela do armazm. Com um suspiro, apoiou 
os cotovelos nos joelhos e o observou.
      
      -Onde diabos est Lilah? -impaciente como sempre, Amanda moveu o p enquanto grunhia-. Suzanna tem permisso porque se levou aos meninos ao cinema, mas se 
supe que Lilah tem que estar aqui.
      
      -Aparecer -murmurou C. C.
      
      -Claro. Quando tivermos terminado -Amanda se lanou a um novo monto e espirrou duas vezes.  o material mais sujo que jamais vi.
      
      -Tudo se suja se no se move -C.C. encolheu-se de ombros.
      
      -No, quero dizer sujos de verdade.  um verso picaresco escrito pelo tio av Sejam. "Em Maine havia uma jovem dama, cujos peitos enormes induziam a uma chamusca. 
Eram..." Esquece-o concluiu-. Abriremos uma pasta para intento de pornografia -quando C.C. guardou silncio, elevou a vista para ver sua irm com o olhar cravado 
ainda no raio de sol-. Encontra-te bem, carinho?
      
      -Mmm? OH, sim, estou bem.
      
      -No d a impresso de ter dormido muito bem.
      
      -Suponho que a sesso esprita me desconcertou -encolheu-se de ombros e voltou a centrar-se nos papis.
      
      -No me surpreende -franziu os lbios enquanto repassava mais recibos-. Eu nunca acreditei nessas coisas. Uma coisa era a torre da Bianca. Acredito que todas 
havemos sentido algo... bom, algo l encima. Mas sempre pensei que se devia ao feito de que sabamos que Bianca se arrojou da janela. Mas ontem  noite... -ao ter 
um calafrio, esfregou-se os braos-. Sei que voc viu algo, que experimentou algo.
      
      -Sei que o colar  real -disse C.C.
      
      -Convirei que foi real... quando tiver um recibo na mo.
      
      -Foi e . No acredito que o tivesse visto se tivesse estado empenhado ou se atirou ao mar. Pode parecer uma loucura, mas sei que Bianca quer que o encontremos.
      
      -Sonha como uma maluquice -com um 'suspiro, Amanda se recostou na cadeira desvencilhada-. E o que resulta mais louco  que eu tambm acredito. Espero que ningum 
no hotel se inteire de que dedico meu tempo livre a procurar um tesouro enterrado porque minha antepassada falecida faz muito tempo assim me h isso dito. OH!
      
      -Encontraste-o? -C.C. j tinha comeado a levantar-se.
      
      -No, no,  uma agenda antiga. Desde 1912. A tinta est um pouco descolorida, mas a caligrafia  preciosa... decididamente feminina. Deve ser da Bianca. Olhe.
      
      "Enviar convites". E aqui aparece a lista de convidados. V festa. Os Prentise Amanda se tirou os culos para mordiscar o extremo de uma costeleta-. Arrumado 
que so os donos do Prentise Hall... uma das manses que ardeu no quarenta e sete.
      
      C.C. ficou a ler por cima do ombro de sua irm.
      
      -"ltima prova do vestido para o baile. Vi o Christian s trs da tarde". Christian? -apoiou uma mo tensa no ombro da Amanda-. Poderia ser seu artista?
      
      -Sua conjetura  to boa como a minha -ficou outra vez os culos-. Mas olhe aqui. "Fiz reforar o fechamento das esmeraldas". Poderiam ser as que procuramos.
      
      -Tm que ser.
      
      -Seguimos sem encontrar nenhum recibo.
      
      -Que possibilidades temos? -C.C. olhou com expresso cansada os papis que lotavam a habitao.
      
      At a Amanda, com sua habilidade para a organizao, sentia-se intimidada.
      
      -Bom, melhoram cada vez que eliminamos uma caixa.
      
      -Mandy -C.C. sentou-se no cho a seu lado-. Nos esgota o tempo, verdade?
      
      -Apenas lhe dedicamos umas horas.
      
      -No refiro a isso -apoiou a bochecha na coxa de sua irm-. Sabe que no. Embora encontremos o recibo, ainda teremos que encontrar o colar. Poderia nos levar 
anos, e no os temos. Veremo-nos obrigadas a vender, verdade?
      
      -Falaremos disso manh de noite, na reunio familiar -afligida, acariciou o cabelo do C.C.-. por que no vais jogar te um pouco? Srio, tem aspecto de estar 
muito esgotada.
      
      -No -levantou-se e ficou a caminhar sem pisar nos papis-. Estarei melhor se mantiver as mos e a mente ocupadas. Do contrrio, poderia estrangular a algum.
      
      -Ao Trent, por exemplo?
      
      -Um excelente stio pelo que comear. No -suspirou e colocou as mos nos bolsos-. No, em realidade esta confuso no  culpa dela.
      
      -Seguimos falando da casa?
      
      -No sei -infeliz, voltou a sentar-se no cho. Ao menos podia dar as obrigado de ter esgotado todas suas lgrimas a noite anterior-. cheguei  concluso de 
que todos os homens so estpidos, egostas e absolutamente desnecessrios.
      
      -Est apaixonada por ele.
      
      -Bingo -sorriu com ironia-. E para responder seu seguinte pergunta, no me corresponde. No est interessado em mim, nem em um futuro nem em uma famlia, e 
lamenta muito no haver me esclarecido isso antes de que eu cometesse o engano de me apaixonar por ele.
      
      -Sinto muito, C.C. -depois de tir-las culos, Amanda se levantou para ir sentar se no cho junto a sua irm-. Sei o muito que deve doer, mas solo o conhece 
h uns dias. O embevecimento...
      
      -No  isso -converteu a receita da gelia em um avio de papel-. Tenho descoberto que apaixonar-se no tem nada que ver com o tempo. Pode requerer um ano 
ou um instante. Acontece quando  o momento de que acontea.
      
      Amanda lhe aconteceu um brao pelos ombros.
      
      -Bom, eu no sei nada sobre isso -para ouvir-se franziu o cenho, embora o gesto s durou um instante-. Mas sim sei que, se te tiver feito mal, faremos que 
lamente haver-se cruzado com uma Calhoun.
      
      C. C. no e lanou o avio de arndanos pelo ar.
      
      - tentador, mas acredito que se trata mais de uma questo de me haver machucado mesma moveu a cabea-. Vamos,  hora de voltar para trabalho.
      
      Acabavam de comear outra vez quando entrou Trent. Olhou ao C.C. e se encontrou com uma parede slida de gelo. Ao voltar-se para a Amanda, no foi muito melhor.
      
      -Pensava que no iria mal um pouco de ajuda -disse.
      
      Amanda olhou a sua irm e notou que C.C. empregava o tratamento do silncio, arma que considerava muito efetiva.
      
      - muito amvel, Trent -Amanda lhe dedicou um sorriso que teria congelado lava derretida-. Mas realmente se trata de um problema familiar.
      
      -Deixa que ajude -C.C. no se incomodou em elevar a vista-. Suponho que  um perito na papelada.
      
      -Muito bem, ento -Amanda se encolheu de ombros e indicou outra cadeira dobradia-. Estou organizando de acordo a contido e ano.
      
      -Perfeito -aproximou a cadeira e se sentou frente a ela. Trabalharam em um silncio glido-. Aqui est a fatura de um acerto -comentou, sem que fizessem conta-. 
O acerto de um fechamento.
      
      -me deixe ver -Amanda j o tinha arrebatado da mo antes de que C.C. cruzasse a estadia-. No pe de que tipo de colar -murmurou.
      
      -Mas as datas coincidem -apontou C. C.-. 16 de julho de 1912
      
      -Perdi-me algo? -perguntou-lhes Trent. Amanda aguardou um momento, viu que sua irm no ia responder e elevou a vista.
      
      -encontramos uma agenda da Bianca. Tinha um apontamento para recordar-se que tinha que levar a arrumar o fechamento das esmeraldas.
      
      -Pode que isto seja o que necessitam -tinha os olhos cravados no C.C., mas foi Amanda quem respondeu.
      
      -Possivelmente seja suficiente para nos convencer de que em 1912 o colar Calhoun existia, mas dista muito de nos ajudar a dar com ele -deixou o recibo a um 
lado-. Vejamos que mais encontramos.
      
      Em silncio, C.C. retornou aos papis.
      
      Uns momentos mais tarde, Lilah chamou do p da escada.
      
      -Amanda! Telefone!
      
      -Dava que mais tarde os chamo.
      
      - o hotel. Ho dito que era importante.
      
      -Maldio -deixou os culos antes de olh-lo com olhos entrecerrados-. Retornarei em uns minutos.
      
      - muito protetora -comentou Trent para ouvir afast-los passos rpidos.
      
      -Apoiamo-nos -comentou C.C. e deixou um papel sobre um monto sem ter nem idia de seu contedo.
      
      -Isso notei. Catherine...
      
      -Sim? -preparada para tudo, olhou-o com frieza.
      
      -Queria me assegurar que te encontrava bem.
      
      -De acordo. Em que sentido?
      
      C.C. tinha a bochecha manchada de p. Teve umas vontades enormes de lhe sorrir e indicar-lhe De ouvi-la rir enquanto o tirava.
      
      -depois do acontecido ontem  noite... sei o irritada que estava ao partir de minha habitao.
      
      -Sim, estava irritada -girou outro papel-. Suponho que montei uma cena.
      
      -No, no referia a isso.
      
      -Eu sim -obrigou-se a sorrir-. Suponho que esta vez me toca oferecer uma desculpa. Tudo o que aconteceu a sesso me subiu  cabea -"a mim corao", disse-se-. 
Devi parecer e soar como uma idiota ao ir a sua habitao.
      
      -No, certamente que no -"est muito indiferente", pensou. Desconcertava-o v-la to serena-. Disse que me amava.
      
      -Sei o que pinjente -sua voz descendeu outros dez graus, mas o sorriso no se moveu-. por que no o atribumos ao estado de nimo do momento?
      
      Ele compreendeu que resultava razovel. Mas no soube por que se sentia to perdido.
      
      -Ento, no falava a srio?
      
      -Trent, apenas nos conhecemos h uns dias -perguntou-se se queria faz-la sofrer.
      
      -Mas parecia to... devastada quando foi.
      
      -Pareo-lhe isso agora? -arqueou uma sobrancelha.
      
      -No -respondeu devagar-. No o parece.
      
      -Bom, pois esqueamos o assunto -ao falar, o sol se perdeu detrs de umas nuvens-. Isso seria o melhor para os dois, no?
      
      -Sim -era o que tinha querido. Entretanto, sentiu-se vazio ao incorporar-se-. Quero o melhor para ti, C.C.
      
      -Perfeito -estudou o papel que tinha na mo-. Se baixas, lhe pea ao Lilah que traga um pouco de caf quando subir.
      
      -De acordo.
      
      Ela esperou at ter a certeza de que se tinha ido cobrir o rosto com as mos. Descobriu que se equivocou. No tinha esgotado todas as lgrimas.
      
      
      
      Trent retornou a sua habitao. Ali tinha a maleta, cheio de trabalho que tinha querido terminar durante sua ausncia do escritrio. sentou-se ante a mesa 
e abriu uma pasta.
      
      Dez minutos mais tarde, olhava pela janela sem ter lido a primeira palavra do relatrio.
      
      Moveu a cabea, recolheu a pluma e se ordenou concentrar-se. Conseguiu ler a primeira palavra, inclusive o primeiro pargrafo. Trs vezes. Aborrecido, deixou 
a pluma e se levantou para caminhar.
      
      " ridculo", pensou. Tinha trabalhado em sutes de hotis de todo o mundo. por que ia ser distinta essa habitao? Tinha paredes e janelas, um teto... por 
diz-lo de algum jeito. A mesa era mais que apropriada. E silo queria, inclusive podia acender um fogo para acrescentar um pouco de alegria. E calor. Deus sabia 
que no iria mal um pouco de calor depois dos glidos trinta minutos que tinha passado no armazm. No havia motivo para que no pudesse sentar-se e ocupar-se de 
alguns negcios durante uma ou duas horas.
      
      Salvo que no deixava de recordar... quo formosa tinha estado C.C. ao aparecer em sua habitao com a bata de flanela cinza e descala. Ainda podia ver o 
brilho que tinha emanado de seus olhos e de seu sorriso. Franziu o cenho e se esfregou o peito. No estava acostumado a essa dor. Sim aos dores de cabea. Jamais 
do corao.
      
      Mas o acossava a lembrana do modo em que se introduziu em seus braos. E seu sabor... perguntou-se por que quase podia senti-lo ainda nos lbios.
      
      " a culpabilidade, nada mais", assegurou-se. Tinha-a ferido como sabia que nunca feriria outra mulher. Sem importar quo indiferente tivesse estado antes, 
era uma culpa com a que ia ter que viver durante muito tempo.
      
      Talvez deveria subir para falar outra vez com ela. deteve-se justo quando tinha a mo no trinco. Isso solo pioraria as coisas, se era possvel. O fato de que 
ele desejasse aliviar um pouco de culpa no era desculpa para voltar a p-la em uma situao incmoda.
      
      No cabia dvida de que C.C. agentava tudo melhor que ele. Era forte, resistente. Orgulhosa. Suave. Notou que sua mente comeava a divagar. Clida. Incrivelmente 
formosa.
      
      Amaldioou e outra vez ficou a andar. o melhor que podia fazer era concentrar-se na casa e no em seus ocupantes. Possivelmente os poucos dias que levava ali 
lhe tivessem causado uma comoo pessoal, mas lhe tinham dado a oportunidade de formular planos. De dentro. Tinham-lhe brindado um sabor da atmosfera e a histria. 
Se podia serenar uns momentos, conseguiria plasmar esses pensamentos em papel.
      
      Mas foi intil. Assim que seus dedos aferraram a pluma, a mente ficou em branco. disse-se que se sentia encerrado. Necessitava um pouco de ar. Recolheu sua 
jaqueta e fez algo para o que no se concedeu tempo nos ltimos meses.
      
      Deu um passeio.
      
      Seguindo seu instinto, dirigiu-se para os penhascos. Desceu pela grama irregular e rodeou uma cambaleante parede de pedra. Em direo ao mar. O ar estava fresco. 
Dava a impresso de que a primavera tinha decidido empreender a retirada. O cu mostrava uma tonalidade cinza tormentosa, embora havia alguns fragmentos isolados 
de cor azul. Umas valorosas flores silvestres se agitavam ao vento.
      
      Caminhou com as mos nos bolsos e a cabea encurvada. A depresso no era uma sensao familiar, e estava decidido a elimin-la com um bom exerccio. Ao olhar 
atrs, pde ver as cpulas das torres a suas costas. Girou outra vez por volta do mar, imitando sem sab-lo-a postura de um homem que trs dcadas antes tinha pintado 
ali.
      
      "Grandioso", foi a nica palavra que lhe ocorreu. As rochas descendiam quase em picado, rosadas e cinzas ali onde o vento as sacudia, negras onde a gua as 
golpeava. A gua escura estava coroada por umas cristas brancas. Havia bruma e o ar continha a ameaa fresca da chuva.
      
      Teria que ter sido uma viso sombria. Mas simplesmente era espetacular.
      
      Desejou que C.C. estivesse a seu lado, antes de que passasse o tempo ou o vento trocasse. "Sorriria", pensou. Se tivesse estado ali, a beleza da paisagem no 
o faria sentir to sozinho. To condenadamente sozinho.
      
      O formigamento que experimentou na nuca o impulsionou a d-la volta, e a ponto esteve de alargar os braos. Tinha estado convencido de que a veria caminhar 
para ele. No viu nada mais que o pendente pedregoso. Entretanto, permanecia a sensao de outra presena, muito real.
      
      " um homem sensato", assegurou-se. Sabia que se encontrava sozinho. Mas era como se algum estivesse a seu lado,  espera, observando. Por um momento, teve 
a certeza de que percebia uma leve fragrncia a madressilva.
      
      " a imaginao", decidiu, embora sua mo no se mostrou muito firme quando a levantou para apartar o cabelo dos olhos.
      
      Ento captou um pranto. ficou quieto ao escutar o som triste e sereno de um soluo justo por debaixo do rudo do vento. Subia e baixava, como o mesmo mar. 
Algo lhe atendeu o estmago quando se trabalhou em excesso por escutar... embora o sentido comum lhe dizia que no havia nada que ouvir.
      
      perguntou-se se sofreria uma crise nervosa. "Mas o som  real, maldita seja. No uma alucinao". Devagar, com todos os sentidos em alerta, desceu por entre 
um grupo de rochas.
      
      -Quem anda a? -gritou enquanto o som se convertia em um suspiro que desaparecia no vento. Perseguiu-o e acelerou o descida, impulsionado por uma urgncia 
que o martilleaba o sangue. Uma chuva de pedras soltas se desprendeu ao espao, devolvendo-o de repente  realidade.
      
      perguntou-se que diabos estava fazendo. Descer por um penhasco em detrs de um fantasma? Elevou as mos e viu que a pesar do vento as Palmas suavam. Quo nico 
podia ouvir nesse momento era o batimento do corao frentico de seu prprio corao. depois de obrigar-se a ficar quieto e respirar fundo para acalmar-se, olhou 
ao redor.
      
      Acabava de reemprender a volta quando ouviu outra vez o som. Pranto. "No", disse-se. Um gemido. Soava claro e quase sob seus ps. ficou em cuclillas e procurou 
detrs de um saliente rochoso. encontrou-se com uma viso desoladora. O pequeno cachorrinho negro logo que era algo mais que uma bola de ossos coberta de cabelo. 
Invadiu-o o alvio e riu em voz alta. depois de tudo, no havia se tornado louco. Enquanto ele o estudava, o cachorrito apavorado tratou de retroceder, mas no tinha 
aonde ir. Tremente, seus pequenos e assustados olhos se cravaram no Trent.
      
      -viveste tempos duros, n? -com cautela, alargou a mo, preparado para retir-la se o cachorrinho lhe lanava uma dentada. Mas o bichinho se encolheu e gemeu-. 
No passa nada, amigo. te relaxe. No te farei mal -acariciou-o com suavidade entre as orelhas. Sem deixar de tremer, o cachorrinho lhe lambeu a mo-. Suponho que 
se sente bastante sozinho -suspirou enquanto o acalmava-. Eu tambm. por que no voltamos para a casa? -elevou-o e o colocou sob a jaqueta para a ascenso.
      
      Quando tinha percorrido a metade do trajeto, deteve-se. Havia como mnimo uns cinqenta metros entre o stio do que tinha contemplado o mar e o ponto onde 
tinha encontrado ao cachorrinho. Lhe umedeceram outra vez as Palmas das mos ao compreender que teria sido impossvel ouvir os gemidos do cachorrinho do penhasco 
de acima. A distncia e o vento teriam absorvido as choramingaes. Entretanto, tinha ouvido... algo. E isso o tinha impulsionado a baixar para encontrar ao animal 
perdido.
      
      -Que diabos foi? -murmurou, pegando ao co a seu peito enquanto punha rumo  casa.
      
      Ao cruzar a grama comeou a sentir-se tolo. O que se supunha que ia contar lhe a suas anfitris? "Olhem o que me seguiu? O que lhes parece...? Sabem uma coisa? 
Decidi arriscar minha vida ao descer pelo penhasco... olhem o que encontrei". Nenhum dos dois comeos parecia adequado. O sensato seria meter-se no carro e levar 
a co  cidade. Sem dvida ali encontraria a um veterinrio ou um refgio para animais. Mas descobriu que no podia entregar essa bola tremente de pele a uns desconhecidos. 
O pequeajo confiava nele e inclusive j se havia acurrucado sob seu corao. Enquanto refletia sobre o melhor curso de ao, C.C. saiu da casa.
      
      Trent trocou de postura e tentou parecer natural.
      
      -Ol.
      
      -Ol -ela se deteve para grampe-la jaqueta vaqueira-. Ficamo-nos sem leite. Necessita algo da cidade?
      
      "Uma lata de comida para ces", pensou, e pigarreou.
      
      -No, obrigado. Eu, n... -o cachorrinho se retorceu contra sua camisa-. encontrastes algo?
      
      -Um monto de coisas, mas nada que nos indicasse onde procurar o colar -sua infelicidade se transformou em curiosidade ao observar as ondas que se formavam 
debaixo da jaqueta do Trent-. Vai tudo bem?
      
      -Sim. Certamente -pigarreou e cruzou os braos-. fui dar um passeio.
      
      -Perfeito -"que incmodo", pensou ela. Ele era incapaz de olh-la aos olhos-. Se tiver fome, a tia Coco est preparando um almoo ligeiro.
      
      -OH... obrigado.
      
      ia passar ao lado dele quando um latido agudo a fez frear em seco.
      
      -O que?
      
      -Nada -afogou uma risita involuntria quando o cachorrinho se moveu contra suas costelas.
      
      -Est bem?
      
      -Sim, sim, estou-o -sorriu-lhe com acanhamento quando o co apareceu o focinho por cima da cremalheira da jaqueta.
      
      -O que tem a? -C.C. esqueceu o juramento de manter a distncia e se aproximou para baixar a cremalheira-. OH! Trent,  um cachorrinho.
      
      -Encontrei-o entre as rochas -comeou com celeridade-. No estava muito seguro do que tinha...
      
      -OH, pobrecito -levou-se a cachorrinho a seu peito-. Est perdido? -esfregou a bochecha contra a pelagem do animal-. Vamos, vamos, j aconteceu tudo -o perrito 
meneou o rabo com tanta velocidade que a ponto esteve de escorrer-se.
      
      - precioso, verdade? -sonriendo, Trent se aproximou para acarici-lo-. Parece que leva sozinho um tempo.
      
      - um cachorrito -embalou-o-. Onde h dito que o encontrou?
      
      -Entre as rochas. Dava um passeio -"e pensava em ti". antes de poder deter-se, alargou a mo para lhe tocar o cabelo-. No fui capaz de deix-lo ali.
      
      -Claro que no -elevou a vista e viu que virtualmente estava nos braos dele. Olhava-a fixamente e lhe acariciava o cabelo.
      
      -Catherine...
      
      O cachorrinho voltou a ladrar e despertou.
      
      -Levarei-o dentro. Deve ter fria e fome.
      
      -De acordo -o nico stio que ficava livre para colocar as mos era os bolsos-. por que no vou eu  cidade a comprar o leite?
      
      -Vale -sorriu com expresso tensa ao retroceder para os degraus. Deu a volta e, lhe murmurando ao cachorrito, entrou na casa.
      
      Quando Trent retornou, o animal dispunha de um lugar de honra junto  chamin da cozinha e da ateno absoluta de quatro mulheres formosas.
      
      -Esperem a que Suze e os meninos voltem para casa -dizia Amanda-. adoraro. Tia Coco, por isso vejo gosta de seu pat de fgado.
      
      - evidente que se trata de um gastrnomo entre ces -Lilah, apoiada sobre mos e joelhos, aproximou o nariz ao focinho do animal-. Verdade que sim, precioso?
      
      -Acredito que deveria comer algo mais suave -Coco tambm se achava no cho, cativada-. Com o cuidado adequado, ser muito bonito.
      
      O cachorrinho, surpreso por sua boa sorte, correu em crculos. Ao ver o Trent, foi para ele, tropeando com suas prprias patas. As mulheres se levantaram 
e lhe fizeram perguntas ao unssono.
      
      -Um momento -deixou a bolsa da compra sobre a mesa e logo se agachou para acariciar a barriga do cachorrinho-. No sei de onde vem. Encontrei-o quando dava 
um passeio pelos penhascos. Estava escondido. Verdade, amigo?
      
      -Suponho que deveramos perguntar por aqui, para ver se algum o perdeu -comeou Coco, logo elevou uma mo quando suas sobrinhas manifestaram unnime desacordo-. 
 o justo. Mas depende do Trent, j que  ele quem o encontrou.
      
      -Acredito que deveriam fazer o que lhes parecesse melhor -levantou-se para tirar o leite da bolsa-. Sem dvida gostaria de um pouco.
      
      Amanda j tinha tirado um prato e discutia com o Lilah sobre a quantidade adequada para o novo convidado.
      
      -Que mais trouxeste? -C.C. assinalou a bolsa.
      
      -Umas poucas coisas -encolheu-se de ombros e se rendeu-. Pensei que teria que levar um colar -tirou um colar vermelho com rebites chapeados.
      
      -Muito na moda -C.C. no pde conter o sorriso.
      
      -E uma correia -tambm a depositou na mesa-. Comida para cachorrinho.
      
      -Mmm -C.C. ficou a revisar a bolsa-. E um manjar: um osso.
      
      -Querer mordiscar algo -informou ele.
      
      -claro que sim. Uma bola e um camundongo de borracha -rendo, apertou o brinquedo.
      
      -Deveria ter algo com o que jogar -no quis acrescentar que tinha procurado uma casa e uma almofada para ces, mas sem poder encontr-los.
      
      -No sabia que fosse um brando.
      
      -Eu tampouco -baixou a vista ao cachorrinho saltitante e feliz.
      
      -Como se chama? -quis saber Lilah.
      
      -Bom, eu...
      
      -Voc o encontrou, assim ser voc quem o batize.
      
      -Date pressa -aconselhou Amanda-. antes de que Lilah o escravize com algo como Griswold.
      
      -Fred -disse impulsivamente-. me parece um Fred.
      
      Absolutamente impressionado pelo nome recebido, Fred se tornou com uma orelha no prato com leite e ficou a dormir.
      
      -Bom, arrumado -Amanda acariciou ao cachorrinho uma ltima vez antes de ficar de p-. Vamos, Lilah,  seu turno.
      
      -Lhes darei uma mo -com o instinto a flor de pele, Coco se levou a suas duas sobrinhas fora da habitao para deix-los a ss.
      
      -Ser melhor que eu tambm v -C.C. dirigiu-se para a porta.
      
      -Espera -Trent a deteve com uma mo no brao.
      
      -Para que?
      
      -Para... espera.
      
      -Espero -ficou ali, contendo a dor.
      
      -Eu... como tem a mo?
      
      -Bem.
      
      -Estupendo -sentia-se como um idiota-.  estupendo.
      
      -Se isso for tudo...
      
      -No. Queria te dizer... notei um estalo continuado no carro ao ir  cidade.
      
      -Um estalo continuado? -franziu os lbios-. Que classe de estalo continuado?
      
      "Um imaginrio", pensou Trent, mas se encolheu de ombros.
      
      -Simplesmente um estalo continuado. Esperava que pudesse lhe jogar uma olhada.
      
      -De acordo. Leva-o amanh  oficina.
      
      -Amanh?
      
      -Tenho as ferramentas ali. Queria algo mais?
      
      -Ao passear, no deixei de desejar que estivesse a meu lado.
      
      C.C. apartou a vista at que teve a certeza de que tinha reconstrudo a brecha em sua muralha defensiva.
      
      -Queremos coisas diferentes, Trent. Deixemo-lo assim -voltou-se para a porta-. Trata de me levar o carro cedo -acrescentou sem d-la volta-. Amanh tenho que 
trocar um escapamento.
      
      8
      
      
      
      
      C.C. acendeu o maarico, baixou-se o amparo facial e se preparou a cortar o escapamento oxidado de um Plymouth do 62.
      
      O dia no ia bem.
      
      No era capaz de tirar-se da cabea a reunio familiar. No tinha aparecido nenhum outro papel sobre o colar, apesar de que tinham repassado montes e montes 
de recibos e velhos cadernos de contas. Sabia, devido  negativa da Amanda a falar, que as notcias no eram boas.
      
      A isso se somava outra noite inquieta. Tinha ouvido os gemidos do Fred e baixado para ver como se encontrava, solo para escutar os murmrios baixos do Trent 
ao acalmar ao cachorrito detrs da porta de seu dormitrio.
      
      ficou-se ali muito momento.
      
      O fato de que se levou a animal a seu quarto, de que lhe importasse o suficiente para tranqiliz-lo e aliment-lo, fazia que C.C. amasse-o mais. E quanto 
mais o amava, mais lhe doa.
      
      Sabia que essa manh tinha olheiras, pois tinha cometido o engano de olhar-se no espelho. Isso podia toler-lo. Seu aspecto jamais tinha sido uma preocupao 
importante. Mas as faturas que encontrou no correio sim lhe preocuparam.
      
      Tinha contado a verdade quando disse a Suzanna que a oficina partia bem. Entretanto, ainda tinha pontos delicados. No todos os clientes pagavam no ato, e 
o dinheiro em efetivo de que dispunha muitas vezes era reduzido. "Seis meses", disse-se enquanto cortava o velho metal. Solo necessitava seis meses. Mas isso era 
muito para as ajudar a reter As Torres.
      
      Sua vida trocava a grande velocidade e no parecia que fora a melhor.
      
      Trent ficou olhando-a. Tinha um carro grande no elevador e se achava debaixo dele, com um maarico na mo. Enquanto observava, ela se apartou no instante em 
que um escapamento caa estrepitosamente ao cho. Outra vez tinha um peitilho posto, luvas grossas e um casco de segurana. A msica que nunca parecia abandon-la 
saa da rdio que havia no banco de trabalho.
      
      Sem dvida um homem tinha perdido um parafuso quando pensava em quo magnfico seria fazer o amor em um cho de cimento com uma mulher que ia vestida como 
uma soldadora.
      
      C.C. trocou de postura e o viu. Com supremo cuidado apagou o maarico antes de subir o amparo do casco.
      
      -No pude encontrar nada em seu carro. Tem as chaves no escritrio. No te cobro nada -voltou a baixar o amparo facial.
      
      -C.C.
      
      -O que?
      
      Olhou com cautela para cima e se situou junto a ela debaixo do carro.
      
      -Eu gostaria de jantar contigo esta noite.
      
      -Levo jantando contigo todas as noites h vrios dias -baixou o protetor. Trent o levantou de novo.
      
      -No, referia-me a que eu gostaria de sair para jantar fora.
      
      -por que?
      
      -por que no?
      
      -Bom -arqueou uma sobrancelha-,  muito amvel, mas esta noite no posso. Temos uma reunio familiar -preparou-se para reacender o maarico.
      
      -Amanh, ento -irritado, subiu-lhe outra vez o casco-. Importa-te? Eu gosto de verte quando falo contigo.
      
      -Sim, importa-me porque tenho trabalho. E no, no jantarei contigo manh.
      
      -por que?
      
      -Porque no quero -soltou um suspiro que lhe agitou o cabelo.
      
      -Segue zangada comigo.
      
      -J esclarecemos isso, de modo que no tem sentido que tenhamos em uma entrevista.
      
      -Ser sozinho um jantar -insistiu ao descobrir que lhe resultava impossvel deix-lo-. Ningum h dito que fora uma entrevista. Uma simples comida, como amigos, 
antes de que v a Boston.
      
      -Parte-te? -sentiu que o corao lhe dava um tombo e girou para procurar entre algumas ferramentas.
      
      -Sim, tenho reunies programadas para meados de semana. Me espera em meu escritrio na quarta-feira pela tarde.
      
      "Assim de singelo", pensou ela ao recolher uma chave inglesa e voltar a solt-la. "Tenho reunies programadas, j nos veremos. Lamento te haver quebrado o 
corao".
      
      -Bom, que tenha uma boa viagem, ento.
      
      -C.C. -apoiou uma mo em seu brao antes de que pudesse voltar a ocultar-se atrs do casco-. Eu gostaria de passar um momento contigo. Sentiria-me muito melhor 
por tudo se soubesse que nos separvamos em bons trminos.
      
      -Quer te sentir melhor por tudo -murmurou ela, e logo se obrigou a relaxar a mandbula-. Claro, por que no? Amanh s nove. Merece-te uma boa despedida.
      
      -Agradeo-lhe isso. De verdade -tocou-lhe a bochecha, foi inclinar se, mas C.C. baixou o amparo com um som seco.
      
      -Ser melhor que te separe do maarico, Trent -indicou com voz doce-. Poderia te queimar.
      
      
      
      Para os Calhoun, as reunies familiares eram tradicionalmente ruidosas, apaixonadas e estavam cheias de lgrimas e risadas. Essa mostrava uma quietude anormal. 
Amanda, em sua qualidade de conselheira de finanas, sentava-se  cabeceira da mesa.
      
      Na habitao reinava o silncio.
      
      Suzanna j tinha metido aos meninos na cama. Tinha resultado algo mais fcil do habitual, j que os dois se esgotaram com o Fred... e viceversa.
      
      Justo depois do jantar, Trent se tinha desculpado com discrio. "Como se importasse", pensou C.C. O no ia demorar para conhecer o resultado.
      
      Temia que todo mundo j o conhecesse.
      
      -Acredito que todas sabemos o que fazemos aqui -comeou Amanda-. Trent retorna a Boston na quarta-feira, e seria melhor para todos se lhe comunicssemos nossa 
deciso sobre a casa antes de que partisse.
      
      -Seria melhor se nos concentrssemos em encontrar o colar -a expresso obstinada do Lilah se viu descompensada pela forma nervosa com que dava voltas aos cristais 
de obsidiana que tinha ao redor do pescoo.
      
      -Todas seguimos procurando os papis -Suzanna apoiou uma mo no brao do Lilah-. Mas acredito que temos que nos enfrentar  realidade de que encontrar o colar 
poderia tomar muito tempo. Mais de que dispomos.
      
      -Trinta dias  tudo o que dispomos -todos os olhos se voltaram para a Amanda-.
      
      A semana passada recebi uma notificao do advogado.
      
      -A semana passada! -exclamou Coco-. Stridley ficou em contato contigo e nem sequer o mencionou?
      
      -Esperava poder conseguir uma prorrogao sem preocupar a ningum -apoiou a mo sobre a pasta que depositou na mesa-. No foi possvel. estivemos pagando os 
impostos atrasados, mas a dura realidade  que no progredimos muito. Nos vai chegar o pagamento do seguro. Podemos cobri-lo, e a hipoteca... no momento. As faturas 
de servios pelo inverno foram mais altas do acostumado, e a nova caldeira e a reparao do teto se comeram grande parte de nosso pressuposto.
      
      -Quo grave  a situao? -C.C. levantou uma mo.
      
      -Pior impossvel -Amanda se esfregou a tmpora com a esperana de desterrar a dor que comeava a sentir-. Poderamos vender algumas peas mais e manter a cabea 
por cima da gua. Justo. Mas dentro de um par de meses devemos pagar impostos outra vez, e voltaremos para stio de partida.
      
      -Posso vender minhas prolas -comeou Coco, mas Lilah a cortou.
      
      -No. Sob nenhum conceito. Faz tempo acordamos que havia algumas costure que no se podiam vender. Se tivermos que nos enfrentar aos fatos -acrescentou com 
tom lgubre-, faamo-lo j.
      
      -Os encanamentos esto rotas -continuou Amanda, e teve que pigarrear para eliminar o n que lhe atendeu a garganta-. Se no trocarmos o cableado eltrico, 
poderamos terminar rodeadas de cinzas. A minuta dos advogados da Suzanna...
      
      -Esse  meu problema -interrompeu Suzanna.
      
      -Esse  nosso problema -corrigiu Amanda, e recebeu uma nota unnime de aceitao-. Somos famlia -prosseguiu-. Juntas passamos pelo pior, e o arrumamos. Faz 
seis ou sete anos, dava a impresso de que tudo ia bem. Mas... os impostos subiram, junto com o seguro, as reparaes, tudo. No somos indigentes, mas a casa nos 
come cada centavo livre, e algo mais. Se pensasse que podamos capearlo, agentar um ou dois anos mais, estaria a favor de vender a Limoges ou algumas antiguidades. 
Mas  como tratar de tampar um buraco em um dique e ver como surgem outros novos enquanto seus dedos escorregam.
      
      -O que quer dizer, Mandy? -perguntou C.C.
      
      -Que a nica eleio realista que vejo  vender a casa -Amanda apertou os lbios-. Com a oferta do St. James, podemos pagar as dvidas, conservar quase tudo 
o que tem importncia para ns e comprar outra. Se no vendermos, de todos os modos dentro de uns meses nos vo tirar isso -uma lgrima caiu por sua bochecha-. Sinto 
muito. -me impossvel encontrar outra sada.
      
      -No  tua culpa -Suzanna tomou a mo-. Todas sabamos que ia acontecer.
      
      -O amparo que tnhamos -Amanda moveu a cabea-, perdemo-la no colapso dos mercados financeiros. No fomos capazes de nos recuperar. Sei que fui eu quem realizou 
os investimentos...
      
      -Ns as realizamos -Lilah inclinou o torso para tomar tambm a mo-. Com a recomendao de um importante agente de bolsa. Se o cho no nos tivesse aberto, 
se nos houvesse meio doido a loteria, se Bax no tivesse sido um canalha ambicioso, talvez agora as coisas fossem diferentes. Mas no o so.
      
      -Seguiremos estando juntas -Coco acrescentou sua mo-. Isso  o que importa.
      
      -Isso  o que importa -conveio C.C. e ps sua mo em cima de todas. Mas como, embora solo fora isso, estava bem-. O que fazemos agora?
      
      Lutando por manter-se serena, Amanda se recostou na cadeira.
      
      -Suponho que lhe pedir ao Trent que baixe para nos assegurar de que sua oferta segue vigente.
      
      -Irei busc-lo -C.C. separou-se da mesa para sair aturdida da habitao.
      
      No podia acredit-lo. Inclusive ao atravessar todos os quartos, sair ao vestbulo, subir pela escada com a mo apoiada no corrimo, no podia acredit-lo. 
Nada disso seria seu durante muito mais tempo.
      
      dentro de pouco no poderia sair de sua habitao a terrao de pedra para contemplar o mar. No poderia subir at a torre da Bianca e encontrar ao Lilah acurrucada 
no mirante, sonhando atravs do cristal poeirento. Ou a Suzanna trabalhar no jardim com os meninos correndo pela grama prxima. Amanda no baixaria a toda velocidade 
a escada para ir a alguma parte ou em busca de algo. A tia Coco no voltaria a estar com suas receitas na cozinha.
      
      Em questo de momentos, a vida que tinha conhecido se terminaria. A nova ainda tinha que chegar. encontrava-se em alguma parte de um purgatrio, muito aturdida 
pela perda para sentir dor.
      
      Trent se achava sentado junto ao fogo onde Fred roncava sobre a almofada vermelha em sua nova casita. deu-se conta de que ia sentir falta de  fantasia de 
diabo. Embora tivesse tempo ou vontades para ter um mascote em Boston, no tinha corao para levar-se ao Fred longe dos meninos... ou das mulheres.
      
      Aquela tarde tinha visto o C.C. chegar do trabalho e lhe atirar a bola ao cachorrinho no ptio. Tinha sido muito agradvel ouvi-la rir, v-la lutar com o co 
e os filhos da Suzanna.
      
      Extraamente, recordava-lhe a imagem que tinha tido... "sonho", corrigiu-se. O sonho que tinha tido quando sua mente ficou a vagar a noite em que celebraram 
a sesso esprita. Estavam C.C. e ele sentados em um alpendre ensolarado, observando a uns meninos jogar no ptio.
      
      Era uma tolice, certamente, mas aquela tarde em que permaneceu na porta vendo-a atirar a bola ao Fred, algo lhe tinha atendido o corao. Recordou que tinha 
sido uma sensao positiva, at que ela se deu a volta e o viu. A risada morreu em seus lbios e seus olhos adotaram uma expresso fria.
      
      ergueu-se e estudou as chamas no fogo. Era uma loucura, mas tudo nele desejava que C.C. reacendesse se, uma ltima vez, que lhe lanasse um murro, que o insultasse. 
A pior classe de castigo era sua correo constante e sem paixo.
      
      A chamada  porta fez que Fred emitisse um latido apagado em seu sonho. Quando Trent encontrou ao C. C. do outro lado da soleira, sentiu um aguijonazo de prazer 
e angstia. Nessa ocasio no ia ser capaz de recha-la. No poderia lhe dizer, nem convencer-se a si mesmo, de que no era possvel. Tinha que... Ento a olhou 
aos olhos.
      
      -O que passou? -alargou a mo para consol-la, mas ela se apartou com rigidez.
      
      -Ns gostaramos que baixasse, se no te importar.
      
      -Catherine... -mas ela tinha comeado a afastar-se com passo vivo para estabelecer cada vez mais distncia. Encontrou-as a todas reunidas ao redor da mesa 
do comilo, com os rostos serenos. Era o bastante inteligente para compreender que se enfrentava a uma nica vontade combinada. As Calhoun tinham fechado filas-. 
Senhoras?
      
      -Trent, sinta-se, por favor -Coco indicou a cadeira que tinha a seu lado-. Espero que no o tenhamos importunado.
      
      -Absolutamente -olhou ao C.C., mas ela tinha a vista cravada na parede por cima de sua cabea. vamos celebrar outra sesso esprita?
      
      -Esta vez no -Lilah assentiu em direo a Amanda-. Mandy?
      
      -De acordo -respirou fundo e sentiu alvio quando a mo da Suzanna apertou a sua por debaixo da mesa-. Trent, tratamos a oferta que nos tem feito por Las Torres, 
e decidimos aceit-la.
      
      -Aceit-la? -olhou-a sem compreender.
      
      -Sim -Amanda se levou a mo livre ao estmago-. Sempre e quando,  obvio, dita oferta siga em p.
      
      -Sim, certamente -olhou a habitao e posou a vista no C.C.-. Esto seguras de que querem vender?
      
      -No era isso o que queria? -a voz do C.C. soou seca-. No veio por isso?
      
      -Sim -mas tinha recebido muito mais que o que fala esperada-. Minha empresa estar encantada de comprar a propriedade. Mas... Quero estar seguro de que todas 
esto de acordo. Que  o que desejam. Todas.
      
      -Todas o aceitamos -C.C. voltou a cravar a vista na parede.
      
      -Os advogados arrumaro os detalhes -comeou outra vez Amanda-. Mas antes de que lhes remetamos a negociao, eu gostaria de repassar os trminos.
      
      - obvio -Trent repetiu o preo de compra; ouvi-lo fez que os olhos do C.C. ardessem com lgrimas contidas-. No h motivo para que no possamos ser flexveis 
com o tempo -continuou-. Compreendo que vocs gostariam de realizar um inventrio antes de... lhes transladar -recordou-se que era o que elas queriam. Era um negcio. 
No teria que faz-lo sentir como se fora um inseto-. Se houver algo que possa fazer para lhes ajudar...
      
      -J tem feito suficiente -interrompeu C.C. com frieza-. Podemos cuidar de ns.
      
      -Eu gostaria de acrescentar uma condio -Lilah se adiantou-. Est comprando a casa, e a propriedade. No seu contedo.
      
      -No.  natural que os mveis, as pertences familiares e as posses pessoais permaneam com vocs.
      
      -Includo o colar -inclinou a cabea-. J se encontre antes de que nos partamos, ou depois, o colar Calhoun  dos Calhoun. Quero-o por escrito, Trent. Se em 
algum momento durante a restaurao da casa se recupera o colar, pertence-nos .
      
      -De acordo -a clusula ia voltar loucos aos advogados, mas esse era seu problema-. Ocuparei-me de que se inclua no contrato.
      
      -A torre da Bianca -falou devagar, temerosa de que lhe quebrasse a voz-. Tomem cuidado com o que fazem com ela.
      
      -O que lhes parece se bebermos um pouco de vinho? -Coco se levantou agitando as mos-. Deveramos beber vinho.
      
      -me perdoem -C.C. ficou de p lentamente, controlando o impulso de sair correndo-. Se tivermos terminado, acredito que subirei. Estou cansada.
      
      Trent quis ir atrs dela, mas Suzanna o deteve.
      
      -No acredito que seja receptiva neste momento. Irei eu.
      
      C.C. dirigiu-se a terrao para apoiar-se sobre a parede e deixar que o vento frio lhe secasse as lgrimas. "Deveria vir uma tormenta", pensou. Desejou que 
houvesse uma tormenta, um pouco to furioso e apaixonado como seu prprio corao.
      
      Golpeou a parede com um punho e amaldioou o dia em que conheceu o Trent. No queria levar-se seu amor, mas sim seu lar. Claro estava que, se tivesse aceito 
o primeiro, correspondendo-o, jamais teria podido lev-lo segundo.
      
      -C.C. -Suzanna apareceu para lhe passar um brao pelos ombros-. Faz frio. por que no vamos dentro?
      
      -No  justo.
      
      -No -aproximou-se mais a sua irm-. No o .
      
      -Ele nem sequer sabe o que a casa significa para ns -secou-se as lgrimas furiosa-. No pode entend-lo. Nem quereria faz-lo.
      
      - possvel.  possvel que ningum possa entend-lo, salvo ns. Mas no  sua culpa, C.C. No podemos culp-lo porque no sejamos capazes de agentar aqui 
-apartou a vista dos jardins que amava e a cravou nos penhascos que sempre a atraam-. J me parti daqui uma vez... parece que foi faz sculos, mas solo foi faz 
sete anos. Quase oito -suspirou-. Pensei que deixar a ilha para ir a meu novo lar em Boston era o dia mais feliz de minha vida.
      
      -No tem por que falar disso. Sei que te di.
      
      -No tanto como doeu no passado. Estava apaixonada, C.C., era uma noiva com o futuro na palma de suas mos. E quando me dava a volta para ver como As Torres 
desapareciam a minhas costas, chorei corno um beb Pensei que esta vez seria mais fcil -fechou os olhos ante a ameaa das lgrimas-. Oxal o fora. O que tem este 
lugar que nos atrai tanto? -perguntou-se.
      
      -Sei que podemos encontrar outra casa -C.C. tomou a mo de sua irm-. Sei que estaremos bem, que inclusive seremos felizes. Mas di. E tem razo, no  culpa 
do Trent. Mas...
      
      -Ter que culpar a algum -Suzanna sorriu.
      
      -Fez-me mal. dio reconhec-lo, mas me fez mal. Quero ser capaz de dizer que me insistiu me apaixonar por ele. Inclusive que deixou que me apaixonasse por 
ele. Mas fui eu sozinha.
      
      -E Trent?
      
      -No est interessado.
      
      -Pela forma em que lhe olhe, diria que te equivoca.
      
      -OH, est interessado -comentou C.C. com tom sombrio-. Mas nisso no tem nada que ver o amor. Com educao se negou a aproveitar-se de mi... minha falta de 
experincia, tal como a chamou.
      
      -OH -Suzanna voltou a olhar em direo aos penhascos-. Sabia que o rechao era a faca mais afiada-. No  de muita ajuda, mas poderia ter sido mais difcil 
para ti se ele no tivesse sido... sensato.
      
      - sensato, muito bem -reconheceu com os dentes apertados-. E ao ser um homem sensato e civilizado, gostaria que fssemos amigos. Inclusive vai levar me a 
jantar amanh para assegurar-se de que no morro por ele e assim poder retornar a Boston livre de culpa.
      
      -O que vais fazer?
      
      -OH, sairei para jantar. Posso ser to condenadamente civilizada como ele -adiantou o queixo-. E quando terminar, vai lamentar ter posto os olhos no Catherine 
Calhoun -girou para sua irm-. Tem ainda o vestido vermelho de lentejoulas com um decote de pecado?
      
      -Pode apost-lo -o sorriso da Suzanna se fez mais ampla.
      
      -vamos ver como fica.
      
      
      
      "V, v, v", pensou C.C. Maravilhou-a a diferena que podiam marcar um dia e um vestido ajustado de seda. Com os lbios franzidos, girou diante do espelho 
gretado que havia em um rinco de seu dormitrio. O vestido era um pingo muito pequeno para ela... inclusive com os rpidos retoques que lhe tinha feito Suzanna.
      
      Parecia manifestar: voc adoraria me ter.
      
      C.C. passou-se as mos pelos quadris. E ele poderia desej-lo at que lhe estalasse a cabea.
      
      O vestido era um apertado resplendor de fogo cujas lnguas descendiam de um decote de vertigem at um baixo abreviado. Suzanna o tinha recortado para que lhe 
chegasse na metade das coxas. As mangas largas terminavam em ponta sobre as bonecas. E C.C. tinha acrescentado os pendentes de diamantes falsos de Coco com seu perverso 
cintilao.
      
      Os trinta minutos que tinha dedicado a maquiar-se pareciam ter dado seus frutos. Graas  contribuio da Amanda, tinha os lbios to vermelhos como o vestido. 
E  contribuio do Lilah, nos olhos luzia uma sombra de cor cobre e esmeralda. Levava o cabelo to reluzente como a asa de um corvo, jogado para trs nas tmporas.
      
      Ao voltar-se, pensou que ao Trenton St. James III esperava uma surpresa.
      
      -Suzanna disse que necessitava uns sapatos -Lilah entrou e se freou com um bocejo pela metade. Observou fixamente a sua irm com os sapatos lhe pendurando 
dos dedos-. Sem dvida entrei em um universo paralelo.
      
      -O que te parece? -C.C. sorriu e deu uma volta.
      
      -Que Trent vai necessitar oxignio -com expresso de aprovao, passou-lhe uns sapatos de pele de serpente com saltos de agulha-. Pequena, parece perigosa.
      
      -Bem -calou -.Agora solo me falta poder caminhar com estes sapatos sem cair de bruces.
      
      -Prtica. vou procurar ao Mandy.
      
      Uns momentos depois, as trs irms fiscalizavam o andar do C.C.
      
      -Vai jantar -indicou Amanda, fazendo uma careta com cada ameaa de tropeo-. De modo que permanecer sentada a maior parte do tempo.
      
      -Comeo a melhorar -murmurou C.C.-. O que passa  que no estou acostumada aos saltos. Como trabalham todo o dia com estas coisas?
      
      -Talento.
      
      -Caminha mais devagar -sugeriu Lilah-. De forma despreocupada. Como se dispusera de todo o tempo do mundo.
      
      -lhe faa caso -conveio Amanda-.  uma perita em lentido.
      
      -Neste caso... -Lilah a olhou com desaprovao-... a lentido  sexy. V?
      
      Seguindo o conselho de sua irm, C.C. caminhou com uma intencionalidade cautelosa cujo resultado foi de provocao. Amanda estendeu as mos.
      
      -Desculpo-me. Que casaco vais levar?
      
      -No o pensei.
      
      -Pode te pr minha capa negra de seda -decidiu Amanda-. Gelar-te, mas te sentar de maravilha. Perfume. A tia Coco tem aquele perfume francs delicioso que 
lhe damos de presente em Natal.
      
      -No -Suzanna moveu a cabea-. Deveria seguir com seu perfume habitual -inclinou a cabea para estudar a sua irm e sorrir-. O contraste o enlouquecer.
      
      Alheio ao que o esperava, Trent estava sentado no salo com Coco. J tinha feito as malas. Lhe teria gostado de encontrar uma desculpa razovel para ficar 
uns poucos dias mais.
      
      -desfrutamos muito com sua presena -disse-lhe Coco quando ele expressou agradecimento pela hospitalidade recebida-. Estou segura de que logo voltaremos a 
nos ver -recordou-se que sua bola de cristal no mentia. Seguia vinculando ao Trent com uma de suas sobrinhas, por isso ainda no estava disposta a render-se.
      
      -Certamente  o que espero. Tenho que lhe dizer, Coco, o muito que a admiro por ter educado a quatro mulheres to adorveis.
      
      -s vezes acredito que nos educamos mutuamente -sorriu ao jogar uma olhada  estadia. vou sentir falta deste lugar. Para ser sincera, no acreditei que me 
importasse at que... bom, at agora. Eu no cresci aqui como o fizeram as garotas. Viajvamos o bastante, e meu pai s retornava de vez em quando. Sempre pensei 
que isso se deveu a que sua me tivesse morrido aqui. Logo passei minha vida de casada e os primeiros anos de viuvez na Filadelfia. Depois, quando Judson e Deliah 
faleceram, vim aqui pelas garotas -sorriu-lhe com expresso triste e de desculpa-. Lamento me haver posto sentimental com voc, Trenton.
      
      -No se desculpe -bebeu pensativo o aperitivo-. Minha famlia jamais teve uma relao estreita, e por isso nunca houve um lar como este em minha vida. Parece-me 
que  por isso que comecei a compreender o que poderia significar.
      
      -Deveria estabelecer-se -comentou com o que considerou astcia-. Encontre uma boa garota, funde um lar e uma famlia prprios. No me ocorre nada mais solitrio 
que no ter a ningum ao chegar a casa.
      
      Desejando evitar esse curso de pensamento, agachou-se para jogar uma bola ao Fred. Os dois observaram ao co ir em detrs dela, tropear e cair com as patas 
estendidas.
      
      -No  muito grcil -murmurou Trent.
      
      levantou-se para ir recolher a bola. Enquanto lhe acariciava o lombo ao animal, olhou por cima do ombro. O primeiro que viu foi um par de sapatos negros muito 
estilizados. Lentamente elevou a vista por umas pernas largas e formosas. Com flego contido, ficou em cuclillas. Viu um resplendor vermelho sobre uma esplndida 
forma feminina.
      
      -perdeste algo? -perguntou C.C. quando os olhos dele se cravaram em sua cara.
      
      Sorriram-lhe uns lbios vermelhos e brilhantes. Trent se passou a lngua pelos dentes para assegurar-se de que no a tinha tragado. incorporou-se com pernas 
inseguras.
      
      -C.C?
      
      -amos jantar juntos, verdade?
      
      -Ns... sim. Est magnfica.
      
      -Voc gosta? -deu uma volta para deix-lo ver que o decote das costas era mais pronunciada que o do peito-. Acredito que o vermelho  uma cor alegre -"e poderoso", 
pensou sem deixar de sorrir.
      
      -Sinta-te bem. Nunca antes te tinha visto com um vestido.
      
              -So pouco prticos quando se trata de trocar bombas de gasolina. Est preparado para ir ? 
      
      -Ir aonde?
      
      -Para jantar -no havia dvida de que ia passar se o em grande.
      
      -Certo. Sim.
      
      Ela inclinou a cabea tal como lhe tinha ensinado Suzanna e lhe entregou a capa. Era algo que ele tinha feita centenas de vezes com outras mulheres. Mas lhe 
tremeram as mos.
      
      -No nos espere, tia Coco.
      
      -No, querida -sorriu a suas costas e levantou os punhos ao ar.
      
      Assim que se fechou a porta, as trs irms se felicitaram.
      
      9
      
      
      
      
      -Me alegro de que me tenha convencido de sair esta noite -C.C. alargou a mo antes de recordar que tinha que deixar que Trent lhe abrisse a porta do carro.
      
      -No estava seguro de que ainda desejasse sair -fechou a mo sobre a dela.
      
      -Pela casa? -com a mxima indiferena que pde mostrar, liberou a mo e se sentou no carro-. J parece. Preferiria no falar disso esta noite.
      
      -De acordo -fechou e rodeou o veculo pela parte dianteira-. Amanda recomendou o restaurante -tinha as mos nas chaves mas continuou olhando-a.
      
      -Acontece algo?
      
      -No -"a menos que conte que o sistema nervoso no te funcione". depois de arrancar, voltou a tent-lo-. Pensei que possivelmente voc gostaria de jantar perto 
da gua.
      
      -Parece-me bem -tinha a rdio posta em uma emissora de msica clssica. recostou-se e se disps a desfrutar de do trajeto-. tornaste a ouvir o estalo continuado?
      
      -Que estalo continuado?
      
      -que ontem me pediu que arrumasse.
      
      -OH, esse estalo continuado -sorriu-. No. Deveu ser minha imaginao -ao ver que ela cruzava as pernas, apertou os dedos sobre o volante-. Nunca me contaste 
por que decidiu te fazer mecnica.
      
      -Porque me d bem -moveu-se no assento para olh-lo. Trent esteve a ponto de gemer ao captar uma fragrncia de madressilva-. Quando tinha seis anos, desmontei 
o motor de nosso cortador de grama, para ver como funcionava. Fiquei enganchada. por que te colocou voc na hotelaria?
      
      -Porque era o que se esperava de mim -calou, surpreso de que essa tivesse sido a primeira resposta que lhe tivesse passado pela cabea-. E suponho que me d 
bem.
      
      -Voc gosta?
      
      perguntou-se se algum lhe tinha feito essa pergunta alguma vez. Nem sequer sabia se ele mesmo a tinha feito.
      
      -Sim, suponho que sim.
      
      -Supe-o? -arqueou as sobrancelhas-. Acreditava que estava seguro de tudo.
      
      -Ao parecer no -voltou a olh-la e esteve a ponto de sair-se da estrada.
      
      Quando chegaram ao restaurante situado no mole, j se tinha acostumado  transformao. Ou isso pensava. Rodeou o carro para lhe abrir a porta. Ela baixou 
e se ergueu; seus olhos ficaram  mesma altura, logo que separados por um sussurro. C.C. manteve-se firme, perguntando-se se ele ouviria como lhe pulsava o corao.
      
      -Est seguro de que no passa nada?
      
      -No, no o estou -tinha a certeza de que ningum poderia resistir a essa mulher incrivelmente sexy. Deslizou uma mo por detrs da nuca do C.C.-. Permite 
que o comprove.
      
      Ela se apartou um instante antes de que os lbios dele roassem os seus.
      
      -No se trata de uma entrevista, recorda-o? Solo  um jantar amistoso.
      
      -Eu gostaria de trocar as regras.
      
      -Muito tarde -sorriu e lhe ofereceu uma mo-. Tenho fome.
      
      Trent no estava seguro de como trat-la. A seduo que sempre tinha dado por feita parecia oxidada. O entorno era perfeito com a mesa situada junto  janela 
e a gua rompendo no exterior. O sol tingia a baa enquanto ficava no oeste. Pediu vinho enquanto C.C. recolhia o menu e lhe sorria. Por debaixo da mesa se tirou 
os sapatos.
      
      -Nunca tinha estado aqui -disse-lhe ela-.  muito bonito.
      
      -No posso garantir que a comida seja to excepcional como a de sua tia.
      
      -Ningum cozinha como a tia Coco. Lamentar que v. adora cozinhar para um homem.
      
      -E voc?
      
      -Eu o que?
      
      -Lamentar que v?
      
      C.C. baixou a vista ao menu, tratando de concentrar-se nas eleies das que dispunha. A crua realidade era que no tinha nenhuma.
      
      -Como ainda est aqui, ter que descobri-lo. Suponho que dever te pr ao dia assim que chegue a Boston.
      
      -Sim. estive pensando que, assim que o faa, possivelmente tire frias. Umas de verdade. Bar Harbor poderia ser um bom lugar do destino.
      
      Ela elevou a vista e a desviou imediatamente. -Milhares de pessoas assim acreditam -murmurou, aliviada quando o garom serve o vinho.
      
      -Se pudesse ir a qualquer stio que voc gostasse, aonde iria?
      
      -Uma pergunta difcil, j que no estive em nenhuma parte -bebeu um sorvo e o vinho lhe pareceu seda fria sobre a lngua-. Acredito que alguma parte onde pudesse 
ver o sol ficar sobre a gua. Um lugar quente -encolheu-se de ombros-. Suponho que teria que haver dito Paris ou Londres.
      
      -No -apoiou uma mo sobre a dela-. Catherine...
      
      -Sabem j o que vo pedir?
      
      C.C. olhou ao garom que esperava a seu lado.
      
      -Sim -separou a mo da do Trent e escolheu de forma arbitrria no menu. Ao beber vinho, a cautela a impulsionou a manter a outra emano sobre o regao. Assim 
que voltaram a ficar sozinhos, falou-: Viu alguma vez uma baleia?
      
      -Eu... no.
      
      -Vir de vez em quando enquanto... enquanto faz restaurar As Torres. Deveria tomar um dia livre para sair em um dos navios. A ltima vez que eu pude ir, vi 
trs rorcuales. Embora ter que abrigar-se bem. Inclusive no vero faz frio assim que se sai ao Atlntico. Pode ser uma travessia complicada, mas vale a pena. At 
poderia pensar em oferecer algo assim em seu hotel. J sabe, preo de fim de semana com percorrido para ver as baleias includo. Muitos hotis...
      
      -Catherine -fez-a calar ao tomar a boneca antes de que pudesse voltar a elevar a taa de vinho. Pde sentir os batimentos do corao rpidos e irregulares. 
Mas nessa ocasio sabia que se devia a um corao quebrado, no  paixo-. Ainda no assinamos os papis -murmurou-. Ainda fica tempo para procurar outras opes.
      
      -No h outras opes -ao estudar seu rosto se deu conta de que lhe importava. Em seus olhos havia preocupao, desculpas. Saber que ao Trent importava de 
algum modo o piorava-. Vendemo-lhe a propriedade agora a ti ou ter que vender As. Torre logo para pagar os impostos. O resultado final  o mesmo, e h algo mais 
de dignidade fazendo o desta forma.
      
      -Eu poderia lhes ajudar com um emprstimo.
      
      -No podemos aceitar seu dinheiro.
      
      -Se lhes comprar a casa, estaro fazendo-o.
      
      -Isso  distinto. trata-se de um negcio. Trent -continuou antes de que ele pudesse discutir-, agradeo saber que o faria, em particular conhecendo que seu 
nico motivo para estar aqui  o de comprar As Torres.
      
      "-o", corroborou ele em silncio. Ou o tinha sido.
      
      -C.C., a questo  que sinto como se estivesse executando a hipoteca dessas vivas e rfos.
      
      Ela conseguiu sorrir.
      
      -Somos cinco mulheres adultas e independentes. No lhe culpamos... ou possivelmente eu sim, um pouco, mas ao menos sei que sou injusta quando o fao. Os sentimentos 
que me inspira no facilitam que seja justa.
      
      -Quais so seus sentimentos?
      
      Suspirou no momento em que o garom lhes servia os primeiros que tinham pedido e acendia a vela do centro da mesa.
      
      -J que te leva a casa, bem pode te levar tudo. Estou apaixonada por ti. Mas o superarei com a cabea um pouco inclinada, levantou o garfo-. H algo mais que 
queira saber?
      
      Quando tomou a mo outra vez, C.C. no a apartou; esperou.
      
      -Nunca quis te fazer danifico -comeou com cuidado. Sob a vista e comprovou quo bem encaixava a mo dela na sua.
      
      Era agradvel sentir os dedos do Catherine-. No sou capaz de oferecer, nem a ti nem a ningum, promessas de amor e fidelidade.
      
      - triste -moveu a cabea-. Ver, eu sozinho estou perdendo uma casa. Posso encontrar outra. Voc est perdendo o resto de sua vida, e s tem uma -obrigou-se 
a sorrir ao separar a mo-. A menos, certamente, que assine a idia do Lilah de que vamos uma e outra vez a este mundo.  um vinho rico -comentou-. Qual escolheste?
      
      -Um Pouilly Fumei.
      
      -Deverei record-lo -ficou a falar alegremente enquanto comia sem desfrutar de nenhum bocado. Quando lhes serviram o caf, sentia-se tensa como um mole. Soube 
que preferiria desmontar um motor sem ferramentas que repetir uma velada como aquela.
      
      Am-lo desesperadamente e ter que ser o bastante forte e orgulhosa para fingir que era capaz de viver sem ele. Estar sentada, guardando cada gesto, cada palavra 
dele enquanto fingia uma indiferena que nunca poderia sentir.
      
      Quis lhe gritar, amaldio-lo por lanar suas emoes a uma voragem frentica para logo afastar-se da tormenta. Entretanto, solo podia aferrar-se ao consolo 
frio do orgulho.
      
      -me fale de seu lar em Boston -convidou-o.
      
      Trent no era capaz de lhe tirar os olhos de cima. Via como os pendentes despediam fogo, a vela titilava soadoramente em seus olhos. Mas durante toda a velada 
tinha percebido como se ela tivesse bloqueado uma parte de si mesmo, a mais importante. E era possvel que nunca mais voltasse a ver a mulher completa.
      
      -Meu lar?
      
      -Sim, onde vive.
      
      - simplesmente uma casa -de repente lhe ocorreu que no significava nada para ele. No era mais que um excelente investimento-. Est a uns poucos minutos 
de meu escritrio.
      
      -Conveniente. Leva tempo vivendo ali?
      
      -Uns cinco anos. Em realidade, a comprei a meu pai quando se separou de sua terceira esposa. Decidiram liquidar algumas posses.
      
      -Compreendo. Sua me tambm vive em Boston?
      
      -No. Viaja. Estar ancorada em um s stio no vai com sua maneira de ser.
      
      -Parece como a tia av Colleen -C.C. sorriu por cima do bordo da taa-. A tia de meu pai, ou a filha maior da Bianca.
      
      -Bianca -murmurou ele, e pensou outra vez naquele momento em que havia sentido a calidez suave e tranqilizadora sobre sua mo unida a do C. C.
      
      -Vive em cruzeiros. de vez em quando recebemos uma postal desde algum porto. Aruba ou Madagascar. Tem oitenta e tantos anos, solteira por convico e  dura 
como um tubaro com ressaca. Todas tememos que possa decidir vir a nos visitar.
      
      -No pensei que tivesse mais parentes vivos alm de Coco e suas irms -juntou as sobrancelhas-. Pode que ela saiba algo sobre o colar.
      
      -A tia av Colleen? -pensou nisso e franziu os lbios-. Duvido-o. Era uma menina quando morreu Bianca e passou quase toda sua infncia em internados -sem pensar 
no que fazia, tirou-se os pendentes e se massageou os lbulos. O desejo se estendeu como um reguero de fogo pelas veias do Trent-. Em todo caso, se pudssemos encontr-la, 
o qual no  provvel, para lhe mencionar o assunto, apresentaria-se aqui em um abrir e fechar de olhos para atirar todas as paredes. No sente nenhum amor por Las 
Torres, mas sim muito pelo dinheiro.
      
      -No parece um familiar teu.
      
      -OH, temos algumas raridades no armrio familiar -depois de guardar os pendentes na bolsa, apoiou um cotovelo na mesa-. O tio av Sejam, o filho menor da Bianca, 
recebeu um tiro ao sair pela janela de seu amante casada. Deveria dizer de uma de seus amantes. Sobreviveu, e logo se foi s ndias Ocidentais, para que nunca mais 
se soubesse nada dele. Foi em algum momento da dcada dos trinta. Ethan, meu av, perdeu o grosso da fortuna familiar s cartas e os cavalos. O jogo era sua debilidade 
e o que o matou. Apostou que poderia navegar de Bar Harbor ao Newport e retornar em seis dias. Chegou at o Newport, e voltava com tempo de sobra quando se topou 
com uma tormenta e se perdeu no mar. O que significa que tambm perdeu sua ltima aposta.
      
      -Soam como dois espritos aventureiros.
      
      -Eram Calhoun -explicou C.C., como se isso o dissesse tudo.
      
      -Lamento que os St. James no tenham nada com o que comparar-se.
      
      -Ah, bom. Sempre me perguntei se Bianca teria descido da janela dessa torre se tivesse sabido como foram sair seus filhos -pensativa, olhou para onde as luzes 
jogavam sobre as guas escuras-. Deveu amar muito a seu artista.
      
      -Ou foi muito infeliz em seu matrimnio.
      
      -Sim, existe essa possibilidade -desviou a vista de novo  mesa-. Possivelmente deveramos ir. faz-se tarde -foi levantar se, mas recordou medir o cho ao 
redor da mesa.
      
      -O que acontece?
      
      -perdi meus sapatos -pensou que ali se ia a imagem sofisticada que queria dar.
      
      Trent se agachou para jogar uma olhada e recebeu o presente de umas pernas largas e esbeltas.
      
      -Ah... -pigarreou e baixou a vista ao cho-. Aqui esto -recolheu o par e se ergueu para lhe sorrir-. Estende o p. Te darei uma mo -observou-a enquanto deslizava 
os sapatos em seus ps e recordou que em uma ocasio tinha pensado que ela jamais toleraria ser Cinzenta. Subiu o dedo pela impigem e captou o brilho de desejo em 
seus olhos, desejo que, sem importar o que indicasse o sentido comum, desejava com intensidade-. mencionei que tem umas pernas incrveis?
      
      -No -tinha uma mo fechada ao flanco e lutou por concentrar-se nela em vez de nas sensaes que lhe provocava seu contato-.  agradvel que o tenha notado.
      
      -Custaria no faz-lo. So as nicas que conheci que esto sexys embainhadas em um peitilho.
      
      -Isso me recorda... -soslay o martilleo de seu corao e se inclinou para ele.
      
      Trent pensou que j podia beij-la. movendo uns centmetros poderia juntar a boca com a dela e p-la onde a queria ter.
      
      -O que?
      
      -No acredito que a seus amortecedores fiquem mais de uns milhares de quilmetros -com um sorriso, levantou-se-. Jogarei-lhes uma olhada quando chegar a casa 
-agradada, foi por diante dele.
      
      Ao sentar-se no carro, C.C. felicitou-se. Chegou  concluso de que tinha sido uma velada muito bem-sucedida. Talvez ele no se sentisse to desventurado como 
ela, mas estava convencida de que o tinha incomodado uma ou duas vezes. Ao dia seguinte retornaria a Boston... Olhou pelo guich at que teve a certeza de que podia 
lhe fazer frente  dor. partiria, mas no poderia esquec-la rpida ou facilmente. A ltima impresso que tivesse dela seria de uma mulher serena embainhada em um 
sexy vestido vermelho. Decidiu que era uma imagem muito melhor que a de uma mecnica com peitilho e graxa nas mos.
      
      E o que era mais importante, tinha-se que mostrado algo a si mesmo. Podia amar e podia renunciar a esse amor.
      
      Elevou a vista quando o carro comeou a subir por uma costa. Pde ver as cpulas em sombra das duas torres que atravessavam o cu noturno. Trent diminuiu a 
marcha enquanto tambm ele observava.
      
      -Est acesa a luz na torre da Bianca.
      
      - Lilah -murmurou C.C.-. Freqentemente sobe a ali -pensou em sua irm sentada junto  janela, com a vista cravada na noite-. No a derrubar, verdade?
      
      -No -compreendendo mais do que ela sabia, tomou a mo-. Prometo-te que no ser derrubada.
      
      A casa desapareceu em um giro do caminho, para logo abranger virtualmente todo o campo de viso. Enquanto a contemplavam ouviram o som do mar. As luzes acesas 
brilhavam contra o cinza apagado da pedra. Uma sombra esbelta se moveu por diante da janela da torre e ficou quieta um instante antes de desaparecer.
      
      -tornaram -disse Lilah pelo oco da escada.
      
      Quatro mulheres correram a aparecer pelas janelas.
      
      -No deveramos espi-los -murmurou Suzanna, mas apartou um pouco mais a cortina.
      
      -No o fazemos -Amanda forou a vista-. Solo comprovamos, isso  tudo. Vem algo?
      
      -Seguem no carro -queixou-se Coco-. Como se supe que vamos ver o que acontece permanecem sentados no carro?
      
      -Podemos usar a imaginao -Lilah se apartou o cabelo da cara-. Se esse homem no lhe suplicar que se v com ele a Boston, ento  que  um idiota de verdade.
      
      -A Boston? -alarmada, Suzanna a olhou-. No pensar que se vai a Boston, verdade?
      
      -iria a Ucrnia se ele tivesse o sentido comum de pedir-lhe comentou Amanda-. Olhem, j saem.
      
      -Possivelmente se abrssemos um pouco uma janela, poderamos ouvir...
      
      -Tia Coco, isso  ridculo -Lilah estalou a lngua.
      
      -Tem razo,  obvio -o rubor banhou as bochechas de Coco.
      
      -Claro que a tenho. Se o tentssemos, ouviriam o rangido da janela -com um sorriso, pegou a cara ao cristal-. Teremos que lhes ler os lbios.
      
      -foi agradvel -disse C.C. ao sair do carro-. Fazia tempo que no saa para jantar.
      
      -Jantou com o Finney.
      
      Olhou-o sem compreender, logo riu.
      
      -OH, Finney, claro -a brisa jogou com seu cabelo ao sorrir-. Tem uma memria estupenda.
      
      -Algumas costure parecem no apagar-se -por desgraa, o cimes que sentia no formavam parte de nenhuma lembrana-. Alguma vez te leva a comer fora?
      
      -Finney? No, vou a sua casa.
      
      Frustrado, meteu-se as mos nos bolsos.
      
      -Deveria te levar.
      
      Ela conteve uma gargalhada ante a imagem do velho Albert Finney escoltando-a a um restaurante.
      
      -O mencionarei -voltou-se para subir os degraus.
      
      -Catherine, no entre ainda -tomou as mos.
      
      Ante as janelas, quatro pares de olhos se entrecerraron.
      
      - tarde, Trent.
      
      -No sei se voltarei a verte antes de partir.
      
      C.C. requereu de todas suas foras para manter firme a vista.
      
      -Ento nos despediremos agora.
      
      -Preciso voltar a verte.
      
      -A oficina abre s oito e meia. Estarei ali.
      
      -Maldita seja, C.C., sabe a que me refiro -j tinha apoiado as mos nos ombros dela.
      
      -No, no sei.
      
      -Vem Boston -soltou, surpreendendo-se enquanto ela aguardava com calma.
      
      -por que?
      
      Deu um passo atrs com o fim de ganhar um momento para recuperar o controle.
      
      -Poderia te mostrar a cidade -perguntou-se que grau de idiotice poderia alcanar-. Disse que no tinha estado nunca ali. Poderamos... passar um tempo juntos.
      
      Ela tremeu sob a capa, mas falou com voz suave e acalmada.
      
      -Est-me pedindo que acompanhe a Boston para ter uma aventura contigo?
      
      -No. Sim. OH, Deus. Espera -voltou-se para afastar uns passos e respirar.
      
      dentro da casa, Lilah sorriu.
      
      -V, ao parecer est apaixonado por ela, embora seja muito estpido para sab-lo.
      
      -Sss! -Coco agitou uma mo-. Quase posso ouvir o que dizem -tinha o ouvido pego  base de um copo de gua que tinha apoiado na janela.
      
      Ao p dos degraus, Trent voltou a tent-lo.
      
      -Quando estou contigo, nada do que comeo termina como era minha inteno -girou. Ela seguia ali de p com a casa de fundo, e o vestido cintilava como fogo 
lquido na escurido-. Sei que no tenho direito a lhe pedir isso e no era minha inteno faz-lo. Pretendia me despedir de forma civilizada e te deixar partir.
      
      -E agora?
      
      -Agora quero fazer o amor contigo mais do que quero seguir respirando.
      
      -Fazer o amor -repetiu ela com voz firme-. Mas no me ama.
      
      -No sei nada do amor. Importa-me voc -retornou para posar uma mo na cara do Catherine. Possivelmente isso poderia ser suficiente.
      
      Ela o estudou, dando-se conta de que ele no tinha nem idia de que rompia um corao j destroado.
      
      -Poderia bastar, para um dia, uma semana ou um ms. Mas ten razo a respeito de mim, Trent. Espero mais. E mereo mais -sem deixar de olh-lo, apoiou as mos 
nos ombros dele-. Uma vez ofereci a ti. Isso no voltar a acontecer. E isto tampouco.
      
      Pegou a boca a dele, transmitindo nesse beijo todas suas emoes em carne viva. Abraou-o ao tempo que seu corpo projetava seduo. Com um suspiro, separou 
os lbios, convidando-o a tomar.
      
      Assombrado, necessitado, jogou-lhe a cabea atrs e a saqueou. Inseguro, deslizou as mos sob a capa para procurar com urgncia o calor da pele dela.
      
      Invadiram-no tantas sensaes. Ele sozinho queria encher-se com o sabor do C.C. Mas havia mais. Catherine no lhe permitiu tomar sozinho o beijo, mas sim incluiu 
toda a emoo que o acompanhava. Trent sentiu que o afogava, mas foi uma marejada to forte e embriagadora que no pde opor resistncia.
      
      "me ame! Porqu no pode me amar?". Sua mente pareceu grit-lo inclusive ao ver-se arrastada na mar de seus prprios desejos. Tudo o que queria estava ali, 
no interior do crculo de seus braos. Tudo menos o corao do Trent.
      
      -Catherine -no podia recuperar o ar. Beijou-lhe o pescoo-. No consigo me aproximar o suficiente.
      
      Abraou-o um momento mais, logo, lenta e dolorosamente, separou-o de seu lado.
      
      -Sim poderia. E isso  o que mais di -deu meia volta e subiu os degraus  carreira.
      
      -Catherine.
      
      C.C. deteve-se ante a porta. Com a cabea erguida, voltou-se. O j ia atrs dela quando viu que as lgrimas brilhavam em seus olhos. Nada mais poderia hav-lo 
detido.
      
      -Adeus, Trent. Rezo a Deus para que isto te mantenha acordado de noite.
      
      Enquanto ouvia o eco da portada, soube que assim seria.
      
      
      No pode continuar. J no posso fingir que sou infiel a meu marido s entre as tampas deste jornal. Minha vida, to tranqila e ordenada durante vinte e quatro 
anos, este vero se converteu em uma mentira. Uma mentira que tenho que expiar.
      
      Ao aproximar o outono e fazer planos para retornar a Nova Iorque, agradeo a Deus que logo deixarei a minhas costas Mount Desert Island. Que perto, que perigosamente 
perto estive estes ltimos dias de romper meus votos matrimoniais.
      
      E entretanto, sinto dor.
      
      dentro de uma semana nos teremos ido. Pode que jamais volte a ver o Christian. Assim  como deveria ser. Como deve ser. Mas em meu corao sei que daria minha 
alma por uma noite, inclusive uma hora, em seus braos. Obceca-me imaginar como poderia ser. Com ele ao fim existiria paixo e amor, inclusive risada. Com ele no 
seria simplesmente um dever, frio e silencioso e breve.
      
      Reza para que me perdoe o adultrio que cometi em meu corao.
      
      Minha conscincia me impulsionou a me manter afastada dos penhascos. E o tentei. Exigiu-me que seja mais paciente, carinhosa e pormenorizada com o Fergus. 
Tenho-o feito. Sem importar o que ele me pediu, tenho-o feito. A pedido dele ofereci um ch para as damas. fomos ao teatro, a inumerveis janta. escutei falar de 
negcios, moda e a possibilidade de guerra at que a cabea me palpitava. Meu sorriso jamais vacila, j que Fergus prefere que parea satisfeita em todo momento. 
Como o agrada, as noites que samos me ponho as esmeraldas.
      
      Agora so meu castigo, um aviso de que um pecado no sempre radica no ato, mas tambm no corao.
      
      Encontro-me na torre enquanto escrevo. Os penhascos esto abaixo, esses penhascos onde Christian pinta. Ali aonde vou quando me escapulo da casa como se fora 
uma donzela luxuriosa. Envergonha-me. Sustenta-me. Inclusive agora olhou abaixo e o vejo. Est de cara ao mar, e me espera.
      
      Nunca nos havemos meio doido, nem uma vez, embora ambos o desejamos. Tenho descoberto quanta paixo pode haver nos silncios, nos olhares prolongados e afligidas.
      
      Hoje no irei com ele, ficar aqui sentada a olh-lo. Quando sentir que tenho a fora, irei a seu lado para me despedir e lhe desejar o melhor.
      
      Enquanto viva o comprido inverno que me espera, perguntarei-me se o prximo vero estar aqui.
      
      10
      
      
      
      
      
      
      -Aqui tem os documentos que solicitou, senhor St. James.
      
      Alheio  presena de sua secretria, Trent continuou de p ante a janela. Era um costume que tinha adquirido desde que retornou ao trabalho trs semanas atrs. 
Atravs do amplo cristal tinto podia observar o agitao de Boston. Torres de ao e cristal brilhavam junto a elegantes casa de tijolo em uma mescla arquitetnica. 
Com sudaderas e calas de distintas cores, os esportistas partiam pelo caminho que seguia a corrente do no.
      
      
      -Senhor St. James?
      
      -Sim? -girou a cabea para olhar a sua secretria.
      
      -Trouxe-lhe os documentos que solicitou.
      
      -Obrigado, Angela -por um velho hbito, olhou seu relgio. Refletiu que logo que tinha pensado no tempo passado junto ao C.C.-. So as cinco passadas. Deveria 
ir-se a casa, com sua famlia.
      
      -Posso falar com voc um minuto?
      
      -De acordo. Quer sentar-se?
      
      -No, senhor. Espero que no considere minhas palavras desconjurada, senhor St. James, mas quereria saber se se sente bem.
      
      -No o pareo? -o fantasma de um sorriso apareceu em seus lbios.
      
      -OH, sim, certamente. um pouco cansado, talvez. O que passa  que desde que retornou de Bar Harbor parece distrado, e distinto de algum modo.
      
      -pode-se dizer que estou distrado. Sou distinto, e para responder a sua pergunta original, no, no acredito estar de tudo bem.
      
      -Senhor St. James, se houver algo que eu possa fazer...
      
      sentou-se no bordo de seu escritrio e a estudou. Tinha-a contratado por ser eficiente e rpida. Conforme recordava, tinha estado a ponto de descart-la porque 
tinha dois filhos pequenos. Tinha-o preocupado que no pudesse ser capaz de equilibrar suas responsabilidades, mas tinha assumido o que tinha considerado um risco. 
Com excelentes resultados.
      
      -Angela, quanto tempo tem casada?
      
      -Casada? -desconcertada, piscou-. Dez anos.
      
      -Feliz?
      
      -Sim, Joe e eu somos felizes.
      
      "Joe", pensou ele. Nem sequer conhecia o nome do marido. No se tinha incomodado em averigu-lo.
      
      -por que?
      
      -por que, senhor?
      
      -por que  feliz?
      
      -Seu... Suponho que porque nos amamos.
      
      Assentiu, gesticulando para insisti-la a continuar.
      
      -E isso basta?
      
      -Certamente ajuda quando se passa por momentos complicados -sorriu um pouco, pensando em seu Joe-. tivemos alguns, mas um dos dois sempre consegue ajudar a 
que o outro o atravesse.
      
      -Ento, consideram-se uma equipe. Tm muitas coisas em comum?
      
      -No sei. Ao Joe adora o futebol e eu o odeio. Adora o jazz, e eu no o entendo -at depois no lhe ocorreria que essa era a primeira vez que se sentou a gosto 
com o Trent desde que tinha comeado a trabalhar para ele-. s vezes me d vontade de me pr plugues para os ouvidos durante todo o fim de semana. Sempre que me 
passa pela cabea a idia de larg-lo, penso em como seria minha vida sem ele. E eu no gosto do que vejo -tomou a liberdade de aproximar-se-. Senhor St. James, 
se for pelas bodas da Marla Montblanc, bom, eu gostaria de lhe dizer que  melhor para voc.
      
      -Marla se casou?
      
      Atnita de verdade, Angela moveu a cabea.
      
      -Sim, senhor. A semana passada, com aquele jogador profissional de golfe. Apareceu em todos os peridicos.
      
      -Devi pass-lo por alto -nos peridicos tinham aparecido outras coisas que tinham captado sua ateno.
      
      -Sei que levava um tempo vendo-a.
      
      "Vendo-a", repetiu mentalmente. "Sim, essa frase fria e desapaixonada descreve  perfeio nossa relao".
      
      -Sim, assim .
      
      -No est... molesto?
      
      -Pelo da Maria? No -a realidade era que fazia semanas que no pensava nela. Desde que tinha entrado naquela oficina e vista umas botas velhas.
      
      Angela compreendeu que havia outra mulher. E se tinha tido esse efeito no chefe, dispunha de todo seu apoio.
      
      -Senhor, se algum... se alguma outra coisa -corrigiu com cautela- ocupa sua mente, talvez esteja analisando em demasia a situao.
      
      O comentrio o surpreendeu o suficiente para lhe provocar outro sorriso.
      
      -Analiso em demasia, Angela?
      
      - voc muito meticuloso, senhor St. James, e analisa bastante os detalhes, o qual  muito proveitoso para os negcios. Os assuntos pessoais no sempre se 
podem encarar com lgica.
      
      -Eu mesmo cheguei a essa concluso -voltou a ficar de p-. Agradeo-lhe o tempo.
      
      -foi um prazer, senhor St. James -e era a verdade-. Posso fazer algo mais por voc?
      
      -No, obrigado -dirigiu-se para a janela-. Boa tarde, Angela.
      
      -Boa tarde -sorria quando fechou a porta a suas costas.
      
      Trent permaneceu ali um bom momento. No, no tinha notado o anncio das bodas da Maria. Os peridicos tambm haviam talher a iminente venda de Las Torres. 
"O marco de Bar Harbor ser o prximo hotel St. James", recordou. "Rumores de tesouros perdidos suavizam o trato".
      
      Trent no sabia onde se produziu a filtrao, embora no o surpreendia. Tal como tinha antecipado, seus advogados se opuseram  clusula em que tinha insistido 
Lilah. Os murmrios de esmeraldas tinham chegado at os corredores. Era natural que chegassem at a rua e a imprensa.
      
      Durante mais de uma semana abundaram nos jornais e tablides as especulaes sobre as esmeraldas Calhoun. As tinha chamado invaluables, trgicas e legendrias... 
todos os adjetivos apropriados para garantir titulares.
      
      tornaram-se a tratar a fundo as faanhas empresariais do Fergus Calhoun, junto com o suicdio de sua mulher. Um reprter empreendedor inclusive tinha conseguido 
localizar ao Colleen Calhoun em um cruzeiro pelo Mar Jnico. A expressiva rplica da grande dama tinha aparecido em itlico.
      
      Uma Fraude.
      
      perguntou-se se C.C. tinha visto os peridicos. " obvio", concluiu. Provavelmente tambm tinha sido acossada pela imprensa.
      
      "Como o estar levando? Sentir-se doda e desventurada, obrigada a responder perguntas quando algum curioso reprter lhe coloque uma grabadora nos narizes?" 
Sorriu um pouco. Obrigada? Imaginou que teria jogado a meia dzia de jornalistas da oficina se tivessem tido o arrojo suficiente para tent-lo.
      
      Quanto a sentia falta de. E isso no o deixava viver. Despertava todas as manhs perguntando-se o que estaria fazendo. Todas as noites se ia  cama para no 
parar de dar voltas enquanto os pensamentos sobre lhe invadiam o crebro. Quando dormia, ela figurava em seus sonhos. Era seu sonho.
      
      "Trs semanas", pensou. "J deveria me haver adaptado". Entretanto, todos os dias que ele passava ali e ela em outra parte, piorava.
      
      Sobre o escritrio estavam os contratos revisados para a compra de Las Torres. Fazia dias que teria que hav-los assinado. No obstante, no conseguia convencer-se 
de dar esse passo final. A ltima vez que os tinha cuidadoso sozinho tinha sido capaz de centrar-se em trs palavras.
      
      Catherine Colleen Calhoun.
      
      Tinha-as lido uma e outra vez, recordando a primeira vez que lhe havia dito seu nome, arrojando-lhe como se tivesse sido uma arma. Recordou que tinha tido 
graxa na cara. E fogo nos olhos.
      
      Logo rememorava outras ocasies, momentos nicos, palavras soltas. O modo em que ela o tinha observado com o cenho franzido do brao do sof enquanto Trent 
tomava o ch com Coco. A expresso na cara do C.C. quando tinham estado juntos na terrao, contemplando o mar. quo bem a boca dela tinha encaixado na sua ao beij-la 
sob uma rvore de glicinas que ainda no tinham florescido.
      
      perguntou-se se pensaria nele quando caminhasse por aquela arvoredo. Se o fazia, temia que os pensamentos no fossem amveis.
      
      A ltima vez que o tinha visto o tinha amaldioado. Tinha-lhe parecido esses olhos verdes e tinha desejado que o beijo, o ltimo beijo que tinham compartilhado, 
mantivera-o acordado de noite.
      
      Duvidava de que inclusive ela pudesse saber como esse desejo se feito realidade.
      
      esfregou-se os olhos cansados e regreso`  mesa. como sempre, achava-se em perfeita ordem. Igual a seus negcios... e como tinha estado sua vida.
      
      viu-se obrigado a reconhecer que as coisas tinham trocado. Ele tinha trocado, embora possivelmente nem tanto. Uma vez mais elevou os contratos para estud-los. 
Seguia sendo um homem de negcios hbil e organizado, que sabia manobrar em um trato para conseguir que se decantasse a seu favor.
      
      Tomou a pluma e a fez oscilar levemente sobre os papis. Deixou que o germe de uma idia que tinha enraizado em sua mente fazia uns dias se formasse, reestruturasse 
e readaptasse.
      
      Sabia que era pouco usual. Possivelmente at um pouco excntrica, mas... mas estava convencido de que se jogava bem suas cartas, poderia funcionar. Em seus 
lbios foi formando um leve sorriso. Era seu trabalho conseguir que funcionasse. Suspirou. Possivelmente terminasse por ser o trato mais importante de sua vida.
      
      Desprendeu o auricular do telefone e, empregando toda a influncia dos St. James, ps as primeiras engrenagens em marcha.
      
      
      
      Hank terminou de polir o pra-lama do Mustang do 69 e logo se apartou para admirar sua obra.
      
      -Vai ficando muito bem -disse ao C.C.
      
      Ela girou o pescoo, mas tinha as mos enche com as pastilhas de freios que trocava em cima de sua cabea.
      
      -Ser uma preciosidade. Alegra-me que nos tenham encarregado restaur-lo.
      
      -Quer que me ponha com o aceso?
      
      C.C. amaldioou quando pela bochecha lhe caiu um pouco de lquido de freios.
      
      -No. H-me dito trs vezes que esta noite tnias uma entrevista. v lavar te e te largue.
      
      -Obrigado -ficou a guardar as ferramentas-. encontrastes j outra casa?
      
      -No -soslay a contrao que sentiu no estmago e se concentrou no que fazia-. Amanh vamos procurar.
      
      -No ser o mesmo no ter s Calhoun em Las Torres. Embora os peridicos no param de falar do colar.
      
      -J se acalmaro -ao menos isso esperava.
      
      -Suponho que se o encontrarem, sero milionrias. Poderiam lhes retirar a Florida.
      
      Apesar de seu estado de nimo, no pde evitar rir entre dentes.
      
      -Bom, pois ainda no o encontramos -"solo o recibo", pensou, que Lilah tinha encontrado durante seu nico turno, no armazm-. Florida pode esperar. Os freios 
no.
      
      -Acredito que vou. Quer que fechamento o escritrio?
      
      -Adiante. Que te divirta.
      
      partiu assobiando e C.C. parou um momento para lhe dar um descanso aos braos e o pescoo. Desejou ter podido reter o Hank um momento mais, por companhia, 
distrao. Embora no parava de falar da casa e do colar, ajudava-a a manter a mente ocupada.
      
      No importava o alta que pusesse a rdio, assim que ficava sozinha, havia muito silncio.
      
      Em qualquer momento teriam notcias do advogado. disse-se que possivelmente a tia Coco tinha recebido uma chamada do Stridley aquela tarde, para informar a 
de que os contratos se assinaram e ficava estabelecida uma data para o acordo.
      
      perguntou-se se Trent se apresentaria ao acordo. "No, claro que no". Enviaria a um representante, e isso seria o melhor.
      
      Alm disso, tinha muito que fazer para preocupar-se disso. Procurar uma casa, repassar os peridicos velhos em busca de uma pista sobre o paradeiro das esmeraldas, 
o Mustang clssico que pensava devolver a sua estado de perfeio. Logo que tinha um momento para respirar, muito menos para ruminar se veria o Trent.
      
      Se ao menos deixasse de lhe doer, embora s fora por uns minutos.
      
      "Melhorar", disse-se ao concentrar-se outra vez nos freios. Devia melhorar. depois de que tivessem encontrado uma casa nova. depois de que se apagassem os 
rumores sobre o colar. Tudo retornaria  normalidade... ou ao que ela teria que aceitar como normal. Se a dor no desaparecia nunca por completo, ento deveria aprender 
a viver com ele.
      
      Tinha a sua famlia. Juntos, podiam enfrentar-se a tudo.
      
      Ao terminar sentia os ombros rgidos. Moveu-os um pouco e foi sair de debaixo do carro quando se deu conta de que a rdio tinha deixado de sonar. Girou a cabea. 
E viu o Trent de p junto ao banco de trabalho. Lhe caiu ao cho a chave inglesa que sustentava.
      
      -O que faz aqui?
      
      -Esperar que termine -solo podia pensar em quo fabulosa estava-. Como te encontra?
      
      -Ocupada -sacudida pela dor, voltou-se para lhe dar ao interruptor da parede. O elevador gemeu ao baixar o veculo-. Suponho que vieste pela casa.
      
      -Sim, pode-se dizer que uma grande parte do que me traz aqui se deve a isso.
      
      -Espervamos ter notcias do advogado.
      
      -Sei.
      
      Quando o carro ficou sobre o cho, tomou um trapo e se limpou as mos, com a vista cravada nelas.
      
      -Amanda  quem se ocupa dos detalhes. Se precisa esclarecer algo, est no Bay Watch.
      
      -O que preciso esclarecer corresponde a ti. A ns.
      
      Ela elevou a vista, logo deu um passo atrs ao ver que se situou quase a seu lado.
      
      -Em realidade no tenho nada que te dizer.
      
      -De acordo, ento falarei eu. dentro de um minuto.
      
      moveu-se com rapidez. Entretanto, C.C. teve a certeza de que se tivesse esperado seu movimento, poderia hav-lo esquivado. Embora no esteve segura de que 
o tivesse tentado.
      
      Era to grato e justo que a boca de lhe cobrisse os lbios, que as mos lhe emoldurassem a cara. O orgulho lhe falhou o suficiente para fazer que lhe aferrasse 
as bonecas enquanto deixava que suas necessidades fluram nesse beijo.
      
      -Levo trs semanas e meia pensando nisto -murmurou ele.
      
      -Vete, Trent -fechou os olhos com fora.
      
      -Catherine...
      
      -Maldito seja, hei dito que v -soltou-se e se deu a volta para apoiar as mos no banco-. Odeio-te por vir aqui, por fazer que fique outra vez como uma parva.
      
      -No  voc a parva. Nunca o foste.
      
      Quando a mo de lhe roou levemente o ombro, agarrou um martelo e girou em redondo.
      
      -Se voltar a me tocar, que Deus me ajude, romperei-te o nariz.
      
      Olhou-a e viu que em seus olhos ardia outra vez o fogo.
      
      -Menos mal. retornaste -encantado mas precavido, levantou uma mo-. Me escute, por favor. Primeiro os negcios.
      
      -Meus negcios contigo esto fechados.
      
      -houve uma mudana de planos -tirou umas moedas da lata que havia no banco-. Posso te convidar a um refresco?
      
      -No. Dava o que tenha que dizer, logo te largue.
      
      O se encolheu de ombros, dirigiu-se  mquina vendedora e introduziu as moedas. Foi nesse momento quando C.C. deu-se conta de que levava postos uns botas de 
cano longo.
      
      -E que  isso?
      
      -Estes? -sorriu ao abrir a jata-. Sapatos novos. Voc gosta? -ao ver que a nica resposta dela era ficar boquiaberta, bebeu um gole-. Sei que no  minha imagem 
habitual, mas as coisas trocam. Algumas costure trocaram. Importaria-te deixar esse martelo?
      
      -O que? OH, de acordo -deixou-o sobre o banco-. H dito que os planos tinham trocado. Significa isso que decidiste no comprar As Torres?
      
      -Sim e no. Prefere que vamos a seu escritrio a fal-lo?
      
      -Maldita seja, Trent, simplesmente me diga o que est passando.
      
      -Muito bem.  isto. Tomamos uma asa, a oeste, acredito, para que no envolva a torre da Bianca. Restauramo-la por completo. Eu prefiro proteger o material 
original at onde seja possvel e, sempre que for factvel, reconstruir de acordo com os planos originais. Deveria manter seu ar de fim de sculo. Isso ser parte 
do acordo.
      
      -O acordo? -repetiu, perdida.
      
      -Podemos obter facilmente dez sutes sem pr em perigo a arquitetura. Se no me falhar a memria, a sala de bilhar ser excelente como comilo, com a torre 
oeste preparada para oferecer veladas mais ntimas e festas privadas.
      
      -Dez sutes?
      
      -Na asa oeste -corroborou ele-. Com preferncia para a esttica e a intimidade. Temos que devolver seu funcionamento a todas as chamins. Acredito que com 
o que ofereceremos, disporemos de uma clientela para todo o ano e no s para a temporada.
      
      -O que vais fazer com o resto da casa?
      
      -Isso depender de ti e de sua famlia -deixou a lata a um lado e se aproximou dela-. Tal como eu o vejo, poderiam viver com comodidade nas dois primeiras 
novelo e esta asa. Deus sabe que sobra espao.
      
      Confusa, levou-se os dedos s tmporas.
      
      -Seramos seus... inquilinos?
      
      -No  exatamente o que eu tinha em mente. Pensava mais em uma sociedade -tomou a mo e a observou-. Seus ndulos sanaram.
      
      -Que classe de sociedade?
      
      -A Corporao St. James pe o dinheiro para a restaurao, a publicidade e coisas pelo estilo. Assim que o balnerio, neste caso eu gosto mais que hotel... 
assim que esteja operativo, repartimos os benefcios aos cinqenta por cento.
      
      -No o entendo.
      
      - muito singelo, C. C. -elevou-lhe a mo e lhe beijo um dedo-. As duas partes cedem. Ns temos nosso hotel e vocs seu lar. Ningum perde.
      
      Ela apagou a breve chama da esperana por temor a senti-la.
      
      -No vejo como poderia funcionar. por que algum quereria alojar-se no lar de outras pessoas?
      
      - um marco -recordou-lhe, lhe beijando outro dedo-. Com uma lenda, um fantasma e um mistrio. Pagaro bem por estar aqui. E quando provarem a bullabesa de 
Coco...
      
      -A tia Coco?
      
      -J lhe ofereci o posto de chef. Est encantada. Segue pendente a questo de quem o dirigir, mas acredito que  um posto perfeito para a Amanda, no te parece? 
-seus olhos irradiaram alegria ao lhe beijar o terceiro dedo.
      
      -por que faz isto?
      
      -Sou um homem de negcios. E isto oferece um bom negcio. J comecei a pesquisa de mercado -girou-lhe a mo e apoiou os lbios sobre a palma-.  o que lhe 
hei dito a minha junta diretiva. Mas acredito que voc sabe realmente o que acontece.
      
      -Eu no sei nada -apartou a mo para ir para as portas abertas da oficina-. Quo nico sei  que retorna com um plano desatinado...
      
      - um plano muito slido -corrigiu--. No sou uma pessoa dada aos planos descabelados. Ao menos nunca o fui -aproximou-se e a tomo pelos ombros-. Quero que 
retenha seu lar, C.C.
      
      -Assim que o faz por mim -fechou os olhos.
      
      -Por ti, por suas irms, por Coco, inclusive pela Bianca -girou-a para que o olhasse-. E o fao por mim. Queria me manter acordado pelas noites, e o conseguiste.
      
      -A culpabilidade obra milagres -conseguiu esboar um sorriso dbil.
      
      -No tem nada que ver com a culpa. Nunca foi assim. Mas sim com o amor. estando apaixonado. No te aparte -murmurou quando ela quis soltar-se-. Os negcios 
j acabaram por hoje. Agora solo estamos voc e eu. No pode ser mais pessoal.
      
      -Para mim tudo  pessoal, no o entende? -manifestou ela com as mos fechadas aos flancos-. Veio aqui e trocou tudo em minha vida, e logo te partiu. E agora 
volta e me comunica que alteraste seus planos.
      
      -No  a nica cuja vida se alterou. Desde que te conheci, nada foi igual para mim sentiu uma quebra de onda de pnico. C. C. no ia brindar lhe outra oportunidade-. 
Eu no pedi isto. No o queria.
      
      -OH, deixou bem claro o que no queria empurrou sem conseguir apart-lo-. No tem direito a comear isto outra vez.
      
      -Ao corno com os direitos -sacudiu-a-. Intento te dizer que te amo.  a primeira vez para mim, e no vais converter o em uma discusso.
      
      -Converterei-o no que goste -espetou, furiosa quando lhe quebrou a voz-. No vou permitir que volte a me fazer danifico. No vou A... -ficou quieta com os 
olhos muito abertos-. H dito que me amava?
      
      -te cale e escuta. passei trs semanas e meia me sentindo vazio e desgraado sem ti. Fui porque pensei que poderia faz-lo. Porque pensei que era o justo e 
melhor para os dois. Lgicamente, era-o. Segue sendo-o. No nos parecemos em nada. No encontro nenhuma percentagem de probabilidades favorveis em arriscar nossos 
futuros quando sei que estaria melhor com outra pessoa. Com algum como Finney.
      
      -Finney? -lhe escapou uma risada-. OH,  fantstico -enquanto suas emoes redemoinhavam, golpeou-o no peito-. Direi-te uma coisa. por que no te leva sua 
percentagem a Boston e sacas um grfico? E agora me deixe em paz. Tenho trabalho.
      
      -No terminei -quando ela abriu a boca para amaldioar, Trent deixou que o dominasse o instinto e a beijou at que se tranqilizou. To ofegante como ela, 
apoiou a frente contra a do C. C.-. No tem nada que ver com a lgica ou as percentagens -sem solt-la, deu um passo atrs para poder v-la-. Catherine, cada vez 
que me dizia que no acreditava no amor nem nos matrimnios eternos, recordava como me sentia contigo.
      
      -Como? Como se sentia comigo?
      
      -Vivo. Feliz. E sabia que no voltaria a me sentir dessa maneira a menos que retornasse -soltou-a-. C. C., uma vez me disse que o que tnhamos podia ser a 
melhor parte de minha vida. Tinha razo. No sei se obterei que funcione, mas preciso tent-lo. Necessito-te.
      
      Catherine se deu conta de que ele tinha medo. Inclusive mais que ela. Sem lhe tirar a vista de cima, elevou uma mo a sua cara.
      
      -Posso te oferecer uma garantia por um amortecedor, Trent. No por isso.
      
      -Conformo-me com que me diga que ainda me ama, que me dar outra oportunidade.
      
      -Ainda te amo. Mas no posso te dar outra oportunidade.
      
      -Catherine...
      
      -Porque ainda no tomaste a primeira-lo beijou com suavidade duas vezes-. por que no tomamos juntos? -riu quando ele a pegou a seu corpo-. Te vais encher 
de graxa.
      
      -Terei que me acostumar -depois de dar umas voltas, apartou-se para estud-la. Tudo o que precisava estava nesses olhos-. Amo-te, Catherine. Amo-te muito.
      
      -Terei que me acostumar a isso -acariciou-lhe a bochecha-. Possivelmente necessite que o repita cem vezes -Trent o repetiu enquanto a abraava, enquanto lhe 
enchia a cara de beijos, enquanto se atrasava no sabor de sua boca-. Acredito que funciona murmurou-. Possivelmente deveramos fechar as portas da oficina.
      
      -as deixe abertas -voltou a retroceder, lutando para limp-la cabea-. Sigo sendo o bastante St. James para querer fazer as coisas em sua ordem adequada, mas 
o controle me escapa.
      
      -E a que ordem te refere? -sorrindo, passado um dedo pela camisa do para brincar com o boto superior.
      
      -Espera -aceso, apoiou uma mo sobre a do C. C.-. pensei nisto durante todo o trajeto de Boston. Revivi-o de muitas maneiras distintas... te convidaria para 
jantar outra vez, beberamos um pouco de vinho e haveria muitas velas, ou passearamos pelo jardim ao anoitecer -olhou em torno do oficina. "Madressilva e azeite 
de motores", pensou. "Perfeito"-. Mas estes parecem o momento e o lugar adequados -tirou um estojo pequeno do bolso, abriu-o e o entregou a ela-. Em uma ocasio 
disse que se te oferecia um diamante, riria-te em minha cara. Pensei que poderia ter mais sorte com uma esmeralda.
      
      Catherine conteve as lgrimas ao contemplar a pedra de um verde intenso em seu singelo engaste de ouro. Brilhava para ela, cheia de esperana e promessas.
      
      -Se for uma proposio, no te faz falta nada de sorte -olhou-o com olhos midos e brilhantes. A resposta sempre foi sim.
      -Vamos a casa -disse depois de lhe introduzir o anel no dedo. -Sim -tomou a mo-. Vamos a casa.
